"Rei Arthur", o filme, acerta muita coisa, mas conta lenda errada

Ty Burr
Em Boston

Não há Santo Graal, Morgan le Fay, Bedevere. Merlin desta vez é o líder guerrilheiro das hordas selvagens britânicas, pintadas de azul e chamadas de Woads. Esqueça a Senhora do Lago -Arthur puxa Excalibur da tumba de seu pai. Ah, a última notícia: os cavaleiros da Tábula Redonda, de fato, vieram da Ucrânia.

Ao menos há uma Tábula Redonda - que se parece com uma mesa de reunião corporativa - e Arthur (Clive Owen) dirige as reuniões com olhar nobre e triste. Em muitos outros aspectos, "Rei Arthur" foge tão radicalmente do que a maior parte de nós aceita como básico (ou seja, o que tiramos de Sir Thomas Malory, T. H. White, Walt Disney e Monty Python) que o filme é um mito totalmente novo.

A abertura fala alguma bobagem sobre "evidências arqueológicas recém descobertas" - a primeira vez que ouvi essa racionalização para explicar a existência de Keira Knightley.

"Rei Arthur", em outras palavras, faz para essa lenda o que "Tróia" fez para Homero, com uma diferença importante: o filme é melhor. Ao menos, tem sólidas qualidades de um filme de estúdio, sombrio e provocante: uma mistura de "Gladiador", "Coração Valente", "Senhor dos Anéis" e "Sete Homens e um Destino" com cinco toneladas de besteira de Hollywood.

Certamente é uma produção Jerry Bruckheimer -os diálogos têm a simplicidade de uma história em quadrinho e o Sir Bors de Ray Winstone é uma brincadeira com os brutamontes de vestiários (como "Top Gun - Ases Indomáveis"). Mas "Arthur" também é um filme de Antoine Fuqua e fico um pouco estarrecido de dizer que Fuqua ("Dia de Treinamento") fez coisas incríveis.

Os amantes do mito clássico vão querer se segurar na cadeira ou tapar o nariz. A história por trás do filme é que cavaleiros como o matador Lancelot (Ion Gruffud, do programa "Horatio Hornblower"), o vigoroso Galahad (Hugh Dancy), o grosseiro Dagonet (Ray Stevenson) e o amante de gaviões solitário Tristan (Mads Mikkelsen) foram alistados em sua adolescência pelo Império Romano, nas terras conquistadas da Sarmatia, perto do Mar Negro.

Eles foram enviados para a pequena ilha insignificante da Inglaterra, onde seu comandante é Artorius, ou seja, Arthur, meio romano meio britânico, que absorveu estranhas idéias sobre igualdade e liberdade durante suas visitas ao comando central, na Itália.

Quando o filme começa, esses ideais foram colocados de lado pelos interesses da ambição imperial; Arthur está lutando para proteger um reinado que não existe mais. Os romanos estão saindo da Inglaterra, deixando de um lado os Woads de Merlim, que parecem um grupo de torcedores de futebol violentos da Inglaterra, com um pouco mais de tinta no corpo, e do outro, um exército de saxões invadindo pelo norte -liderados por Cerdic, um rei guerreiro de voz rouca e maldade insuperável. Acho que Stellan Skarsgard, normalmente um ator civilizado, aceitou o papel só para poder colocar uma peruca de viking e murmurar frases como "queimem todas as aldeias... matem todo mundo."

O roteiro, de David Franzoni ("Gladiador") é cheio desses disparates da Classics Illustrated, e Fuqua quase não segura o tom do filme. Quando os cavaleiros chegam a um castelo no norte, você se vê esperando John Cleese levantar a cabeça e começar a provocar os tolos britânicos. Em vez disso, Arthur encontra Guinevere (Knightley) presa.

Nessa altura, já se passaram 50 minutos e começamos a nos coçar para ver bela guerreira que está em todos os cartazes. Mas acontece que ela acompanhou a carreira de Arthur por anos, ou seja, seria considerada uma perseguidora, não fosse por seus talentos de arco e flecha. (Ela também tem tatuagens de batalha que lhe dariam emprego fácil em qualquer shopping nos EUA).

Com a aparição de Knightley, "King Arthur" ganha o impulso que estava esperando, uma agilidade pop para contrabalançar os tambores de guerra saxões que se aproximam. Esqueça um romance cavalheiro -Guinevere parece mais interessada em ser Amiga com Benefícios.

A última metade do filme galopa para baixo, passando por uma batalha épica e Arthur forjando uma aliança entre seus cavaleiros e os Woads, para receber o manto de Rei da Inglaterra e resistir aos saxões. Nesta altura, a história foi amordaçada e está no porta-malas do Porsche de Jerry Bruckheimer. Fuqua, entretanto, nos dá as delícias dos filmes de verão, então é possível que você o perdoe até pelo menos a metade do caminho de casa.

Há cenas de ação impressionantes em um rio congelado, com 500 saxões avançando em direção a meia dúzia de cavaleiros pelo gelo rachando (acrescente a Batalha de Thermopylae e "Alexander Nevsky" de Sergei Eisenstein ao ensopado de influências desse filme).

A luta final é uma confusão cinematográfica brilhantemente editada, que supera qualquer coisa em "Tróia" e, no meu ver, a maior parte das lutas de "Senhor dos Anéis". E o que isso tem a ver com o Rei Arthur? Se você está se perguntando isso, está assistindo o filme errado.

Essas últimas cenas são tão bem feitas, de fato, que você pode esquecer brevemente que o que menos precisamos agora é de um filme de guerra. Eu sei, eu sei, é tolice fazer uma metáfora geopolítica em um filme de entretenimento de verão, mas diga isso a Bruckheimer e companhia, que colocam Arthur incorporando valores democráticos totalmente americanos. Ele é nós, estão dizendo. Engraçado, a última vez que li as manchetes, estávamos no papel dos romanos. Estória e cenas de batalha são superiores às de "Senhor dos Anéis" e "Tróia" Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos