Radialistas reacionários se empenham por Bush

Brian C. Mooney
Em Boston

Scott Hennen teve um verão agitado, com uma lista de convidados para o seu programa de rádio ao vivo que é o sonho de qualquer locutor conservador: o vice-presidente Dick Cheney, a primeira-dama Laura Bush, dois secretários do gabinete de Bush, quatro outros funcionários graduados da administração federal, e pelo menos cinco nomes importantes para a campanha pela reeleição do presidente Bush.

E isso é excelente para o locutor de "Hot Talk", que vai ao ar em duas estações de rádio AM com potência de 5.000 watts, na região leste do remoto Estado de Dakota do Norte. Hennen se irrita um pouco quando um jornalista pergunta se o seu sucesso em conseguir entrevistar republicanos proeminentes tem algo a ver com o fato de grande parte dos seus ouvintes morar do outro lado do Rio Red, no noroeste de Minnesota, Estado mais importante, onmde os democratas venceram em 2000.

"O meu programa não tem relação com o fato de os republicanos tentarem fortalecer sua base eleitoral", diz Hennen, cujo programa é transmitido pela WDAY em Fargo e pela KCNN em Grand Forks. "Esse governo dá importância aos programas de entrevistas no rádio desde o primeiro dia de mandato".

Ele diz que sempre teve sorte em conseguir a participação de membros do governo Bush, embora admita que recentemente esteja experimentando um sucesso excepcional.

Hennen não é o único locutor de programas de rádio ao vivo de tendência conservadora em um Estado eleitoralmente difícil a ter bom acesso a autoridades de alto escalão do governo. No site da Casa Branca, www.whitehouse.gov, quase todas as entrevistas de rádio listadas desde abril foram conduzidas por locutores conservadores ou em Estados nos quais é impossível prever o resultado eleitoral.

Um porta-voz da Casa Branca, Ken Lisaius, nega veementemente que haja motivações políticas para que as autoridades governamentais participem dos programas de rádio, ou de outros meios de comunicação de massa.

"Não estamos preocupados com política", afirma. "Quem está focalizado na política são os membros do comitê de Bush e Cheney". Além disso, ele diz que as entrevistas que constam no site, que possuem links de áudio, seriam uma amostragem daquelas com boa qualidade de áudio ou cujos assuntos são de interesse público. Ele acrescenta que as entrevistas da National Public Radio, que não é conservadora, não podem ser exibidas no link.

"A National Public Radio não nos permite utilizar os seus programas", afirma Lisaius. "Tentamos fazer com que os membros deste governo estejam disponíveis para participar de diversos tipos de mídia, de forma que pessoas de todo o país saibam o que o governo está fazendo, já que a administração conta com um histórico de desempenho bastante sólido", diz Lisaius. "Essas mídias incluem as estações de rádio de todos os matizes em todas as partes do país", explica.

Mas das 61 entrevistas disponíveis no site da Casa Branca desde abril, onde o entrevistador e a estação de rádio foram identificados, 54 foram realizadas por locutores conservadores ou transmitidas por rádios localizadas em Estados onde a eleição promete ser difícil, revela uma análise de The Boston Globe.

Entre elas há 27 entrevistas concedidas a estações de Michigan, Ohio, West Virginia, Missouri, Florida, New Hampshire, Oregon, Washington, New México e Arkansas, que fazem parte do grupo de cerca de 20 Estados onde há grandes investimentos de ambos os partidos em propagandas pagas.

Outras 27 entrevistas foram realizadas por locutores conservadores; Sean Hannity, da ABC Radio, tem sete entrevistas no site da Casa Branca, e Hennen cinco.

Algumas das entrevistas não só apóiam Bush, mas sugerem engajamento ativo na campanha. Por exemplo, Steve Gill da WTN em Nashville, com três entrevistas no site da Casa Branca, falou na inauguração do comitê de Bush e Cheney em Clarksville, no Estado do Tennessee. E a locutora Laura Ingraham atuou como mestra de cerimônia no comício de Bush na semana passada em Saint Paul.

Um outro locutor, Glenn Beck, da Premiere Radio Networks, está vendendo camisetas "John Kerry's Waffle House" (algo como "A Casa de Besteiras de John Kerry") por US$ 14,95 no seu site, aproveitando-se da acusação, feita pelo comitê de Bush, de que o candidato democrata muda constantemente de posição política.

Entre as outras entrevistas exibidas no site da Casa Branca há três conduzidas por membros da rede Radio America (que se autodescreve como "movida pelo compromisso com os valores norte-americanos tradicionais, o governo limitado e o livre mercado") e a Salem Radio Network ("a maior rede de rádio religiosa").

Se, conforme alega a Casa Branca, a concentração de entrevistas com integrantes do governo em estações localizadas nos Estados onde a eleição será duramente disputada é uma mera coincidência, a participação frenética de integrantes da campanha de Bush em programas de rádio desses Estados não tem nada a ver com o acaso.

"Isso faz parte do nosso esforço para implementar aquilo que chamamos de 'inundação da área'", diz o porta-voz da campanha de Bush, Kevin A. Madden. "Quando há uma campanha criada em torno de uma 'política de eco', tentamos fazer com que as nossas mensagens cheguem a essas áreas sempre que seja possível".

A campanha de Kerry passa por uma rotina similar, procurando inserir integrantes da campanha no maior número possível de estações de rádio, especialmente onde moram os eleitores indecisos.

Para a campanha de Bush e Cheney, a última quinta-feira (26/08) foi um dia típico. Cabos eleitorais e membros do comitê participaram de 30 programas de rádio, 25 deles em estações locais em Estados onde a batalha eleitoral é acirrada, conforme indica uma lista divulgada pelos assessores eleitorais republicanos. A maior parte das entrevistas foi feita em programas de divulgação nacional.

Uma das entrevistas locais foi concedida por Ralph Reed, diretor da campanha de Bush em cinco Estados sulistas, a Hennen da WDAY de Fargo. Reed, o superorganizador republicano, tem-se locomovido para além da sua região no sul do país para coordenar a mobilização do Partido Republicano em outros Estados-chave, como Minnesota, na semana passada, e Iowa, nesta semana.

A entrevista com Reed foi o mais recente ponto marcado por Hennen. Além de todos os membros da administração que entrevistou, nas últimas semanas ele também apresentou o gerente da campanha de Bush e Cheney, Ken Mehlman, o diretor Marc Racicot, o porta-voz Terry Holt, e a assessora Mary Matalin.

Hennen, descrito em um artigo de 1995 do "The Wall Street Journal" como "uma versão mais compacta do seu modelo nacional, Rush Limbaugh", diz que se empenhou em trazer dirigentes da campanha de Kerry para o seu programa, mas precisou se contentar com Bill Burton, porta-voz da campanha de Kerry em vários Estados do Meio-Oeste.

"Isso não é parte de uma grande conspiração de direita", disse Hennen. Ele diz que não trata os seus convidados republicanos com indulgência. Hennen diz que "martelou" o representante de Comércio dos Estados Unidos, Robert B. Zoellick, durante uma discussão em janeiro sobre o Acordo para Livre Comércio da Região Central dos Estados Unidos, que poderia resultar em um prejuízo de US$ 2 bilhões anuais para o setor de produção de açúcar de beterraba ao longo da fronteira entre Dakota do Norte e Minnesota.

Mas isso certamente não impediu que ele continuasse trazendo grandes nomes do governo Bush ou do comitê eleitoral republicano. Segundo Hennen, os convidados continuam chegando ao seu estúdio porque ele os procura com mais freqüência.

"Nós os estamos importunando bem mais neste momento porque os nossos ouvintes querem se informar melhor sobre esta eleição", disse ele. Republicanos vão várias vezes a programas em Estados disputados Danilo Fonseca

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