O que significa saída dos EUA para o Acordo do Clima de Paris?

Fernando Cymbaluk*

Do UOL, em São Paulo

  • Joshua Roberts/Reuters

    Protesto em abril sobre aquecimento global em frente à Casa Branca

    Protesto em abril sobre aquecimento global em frente à Casa Branca

Com a saída dos EUA do Acordo do Clima de Paris, anunciada pelo presidente Donald Trump nesta quinta-feira (1º), a China passa a ser vista como grande aposta para ocupar a posição de liderança política nas negociações climáticas, ao lado da União Europeia.

Para especialistas consultados pelo UOL, os chineses têm dado sinais claros de que não voltam atrás em suas políticas de investimento em energia limpa. Contudo, o país precisa ir além da retórica e adotar medidas concretas para antecipar suas metas de combate ao aquecimento global.

A oportunidade que pode ser aproveitada pelos chineses é a de assumirem uma liderança política e também econômica, aproveitando as oportunidades da chamada economia verde.

A China tem a chave do tesouro, mas precisa sinalizar que vai ocupar esse espaço de liderança política e econômica, reduzindo suas emissões antes de 2030

Carlos Nobre, climatologista 

No entanto, a saída dos EUA do histórico acordo firmado no fim de 2015 na capital francesa, com 195 países signatários e ratificado em velocidade recorde, traz, contudo, sérias dificuldades para se alcançar a meta de limitar o aquecimento global abaixo de 2°C.

O desestímulo a outros países para adotar ações de redução de emissões, e a diminuição do financiamento de países pobres, que precisam de ajuda externa para suas iniciativas de mitigação, são pontos sensíveis que podem travar as negociações.

O grande problema é que as metas nacionais (NDCs) apresentadas pelos países em Paris precisariam ser incrementadas, pois como estão colocam o globo na direção de um aquecimento de 2,7°C a 3,1°C. Em 2018, os países devem sentar à mesa para apresentarem aumento de ambição de usas metas. A saída dos EUA provoca mal-estar e impactos ainda incertos a essas conversas.

A saída dos EUA cria um precedente perigoso para outras nações seguirem o mesmo caminho"

Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Países como Rússia e Filipinas já ameaçaram recuos, e  outros como Austrália e Nova Zelândia, que tradicionalmente eram refratários à ação no clima, podem se sentir menos estimulados a perseguirem as ações que propuseram. "Os países já eram refratários a colocar na mesa algo mais ambicioso. Agora ficam mais difíceis as negociações, a responsabilidade cai sobre os demais países", diz Andréa Santos, secretária executiva do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. 

O único lado positivo da saída dos EUA é que o país ao menos deixa de atrapalhar as negociações climáticas. "Pode ser melhor não ter os norte-americanos travando o progresso do resto do mundo", afirma Rittl. 

Veja o que a saída dos EUA do Acordo de Paris significará para o resto do mundo.

1. O acordo fica mais fraco

Não há dúvidas de que a ausência dos EUA dificulta o cumprimento das metas estabelecidas pelas nações globais no Acordo de Paris - sobretudo impedir que a temperatura global suba mais de 2ºC.

Em 2016, registrou-se no mundo um nível recorde de emissões de dióxido de carbono, algo que especialistas chamaram de "uma nova era" de aquecimento global e "prova irrefutável" da responsabilidade humana sobre as mudanças climáticas.

O acordo parisiense prevê limites à emissão de gases do efeito estufa e que países ricos ajudem os mais pobres financeiramente a se adaptar às mudanças climáticas e na adoção de energias renováveis.

Os EUA contribuem com cerca de 15% das emissões globais de carbono, mas ao mesmo tempo é uma importante fonte de financiamento e tecnologia para países em desenvolvimento em seus esforços para combater o aquecimento global.

Outra questão é a da "liderança moral" da qual os EUA abdicarão ao deixar de lado o acordo climático - algo que pode ter consequências no âmbito diplomático.

O ambientalista Michael Brune, diretor-executivo do grupo Sierra Club, considerou o recuo americano "um erro histórico que será analisado por nossos netos com decepção e surpresa sobre como um líder global conseguiu estar tão distante da realidade e da moralidade".

Michael Sohn/AP Photo
O premiê chinês Li Keqiang e a chanceler alemã Angela Merkel anunciaram seu compromisso com o Acordo de Paris

2. A China ganha protagonismo

China e Estados Unidos foram atores cruciais na consolidação do acordo climático. O ex-presidente Barack Obama e seu par chinês, Xi Jinping, entraram em consenso quanto à criação de uma "ambiciosa coalizão" com pequenos países insulares e a União Europeia.

A China apressou-se em reafirmar seu compromisso com o acordo parisiense, e espera-se um comunicado conjunto de Pequim e União Europeia nesta sexta-feira prometendo maior cooperação no corte de emissões de carbono.

"Ninguém deveria ficar para trás, mas a UE e a China decidiram andar para frente", disse o comissário climático da União Europeia, Miguel Arias Cañete.

É possível também que, além de aumentar o protagonismo chinês, a decisão americana abre espaço para que Canadá e México ascendam como "players" significativos nas Américas no esforço de impedir o aumento das temperaturas globais.

3. Financiamento do Fundo Verde fica em risco

A meta dos países mais ricos do mundo de aumentar a contribuição para combater a mudança climática até que ela chegue a US$ 100 bilhões por ano em 2020 fica comprometida com a saída dos EUA. "Agora há menos recursos na mesa, e isso é péssimo para países mais pobres que colocaram metas condicionadas à disponibilidade de financiamento", diz Rittl.

Entre países que dependem de repasses do Fundo Verde para alcançarem suas metas estão México, África do Sul e muitas das nações mais vulneráveis ao aquecimento global por serem insulares ou muito pobres. "O Fundo Verde sempre foi boa intenção que nunca se materializou. Vamos ver se o espaço que os EUA vão deixar vai ser ocupado em toda dimensão, por países como China e Europa, que estão olhando para o mercado de energia verde", afirma Nobre.

4. Lideranças empresariais globais se sentirão contrariadas

Líderes corporativos americanos formaram uma das mais fortes vozes em favor da permanência dos EUA no Acordo de Paris.

Centenas de empresas como Google, Apple e até mesmo produtoras de combustíveis fósseis como Exxon Mobil haviam pedido a Trump que se mantivesse nas negociações climáticas.
Darren Woods, executivo-chefe da Exxon, escreveu uma carta pessoal a Trump dizendo que os EUA "estão bem posicionados" para competir globalmente dentro do acordo, com o qual os EUA teriam "um assento na mesa de negociações de forma a garantir a igualdade" das regras de mercado.

Kim Kyung-Hoon/Reuters
População chinesa usa máscaras para se proteger da poluição

5. É improvável que o carvão volte a ter protagonismo

Uma das forças eleitorais de Trump no pleito de 2016 é região americana produtora de carvão - em Estados como Virgínia Ocidental, Ohio e Pensilvânia, que ele diz terem sido prejudicados pelo Acordo de Paris -, à qual o presidente prometeu incentivos e empregos durante a campanha.

Mas o ocaso do carvão, que também está sendo abandonado em diversos outros países, dificilmente será revertido. Além disso, a quantidade de empregos gerados nos EUA pela indústria carvoeira equivale hoje à metade dos gerados pela indústria de energia solar.

Ainda que muitos países em desenvolvimento ainda dependam do carvão, essa fonte de energia é alvo de críticas por seu forte impacto na qualidade do ar. E a queda dos preços da energia renovável também tem levado nações como a Índia a adotar fontes mais verdes de combustível.

6. Ainda assim, as emissões devem cair

Mesmo com a saída americana, as emissões de carbono devem continuar a cair nos EUA - isso por causa do crescimento do gás como fonte de energia em substituição ao carvão.
O uso do gás de xisto - que também é alvo de polêmicas ambientais - cresceu exponencialmente com o aumento da produção e a queda dos preços.

7. Igual Kyoto?

O gesto de Trump, saindo do Acordo de Paris, é muito semelhante ao do ex-presidente dos EUA, George W. Bush, que em 2001 desistiu de ratificar o Protocolo de Kyoto, acordo feito entre nações em 1997 que estabelecia metas de redução de emissões de gases estufa. O Acordo de Paris substituiu o Protocolo de Kyoto, cuja validade expirou em 2012.

Para Carlos Rittl, Trump promove "o pior revés para a ação climática global, desde que os mesmos Estados Unidos abandonaram o Protocolo de Kyoto, 16 anos atrás". Contudo, na análise de Carlos Nobre, o contexto atual faz com que a medida de Trump não se assemelhe ao dano provocado por Bush. "Em Kyoto não se tinha dimensão do tamanho dos riscos da mudança climática. As evidências hoje são gigantescas. Estamos em outro mundo, em outra situação", afirma.

* Com informações da BBC

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos