Desvendando 4 mitos de quem não acredita em mudanças climáticas

Ines Eisele

  • Anindito Mukherjee/Reuters

    Búfalos fogem de incêndio provocado pelo calor em Nova Déli, capital da Índia

    Búfalos fogem de incêndio provocado pelo calor em Nova Déli, capital da Índia

Muitos dizem que as mudanças climáticas são uma mentira. Mas seus argumentos são pseudocientíficos e sem fundamento. A DW elenca algumas das principais alegações e mostra por quê elas são falsas.

A mudança climática não é apenas uma questão de acreditar ou não: sobre o tema, há pesquisas e fatos. Portanto, é hora de examinar as afirmações dos céticos - e mostra por que elas estão erradas.

Yana Paskova/Getty Images/AFP
Bibicleta coberta pela neve em Nova York

1 – Se o aquecimento global é real, por que estamos vivendo invernos com recorde de frio? Por que 1998 foi muito mais quente do que a maioria dos anos seguintes. Por que a superfície congelada no Hemisfério Sul está aumentando? O planeta não deveria estar ficando mais quente?

Sim, os fenômenos são reais. É errado, porém, considerá-los uma prova contra o aquecimento global. Isso porque as temperaturas globais não aumentam de forma linear e uniforme: alguns invernos no hemisfério norte, como no ano 2009/2010, foram particularmente frios, e outros mais quentes. Muitos fatores influenciam o clima: extraterrestres e terrestres, naturais ou antropogênicos (causados pelas atividades humanas), que interagem uns com os outros.

Por exemplo, há o El Niño, um fenômeno climático que, nos últimos anos, causou frequentemente altas temperaturas. Além de causar inundações em certas partes do mundo e secas em outras, o El Niño acarreta também temperaturas recordes temporárias – como no ano de 1998.

A extensão da cobertura de gelo na Antártida aumenta, enquanto no Ártico acontece exatamente o oposto. A principal razão é que a Antártida é afetada de forma diferente, em comparação com o Ártico, por ventos e correntes marítimas que protegem a região contra muitas influências climáticas. Portanto, o caso especial da Antártida não coloca em xeque o aquecimento global.

Apesar de todas as variações, observa-se, desde o início das medições sistemáticas, em 1880, um aumento das temperaturas médias da atmosfera terrestre e do mar. O ano de 2016 foi o mais quente desde 1880, sendo que o segundo e o terceiro mais quentes foram 2015 e 2014. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a temperatura global média aumentou em 0,85 graus Celsius de 1880 a 2012. Cada uma das últimas três décadas foi mais quente do que todas as anteriores desde 1850.

Julian Stratenschulte/EFE
Usina a carvão em Hohenhameln, na Alemanha

2 – A mudança climática é um processo natural e não causado pelo homem. As emissões de CO2 pelos humanos são pequenas demais para influenciar o clima.

Sim, é verdade. O clima está mudando desde que a Terra existe. No decurso de milhões de anos, os períodos frios e quentes sempre se alternam – um processo natural. A natureza tem também sua parcela nas mudanças climáticas desde a industrialização, ou seja, no aumento da temperatura global, aquecimento dos oceanos e aumento dos gases de efeito estufa na atmosfera.

Mas a mudança climática dos últimos 50 a 150 anos ocorre muito mais rápido do que quaisquer outras fases de aquecimentos conhecidas na história recente do nosso planeta. Em seu último relatório de 2013, o IPCC considera como "muito provável" que a influência humana é a principal causa do aquecimento desde a metade do século 20.

O aumento da liberação de gases de efeito estufa como o dióxido de carbono e metano pelo homem levou a uma concentração de gases na atmosfera que não ocorria desde 800 mil anos atrás. Segundo o IPCC, desde 1750, a concentração de CO2 aumentou 40% e, de metano, 150%. É verdade que o CO2 também é liberado por vulcões e está contido no mar, no ar, em plantas e em regiões permafrost (solo encontrado na região do Ártico). Mas a natureza absorve o CO2 que ela também libera, gerando, assim, um equilíbrio. No entanto, as emissões adicionais dos seres humanos não podem ser totalmente absorvidas: elas são "em excesso" e acabam na atmosfera terrestre. Este processo se torna ainda mais significativo, por exemplo, devido ao desmatamento de florestas e o degelo das regiões permafrost.

Cerca de 97% de todos os pesquisadores sobre o clima estão certos de que as atividades humanas influenciam a mudança climática. Portanto, pode-se falar de um consenso científico. De acordo com estudos, os 3% dos cientistas que negam o aquecimento global antropogênico – quer dizer, causados pelo homem – são, muitas vezes, menos especializados na área. Eles vêm geralmente de observatórios conservadores como o Instituto Cato, que é financiado, entre outros, pela Volkswagen e empresas de energia.

Getty Images/iStockphoto
Nuvens de tempestade, evento cuja formação é influenciado por muitos fatores

3 – Se não conseguimos prever com exatidão como será o tempo amanhã, como podemos antever o clima daqui a 100 anos?

Quem não conhece essa situação: a previsão era de um fim de semana com muito sol, mas, no final das contas, ele foi chuvoso. Em princípio, as previsões meteorológicas são diferentes dos modelos climáticos. O tempo é referente a um período mais curto, caótico e influenciado por muitos fatores. Por outro lado, o clima é referente a um prazo mais longo, e eventos caóticos são estatisticamente equilibrados.

Portanto, reconhecer uma tendência climática ao longo de várias décadas – no caso de um aumento de temperatura causada por gases de efeito estufa – é mais fácil do que prever o tempo com precisão de horas. Segundo o IPCC, a confiabilidade das previsões climáticas nos últimos anos melhorou significativamente. Muitos modelos climáticos foram desenvolvidos e são capazes de fazer uma simulação mais completa.

Farooq Khan/EFE
Menino se refresca em cascata na cidade de Srinagar, na Índia

4 – Ok, então a temperatura está aumentando em todo o mundo em apenas alguns graus Celsius. Isso é realmente tão ruim? Afinal, a Terra já lidou com muitas mudanças. Dois ou três graus a mais não parece muito.

Algumas pessoas acham até melhor ter mais verão e menos inverno. Mas esses graus Celsius de diferença podem ter consequências extremas para o clima global. De acordo com o IPCC, sem uma proteção ambiciosa do clima, a temperatura média global poderia subir 5,4 graus até o final do século 21 em comparação ao período pré-industrial. Isso significaria mais eventos climáticos extremos, como secas e precipitações intensas.

Assim, as geleiras continuariam a derreter, o nível do mar subiria e muitas regiões habitadas pelos humanos seriam inundadas. Os oceanos se tornariam mais quentes e ácidos, e a flora e fauna sofreriam. A Terra é um sistema flexível. No passado, ela e seus habitantes já tiveram que se adaptar a notórias mudanças. Mas a capacidade de mudar também tem seus limites: a mudança climática antropogênica é muito mais rápida do que a capacidade de adaptação da natureza a essas alterações causadas pelos homens.
 

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