COP23 começa com desafio de superar saída dos EUA do Acordo de Paris

Do UOL, em São Paulo*

  • Pawel Kopczynski/ Reuters

Começa nesta segunda-feira (6) a 23º Conferência do Clima, que vai dar andamento ao Acordo de Paris com o grande desafio de superar a saída dos Estados Unidos e, ainda assim, manter as metas estabelecidas em dezembro de 2015. Metas que o Brasil não tem conseguido cumprir e, portanto, pode ser fortemente cobrado por isso.

Ao declarar aberta a conferência, o presidente da COP23 lançou um pedido para uma ação urgente da comunidade internacional. "Nosso apelo coletivo é que se mantenha o rumo fixado em Paris", declarou o primeiro-ministro de Fiji, Frank Bainimarama.

A rigor, quem lidera a Conferência do Clima das Nações Unidas a cada ano é o país anfitrião. Algo que nessa edição não acontece, já que as Ilhas Fiji não se consideraram capazes de acomodar 25 mil negociadores, ambientalistas e jornalistas: o Estado insular no Pacífico Sul sequer dispõe de um centro de convenções grande o suficiente.

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Assim, a caravana do clima se instala para a COP23, de 6 a 17 de novembro, na cidade de Bonn, a antiga capital alemã. Porém Fiji é que encabeça o encontro, mais exatamente o ex-general Frank Bainimarama, que governa com punho de ferro o Estado formado por 322 ilhas.

Os ambientalistas esperam que Bainimarama faça confluir os diferentes interesses em jogo e aponte possíveis consensos. Sabine Minninger, especialista do serviço de desenvolvimento das Igrejas luteranas alemãs Brot für die Welt, já visitou o arquipélago Fiji diversas vezes.

"Eles aproveitarão a conferência para enfatizar a vulnerabilidade dos Estados insulares do Pacífico. Estes são especialmente afetados pela mudança climática, desde já, devido à elevação do nível do mar. Ela já forçou Fiji a ter o primeiro lugarejo do mundo realocado por causa da mudança climática."

A meta dos 2°C 
Shutterstock
 

Um dos temas mais importantes será a concretização do Acordo do Clima de Paris, de 2015. Seus signatários se comprometem a, através de metas climáticas nacionais, cuidar para manter o aquecimento global abaixo de 2ºC. Além disso, os diferentes planos nacionais para o clima devem poder ser comparáveis entre si. E, se possível, as metas para o futuro devem ser formuladas de forma mais ambiciosa.

A ministra alemã do Meio Ambiente, Barbara Hendricks, só ocupa o cargo de forma interina, pois a composição do novo governo da Alemanha ainda está sendo negociada. Ainda assim, a política social-democrata quer aproveitar essa última atuação internacional para deixar sua marca, através de trabalho persistente nos detalhes.

"Eu espero que demos passos para definir como vamos preencher o Acordo do Clima. À primeira vista, não parece nada de espetacular. Mas é como se uma nova lei, de âmbito mundial, tivesse sido aprovada em dezembro de 2015, em Paris. E para tal são precisas regras de implementação."

Quase todos os Estados-membros da ONU se comprometeram com o Acordo de Paris, apenas Turquia, Rússia e Irã ainda têm que ratificá-lo. Fora isso, há o problema principal: os Estados Unidos.

Trump, vilão do clima 
Kevin Lamarque/Reuters

A sombra do presidente norte-americano, Donald Trump, paira sobre a COP23. Pouco após tomar posse, ele anulou o compromisso assumido por seu antecessor, Barack Obama, e quer abandonar o pacto. Só que a coisa não é tão simples assim: só daqui a três anos e meio os EUA poderão se retirar de fato. Por isso uma delegação americana também estará presente em Bonn, encabeçada por um alto funcionário do Departamento de Estado.

"Estou bem contente, porque, de fato, o secretário de Estado Rex Tillerson tem uma posição bem equilibrada. E estou confiante de que, pelo menos, a delegação americana não perturbará as negociações", antecipa a ministra Hendricks.

Sabine Minninger diz não temer que outros países sigam o exemplo dos EUA, abandonando o acordo.

"O que presenciamos nas negociações intermediárias em maio, em Bonn, é que o mundo ficou bem mais coeso, até mesmo por causa das supertempestades vistas no Caribe. E, junto com a saída dos EUA do Acordo de Paris, isso aguçou o estreitamento entre os Estados."

O que esperar do Brasil 
Bruno Kelly/Reuters
Área de desmatamento em Apuí (AM) é registrada em imagem aérea durante 'Operação Área Verde', realizada pelo Ibama

Apesar do recente anúncio de queda no desmatamento na Amazônia, o Brasil chega à COP sob fortes denúncias de retrocessos no campo ambiental. A recente boa notícia não é suficiente para suprir os altos índices de degradação às florestas brasileiras em dois anos subsequentes, 2015 e 2016. 

Sem contar a fracassada tentativa do governo de abrir a reserva mineral da Renca --área de aproximadamente 4 milhões de hectares na divisa do sul e do sudoeste do Amapá com o Pará-- à exploração, bem como um projeto de lei que reduziria a área da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará. Os dois atos não repercutiram bem entre ambientalistas e a comunidade internacional.  

O anúncio do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa) de que as emissões brasileiras de gases do efeito estufa alcançaram seu patamar mais alto desde 2008 (antes da COP15, de Copenhague), subindo pelo segundo ano consecutivo – e em tempos de recessão econômica – também acendem a luz amarela sobre a possibilidade do país cumprir com as metas do Acordo de Paris.

O país ainda passa por uma crise econômica que tende a impedir o Brasil de se comprometer com qualquer auxílio financeiro. Acredita-se que o país vá aproveitar a COP23 para se alinhar aos países menos desenvolvidos no pedido de verbas às nações desenvolvidas.

Mas isso não será diferente de outros anos: em outras COPs, os negociadores brasileiros já tentaram dizer que o país merece financiamento internacional tanto quando Bangladesh, Honduras ou Somália. (*Com Deutsche Welle)

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