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Bolsonaro pede união de países da América do Sul por Amazônia

Adriano Machado/Reuters
Imagem: Adriano Machado/Reuters

Do UOL, em São Paulo*

06/09/2019 15h11

Jair Bolsonaro (PSL) discursou hoje (6) em reunião em Leticia, na Colômbia, e pediu união dos chefes de Estado da América do Sul pela "soberania" dos países da região amazônica. O presidente da República se pronunciou no evento por meio de uma videoconferência, já que cancelou sua presença em função da cirurgia abdominal marcada para depois de amanhã (8).

"A Amazônia é nossa! É do Brasil, da Bolívia, da Colômbia, da Venezuela, das Guianas, de todos nós. Só desta forma, com a nossa união, sem ceder a qualquer tentação externa de deixar sob administração de terceiros a nossa área, poderemos fazer com que nossas riquezas revertam em benefícios e bem-estar para os nossos países", afirmou.

Estão no país vizinho os chefes de governo da Colômbia (Iván Duque) e do Peru (Martín Vizcarra), que convocaram a cúpula, assim como os de Equador (Lenín Moreno), Bolívia (Evo Morales) e o vice-presidente do Suriname (Michael Ashwin Adhin). Trata-se de um encontro para debater a situação da Amazônia.

Durante seu pronunciamento, Bolsonaro voltou a atacar o presidente da França, Emmanuel Macron, e acusou, sem provas, os governos anteriores do Brasil de serem responsáveis pela "região amazônica ameaçada". Além disso, usou o presidente boliviano Evo Morales como exemplo em seu argumento contra as demarcações indígenas, que, segundo ele, tratam estas pessoas "como se fossem pré-históricas".

"Logicamente, devemos evitá-las [as queimadas] o máximo possível, mas este furor internacional para nada mais serviu a não ser para que um chefe como o Macron atacasse o Brasil e colocasse em risco a nossa soberania. Por mais de uma vez, ele disse que a soberania do Brasil sobre a Amazônia estava em aberto. Entendo que isto também se aplica à soberania dos países de vocês", disse o presidente brasileiro.

"O presidente da França se precipitou, mas um plano para tornar esta grande área um patrimônio mundial ainda continua no tabuleiro do jogo. No Brasil, começou há uns 30 ou 35 anos. Nós chamamos de 'indústria de demarcação de terras indígenas'. Governos de esquerda no Brasil, socialistas que não acreditavam no capitalismo, detestavam a propriedade privada e ignoravam a segurança jurídica. Fruto destes presidentes que tivemos no Brasil, hoje temos, sim, a nossa região amazônica ameaçada", acusou.

"Por que não dizer desta forma? Estas enormes áreas indígenas que temos no Brasil... Eu me permito abrir um paralelo: temos na Bolívia um presidente [Evo Morales] que é um homem da terra, um homem das origens da Bolívia. Lá, o índio pode ser presidente sem problema nenhum, e nós não contestamos isso. Vemos isso como evolução dos povos, parabéns à Bolívia. Aqui no Brasil, o índio tem de ficar confinado em sua terra", prosseguiu Bolsonaro.

"Deixo clara uma coisa: 14% do território brasileiro já foi demarcado como terra indígena. Tem muitas etnias que querem se integrar à sociedade. Algumas plantam e exercem outras atividades, mas ainda não são reconhecidas pelo parlamento. Há uma política que quer que estas pessoas permaneçam em suas terras como se fossem pré-históricas. O novo governo luta contra isto e não admite isto", concluiu.

O acordo entre os países amazônicos, que deve ser assinado hoje em Leticia, busca comprometer estas nações em um plano comum de proteção da floresta.

bolsonaro - Evaristo Sá/AFP - Evaristo Sá/AFP
Imagem: Evaristo Sá/AFP

Em evento no Planalto após a videoconferência, sem citar nomes, mas se referindo ao presidente da Bolívia, Evo Morales, Bolsonaro disse ter percebido que um presidente não estava muito a favor das propostas costuradas pelos demais mandatários, como uma carta conjunta. Morales também teria dito que o capitalismo está destruindo a Amazônia, falou Bolsonaro.

"Como se no país dele, daqui a pouco vocês vão saber qual que é ou já sabem, não tivesse ocorrido as maiores queimadas, muito maior do que na Amazônia agora", disse. Ele acrescentou que os números dos focos de incêndio foram ressaltados porque o "presidente é outro" que não libera a demarcação de terras indígenas a todos que pedirem.

Leia o pronunciamento completo de Bolsonaro:

Prezado Iván Duque, parabéns pela iniciativa. Eu lamento não estar aí por questões médicas. Se Deus quiser, tudo correrá bem comigo nos próximos dias. É muito bem-vinda esta iniciativa para discutirmos o que acontece na nossa região amazônica. Cada um de nós tem um pedaço nesta região tão rica e tão esquecida por todos nós, mas jamais abandonada por alguns países do primeiro mundo.

Isso que está acontecendo hoje em dia teve um lado positivo para quem quer enxergar o que seu país tem de bom. Aqui, no meu país, o Brasil, despertou-se o patriotismo. Olhos que estavam fechados se abriram para estas riquezas que simplesmente são gigantescas em nossa região e muito parecidas com as dos países de vocês.

Isso não aconteceu de uma hora para outra. O presidente da França se precipitou, mas um plano para tornar esta grande área um patrimônio mundial ainda continua no tabuleiro do jogo. No Brasil, começou há uns 30 ou 35 anos. Nós chamamos de 'indústria de demarcação de terras indígenas'. Governos de esquerda no Brasil, socialistas que não acreditavam no capitalismo, detestavam a propriedade privada e ignoravam a segurança jurídica. Fruto destes presidentes que tivemos no Brasil, hoje temos, sim, a nossa região amazônica ameaçada. Por que não dizer desta forma?

Estas enormes áreas indígenas que temos no Brasil... Eu me permito abrir um paralelo: temos na Bolívia um presidente que é um homem da terra, um homem das origens da Bolívia. O índio pode ser presidente sem problema nenhum e nós não contestamos isso. Vemos isso como evolução dos povos, parabéns à Bolívia. Aqui, no Brasil, o índio tem de ficar confinado em sua terra. Deixo claro uma coisa: 14% do território brasileiro já foi demarcado como terra indígena. Tem muitas etnias que querem se integrar à sociedade. Algumas plantam e exercem outras atividades, mas ainda não são reconhecidas pelo parlamento. Uma política que quer que estas pessoas permaneçam em suas terras como se fossem pré-históricas. O novo governo luta contra isto e não admite isto.

A questão das queimadas é quase uma cultura em algumas regiões do Brasil e também nos países de vocês, onde se fazem as plantações. Há pouco, usaram o desmatamento e a questão das queimadas para atingir o Brasil. Logicamente, devemos evitá-las o máximo possível, mas este furor internacional para nada mais serviu a não ser para que um chefe como o Macron atacasse o Brasil e colocasse em risco a nossa soberania. Por mais de uma vez, ele disse que a soberania do Brasil estava em aberto. Entendo que isto também se aplica à soberania dos países de vocês.

Nós sempre fizemos a nossa parte para combater o desmatamento, bem como para evitar os focos de incêndio. Esta temperatura foi crescendo e cada vez é maior no mundo. Não podemos esquecer do que falam do 'Triplo A', onde uma área enorme, de 136 milhões de hectares, seria destinada à preservação, a jurisdição de outros países que não os nossos. Não podemos esquecer. Sim, pensamos no índio, no meio ambiente, no mosquitinho, na cobra, no peixe e em tudo isso. Mas o que as pessoas de outro mundo querem, na verdade, é se apoderar dessas riquezas, desses recursos minerais que não existem mais com abundância ou tanta sobra em outros países.

Não podemos agir como poetas na situação em que nossos países se encontram. Eu lamento o Brasil ter adormecido ao longo de décadas e só estar acordando agora com o novo governo. É um apelo que faço aos países que estão aí: nós temos os que os outros não têm. Somos países riquíssimos e temos tudo para sermos, cada um, um grande país com grandes riquezas. Não podemos ser um mero exportador de commodities e achar que está tudo bem. Não está tudo bem. Nós temos de tomar posição firme de defesa da nossa soberania e firme para que cada país possa, dentro da sua terra, desenvolver a melhor política para a região amazônica. E não deixar que esta política seja tratada por outros países.

A Amazônia é nossa! É do Brasil, da Bolívia, da Colômbia, da Venezuela, das Guianas, de todos nós. Só desta forma, com a nossa união, sem ceder a qualquer tentação externa de deixar sob administração de terceiros a nossa área, poderemos fazer com que nossas riquezas revertam em benefícios e bem-estar para os nossos países. Neste acordo que estamos assinando agora, nesta mensagem que será divulgada para todo mundo, que seja acima de tudo que a soberania de cada um é de nós é inegociável. Nossas riquezas serão exploradas por nós de forma sustentável com a política que cada um de nós pode exercer.

Este ataque que o Brasil recebeu agora... Se eu, ao retornar de Osaka, tivesse demarcado mais 20, 30 ou 40 reservas indígenas, o Brasil não estaria sendo atacado agora. Esta é uma propaganda contra o Brasil que se estende aos outros países da região amazônica. Nós temos como sair desta situação fazendo valer a nossa soberania. Assim encerro o meu posicionamento e lamento não estar presente. Que Deus ilumine a América do Sul.

*Com reportagem de Luciana Amaral, do UOL, em Brasília

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