Máquina transforma fezes em gás de cozinha e fertilizante em aldeia de SP

Um aparelho portátil que transforma fezes humanas em gás de cozinha e fertilizante está mudando a vida dos 800 moradores de uma área indígena a 40 minutos do centro de São Paulo.

O que aconteceu

Terra Indígena Guarani do Jaraguá passou a adotar neste ano o uso de biodigestores acoplados a banheiros químicos. Formada por sete aldeias na zona norte da cidade, o território não tem saneamento e sofria com as fezes que atraíam ratos e baratas e contaminavam o solo e o lençol freático.

Biodigestor foi inspirado no estômago de uma vaca. A função do aparelho, construído originalmente em alvenaria no século 19, era criar um ambiente apropriado para que a ação de bactérias sobre restos de comida e esterco produzisse o metano. A ideia remonta a 1776, quando se descobriu que a decomposição de matéria orgânica dava origem ao gás.

O biogás chegou a abastecer um hospital na Índia (em 1902) e a iluminar as ruas de Exeter, na Inglaterra (1895). Mas a descoberta do petróleo e a popularização do carvão tirou prestígio do biogás. É a adaptação desse modelo para uma versão portátil que vem mudando a vida dos indígenas no Jaraguá.

Feito com camadas de lona e polímeros, o biodigestor inflável é conectado ao banheiro químico, cujo interior é adaptado. "O cocô vai para o biodigestor, que o transforma em gás para cozinhar e fertilizante para as árvores frutíferas", diz Leandro Toledano, da Biomovement, empresa que distribui no Brasil o aparelho desenvolvido no começo da década pela israelense HomeBiogas.

Ligado à cabine sanitária, o biodigestor produz o biogás que, encanado, produz até 3 horás diáras de gás de cozinha.
Ligado à cabine sanitária, o biodigestor produz o biogás que, encanado, produz até 3 horás diáras de gás de cozinha. Imagem: Carlos Henrique de Almeida Ferreira/Divulgação

Nas sete aldeias do território indígena do Jaraguá, foram distribuídos 36 banheiros financiados pela Prefeitura de São Paulo e ONGs — seriam mais 100 para atender a população de todo o território.

A instalação leva um dia. O aparelho demora de 15 a 30 dias para gerar a primeira leva de gás. A partir daí, cada banheiro produz o equivalente a um botijão por mês — 3 horas de fogo por dia — e 4 litros diários de adubo orgânico.

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A conexão é feita por canos de PVC, que unem a privada ao biodigestor e levam o gás até o fogão. "A saída do aparelho tem outro cano que irriga com o fertilizante as árvores frutíferas no entorno", diz Toledano.

Banheiro químico foi adaptado para ser acoplado ao biodigestor
Banheiro químico foi adaptado para ser acoplado ao biodigestor Imagem: Carlos Henrique de Almeida Ferreira/Divulgação

Qual a diferença para o gás comum? Além de produzir uma chama azul, esse gás é mais leve que o ar e por isso não explode, já que, em caso de vazamento, ele de dissipa.

O banheiro biológico tem vida útil de dez anos. Enquanto o biodigestor custa R$ 10.400, o banheiro sai por R$ 5.900, fora os custos de instalação.

O rezador Tukumbó utilizando o fogão abastecido com o biometano
O rezador Tukumbó utilizando o fogão abastecido com o biometano Imagem: Wanderley Preite Sobrinho/UOL

Indígenas elogiam projeto

A aprovação do aparelho passou pelo pajé da aldeia Itakupe, Karaí Yapuã, 59. Ele conta que as cem pessoas de seu núcleo precisavam se revezar para utilizar uma fossa negra —um buraco no solo aonde os dejetos são lançados. "Ou a gente usava o mato, mas é perigoso à noite", diz ele.

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Yapuã gostou do fertilizante, que irriga as árvores de que cuida diariamente. Já o fogão, ele prefere usar nos dias de chuva. "A gente gosta de manter a tradição da lenha, mas ela molha quando chove e não dá para cozinhar", diz. Outra vantagem é reduzir o trabalho de extração da madeira, o que toma até duas horas por dia.

Karaí Jekupê, 28, revezava o uso de lenha com um botijão de GNV. "É uma renda que a gente economiza porque eu usava um botijão de 13 kg a cada 15 dias", diz. "Agora eu compro outro a cada dois meses."

O pajé Karaí Yapuã, 59, só aceita projetos na aldeia que ajudem mas não comprometam as tradições de seu povo
O pajé Karaí Yapuã, 59, só aceita projetos na aldeia que ajudem mas não comprometam as tradições de seu povo Imagem: Wanderley Preite Sobrinho/UOL

Da Ambev à Nestlé

Em grande escala, a troca do gás natural pelo biogás pode reduzir as emissões em até 80%. Repaginada quase 200 anos depois, a ideia de transformar restos orgânicos em energia renovável também atrai grandes empresas e o agronegócio, que precisam cumprir metas de descarbonização.

O aumento da produção brasileira saltou de 1 milhão para 2,8 bilhões de m³ entre 2003 e 2022. Esse volume é suficiente para abastecer com energia elétrica 483 mil casas.

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Hoje há 936 plantas de biogás no Brasil, sobretudo no Sul e no Sudeste — 885 em operação. Em 2023, entraram em operação 11 plantas, informa o último relatório da CIBiogás (Centro Internacional de Energias Renováveis).

Usinas são cada vez maiores. As 38 unidades em implantação devem concentrar 15% da produção do biogás brasileiro. As grandes usinas de São Paulo, por exemplo, produziram mais de um terço desse combustível no país em 2022, embora o estado tenha 8% das usinas (74 delas).

As usinas em operação:

  • 705 plantas utilizam biogás na agropecuária
  • 126 plantas utilizam biogás na indústria
  • 105 plantas usam resíduos sólidos urbanos e esgoto
Fábrica da Ambev 100% abastecida por biometano da Gás Verde, empresa do Grupo Urca
Fábrica da Ambev 100% abastecida por biometano da Gás Verde, empresa do Grupo Urca Imagem: Divulgação/Grupo Urca

A processadora de carnes JBS anunciou na COP28 que 14 fábricas estão funcionando com a produção própria de biogás. A Nestlé informou que o biometano de cana-de-açúcar e aterros sanitários vai substituir o gás natural no abastecimento de suas caldeiras.

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A unidade da Sabesp em Franca (interior de São Paulo) converte o gás processado do esgoto em combustível para veículos da empresa. Maior produtor de biometano da América Latina, o grupo Urca Energia abastece toda a fabrica da Ambev, em Cachoeiras de Macacu (RJ), com o gás sintetizado a partir do aterro sanitário de Seropédica, também no Rio.

"A disseminação de conhecimento foi muito intensa nos últimos três anos", diz o diretor de desenvolvimento tecnológico da CIBiogás, Felipe Marques. "O mercado amadureceu muito com a disseminação pelo Brasil de tecnologia e plantas que entregam volumes cada vez maiores de biogás."

Brasil tenta acabar com a dependência de gás e fertilizantes importados. A expectativa do setor é que o biogás salte de 1% para 10% da matriz energética brasileira nas próximas décadas.

O potencial de produção de biogás no Brasil é estimado em 84,6 bilhões de m³ por ano. "Se totalmente utilizado, o biogás daria para gerar 35% da energia elétrica, e o biometano pode atender 70% da demanda brasileira de diesel", diz Maurício Carvalho, diretor-executivo da Urca Energia.

Também somos importadores de nitrogênio e fósforo para fertilizantes, e o biogás é rico desses nutrientes.
Felipe marques, da CIBiogás

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