"Nip/Tuck" encara feiúra da beleza e faz sucesso

Matthew Gilbert
Em Boston

A série "Nip/Tuck" --transmitida no Brasil às 22h das terças pelo canal pago Fox-- não é exatamente agradável de ver. A série novelesca sobre cirurgias plásticas pode até provocar náuseas, com seus ângulos fechados sobre pacientes anestesiados de olhos esbugalhados e barrigas cortadas, abertas como donuts cheios de gelecas.

E a abordagem de "Nip/Tuck" sobre a existência humana também não é das mais positivas. Se você apóia a idéia de que a felicidade é possível e de que o envelhecimento traz sabedoria, paz e alegria, prepare-se, porque o cinismo afiado da série quer acabar com ela.

É nesse cinismo que está o brilho de"Nip/Tuck", à maneira das séries de Rod Sterling, atração do canal americano Fx. É um programa incrivelmente desagradável sobre o culto à beleza nos Estados Unidos, segundo a concepção de vida de dois cirurgiões plásticos de Miami, Sean (Dylan Walsh) e Christian (Julian McMahon).

A série tem o tipo de moralidade crua e corajosa que Serling adorava projetar em "Além da Imaginação" ("The Twilight Zone") --é só lembrar daquele clássico episódio em que uma mulher de feições perfeitas se sente deslocada numa sociedade cheia de deformados.

Ao mesmo tempo em que ostenta uma carga de relacionamentos melodramáticos semelhante à de outra série da Fox, "The O.C." (no Brasil pelo Warner Channel, às 20h das quartas), igualmente efervescente, "Nip/Tuck" também é um irônico ensaio televisivo sobre o caráter efêmero da juventude.

Aborda nada menos que a alma obscura de nossa cultura alimentada pela mídia, e também nossa maldita busca pela imortalidade. Ou, como o criador Rod Serling dizia, é uma série que se passa numa dimensão feita não só de imagem e de som, mas que também evolui num plano mental...

Isso parece pretensioso, não? Pois é mesmo. Como acontecia com "Além da Imaginação" ou acontece com "Oz", "Nip/Tuck" não é afeita a sutilezas nem a modéstias. É um programa que entusiasticamente lhe inunda com suas versões para os Grandes Temas da Vida, a cada semana com novas abordagens espertas e sombrias.

É proselitista, espalhafatoso, escandaloso, delirante, pornográfico, faz com que a gente não queria perder seus episódios --tudo isso sem nenhum refinamento.

Os roteiristas, inclusive o criador da série Ryan Murphy, trabalham no sentido de só criarem tramas que tenham uma forte ressonância psicoespiritual --por exemplo, um dos episódios mostra uma mulher das ruas que acredita ter stigmata, as chagas de Cristo, e que quer fazer uma cirurgia nos punhos. Os criadores da série esfregam em nossos narizes as doenças da vida contemporânea.

E o público --inclusive a reportagem de The Boston Globe--, está prestigiando a série com intensidade. Na estréia nessa temporada do verão americano, "Nip/Tuck" atraiu 3,8 milhões de espectadores (e mais 1,9 milhão numa segunda exibição, mais tarde na mesma noite).

São números bem expressivos para a TV a cabo, semelhantes aos de "Six Feet Under" (A Sete Palmos, no Brasil às 21h30 dos domingos pelo Warner Channel) da HBO. O programa aparentemente caiu no gosto popular, mesmo sendo tão caloroso e distinto quanto um manequim de loja de departamentos.

Junto com "The Shield", série premiada com Emmy, e "Rescue Me", drama de Denis Leary sobre os bombeiros de Nova York, "Nip/Tuck" também está ajudando o canal FX a se tornar um dos mais comentados atualmente no panorama da TV a cabo americana --um dos poucos, como a HBO, que consegue se distinguir no universo formado por cerca de 1.000 canais da tevê por assinatura nos Estados Unidos.

Os dois cirurgiões são a fonte de toda a loucura que emana de "Nip/Tuck". Christian é o cirurgião tarado, cheio de Botox na cara, com as sobrancelhas cuidadosamente feitas por especialistas. Ele tem verdadeiro pavor de envelhecer, e tem o hábito de dormir com as pacientes. Num episódio recente, a mulher da vez era uma somaliana mutilada para quem ele criou um novo clitóris.

Sean é o cirurgião mais "família", casado com Julia (Joely Richardson), mas que está bem emburrado depois de saber que Christian é o verdadeiro pai de seu filho adolescente. Num lance de metáfora tipicamente óbvio, Sean e Christian chegaram a pensar na separação profissional enquanto operavam a separação de... gêmeos siameses.

Mas, no final das contas, nenhum deles --nem os gêmeos, nem Sean nem Christian-- conseguem sobreviver separados.

Diante de um simbolismo tão indiscreto, é quase impossível assistir a "Nip/Tuck" e não refletir sobre o que estamos vendo. Não é televisão escapista; não há nada de refrescante para aquele tipo de espectador bem passivo. Mesmo quando é engraçado, e muitas vezes é mesmo, as risadas atordoam e são um tanto provocantes.

Isso acontece quando o recém-separado Sean busca consolo numa boneca inflável, ou quando Sean e Christian vão a um terapeuta de casais. É assim que "Nip/Tuck" consegue inovar no mundo dos novelões da TV americana.

A série não é feita das bobagens divertidas de "Queer as Folk" ("Os Assumidos") ou de "The O.C.", nem tem a narrativa literária de "Six Feet Under". É uma brusca alegoria sobre a decadência cultural americana, de gosto um tanto azedo.

A série tem até mesmo nuances de fábula cruel de ficção científica, de um jeito que Serling faria se estivesse vivo. As afetações de "sci-fi" são mais óbvias nas seqüências de cirurgia, quando os pacientes se deitam como se fossem Frankenstein. (Claro que a mulher com stigmata se deitou como se estivesse num crucifixo.)

A sala de cirurgias é estéril, toda em aço, futurista, a la "Admirável Mundo Novo", e os médicos/cientistas-loucos freqüentemente se movimentam numa coreografia assustadoramente simétrica.

Os casos mais bizarros de desfiguração são muitas vezes resolvidos quase por milagre --de forma quase sobrenatural. E o tempo todo o tema musical etéreo faz vazar seus tons horipilantes, enquanto a juventude e a auto-estima vão se dissipando.

Atualmente no meio de sua segunda temporada, "Nip/Tuck" provavelmente não existiria se não fosse a onda recente dos "programas de transformação". É de lá que a série capta seu combustível moral, ao ridicularizar a idiotice de quem só pensa em mudar por fora sem querer mudar por dentro.

Para quem acha que "Queer Eye for the Straight Guy" e "Extreme Makeover" vão conseguir ensinar a encontrar o contentamento, "Nip/Tuck" é sua terapia de eletrochoque. Os homens e mulheres que procuram rejuvenescer por intermédio de Sean e Christian geralmente permanecem sendo seres miseráveis, como o personagem de Jill Clayburgh, que se transformou numa psicótica após o fracasso de sua lipoaspiração.

São seres que tentam escapar ao destino da humanidade, e esse é um programa que não quer alimentar as ilusões. Está mais arraigado na crua realidade --ainda mais com suas imagens repugnantes das cirurgias-- do que qualquer um dos chamados "reality shows".

E essa coragem de abrir o jogo pode ser um dos trunfos do canal FX. "The Shield", "Nip/Tuck," e "Rescue Me" todos são programas que se recusam a empregar eufemismos ou a amaciar a linguagem para vender seus temas um tanto complexos. Essas séries cortejam aspectos não-românticos da vida --como a brutalidade e ambigüidade moral de policiais sem escrúpulos, a vaidade dos americanos, e a intimidade do luto vivenciado pelos bombeiros.

São programas que batem forte, que são explícitos, feitos apenas para adultos, e que "vão bem lá", como eles dizem, lá no âmago das questões. E no que diz respeito à memorável série "Nip/Tuck", ambientada num mundo aparentemente feito de beleza, essa disposição de chegar à essência faz irromper a feiúra justamente das mãos dos especialistas. Série trata com ironia e crueza valores de sociedades capitalistas Marcelo Godoy

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