Pobreza, guerra e HIV afetam 1 bilhão de crianças

John Donnelly
Em Pretória, África do Sul

Mais de um bilhão de crianças sofrem com a pobreza, as guerras, o HIV e a Aids, afirma um novo relatório do Fundo de Emergência das Nações Unidas para a Infância (Unicef na sigla em inglês), indicando que os avanços na redução de mortes infantis nos anos 80 e 90 cessaram no decorrer dos últimos dez anos.

Segundo o relatório, que será divulgado nesta quinta-feira (09/12), uma em cada três crianças nos países desenvolvidos vive sem abrigo adequado, uma em cada cinco não tem acesso à água tratada e uma em cada sete não desfruta de serviços de saúde.

O documento não deixa também nenhuma dúvida quanto ao epicentro do problema: 26 dos 27 países com as mais elevadas taxas de mortalidade estão na África. Somente o Afeganistão, o quarto pior, está fora do continente africano. No local mais mortífero do mundo para as crianças, Serra Leoa, quase três em cada dez crianças morrem antes de completarem cinco anos.

O relatório é a décima avaliação anual da agência da Organização das Nações Unidas (ONU) e a mais recente produzida sob a liderança da diretora-executiva Carol Bellamy, que deixa o cargo no ano que vem. Ela reconhece que os números recentes são desapontadores.

"Não há motivos para orgulho em se saber que atualmente o mundo não é um lugar melhor para as crianças do que era há dez anos", disse ela por telefone, de Nairóbi. "Mas também não creio que a culpa seja nossa".

Ela diz que a maior parte da culpa recai sobre os países que deixaram de combater de forma apropriada a pandemia de Aids, a pobreza generalizada, além de não terem evitado os conflitos armados. Entre 1990 e 2003 foram travadas no mundo 49 guerras, e dos 20 países mais pobres do planeta, 16 passaram por um grande e violento conflito nos últimos 15 anos.

Mas alguns críticos da gestão Bellamy dizem que o último relatório é uma evidência integral de que ela foi incapaz de enfatizar a sobrevivência infantil. Eles citam uma redução das verbas da Unicef para vacinas, assim como o foco de Bellamy nos direitos das crianças, que teria feito com que a organização se desviasse da meta de encontrar maneiras de reduzir a mortalidade infantil.

"O direito à sobrevivência é o direito mais crítico de uma criança", diz Robert E. Black, diretor de saúde internacional da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins. "Se não pudermos nos concentrar nisso, qual é o significado do restante da discussão sobre os direitos das crianças?".

Estima-se que 10,5 milhões de crianças com menos de cinco anos morram a cada ano, um número igual ao de crianças com menos de cinco anos que vivem atualmente na França, na Alemanha, na Grécia e na Itália. Um grupo liderado por Black descobriu neste ano que metade das mortes ocorre em apenas seis países --Índia, Nigéria, China, Paquistão, República Democrática do Congo e Etiópia-- e disse que mais de 60% das mortes seriam facilmente prevenidas.

Nas conclusões publicadas no periódico de medicina "The Lancet" os pesquisadores estimaram que nos 42 países onde ocorre o maior número das mortes, cerca de 80% das crianças não recebem terapia de reidratação oral para combater a diarréia, que é potencialmente fatal; 61% não são alimentadas exclusivamente com leite materno, o que reduz a capacidade dos bebês de lutar contra infecções; e 60% não recebem tratamentos simples à base de antibióticos para a pneumonia, a maior matadora isolada de crianças pequenas.

O editor do "The Lancet", Richard Horton, em um comentário publicado no periódico na semana passada, fez coro às críticas de Black. "É amplamente sabido que a Unicef perdeu o rumo durante a longa administração de Carol Bellamy", escreveu.

O relatório da Unicef, cujo título é "Childhood Under Threat" ("Infância Ameaçada"), compara os números da mortalidade infantil em 1990 e 2003, o último ano para o qual existem estatísticas disponíveis. O documento revela que na região subsaariana o número de mortes infantis diminuiu segundo uma taxa anual de 0,6% --passando de 188 mortes por crianças com menos de cinco anos para cada mil nascimentos, para 175 mortes.

Em comparação, o índice de mortalidade de crianças com menos de cinco anos nos países industrializados caiu de dez por mil nascimentos em 1990, para seis por mil em 2003 --uma redução anual de 3,9%.

Segundo os números da Unicef, quinze países registraram aumento no número de mortes de crianças de 1990 a 2003, e 12 continuaram apresentando altos níveis de mortalidade infantil.

Bellamy defendeu as suas prioridades no decorrer dos últimos dez anos, afirmando: "Estou orgulhosa do fato de termos adotado uma abordagem favorável aos direitos infantis, defendendo que as crianças não fossem vistas como instrumentos de caridade, mas sim como seres humanos que possuem direitos. Estou também orgulhosa porque a Unicef abordou questões sensíveis como a dos soldados infantis e a do tráfico de crianças".

Ela insistiu que a sobrevivência infantil é uma alta prioridade da Unicef. "Os direitos das crianças não desviaram as atenções da questão da sobrevivência infantil", afirmou.

"Os direitos de uma criança não se resumem apenas à sobrevivência, mas também a de não se tornar vítima do HIV e da Aids, de não ser explorada e de não sofrer abusos. O mundo não pode parar simplesmente na questão da sobrevivência".

Há pessoas que apóiam a visão de Bellamy. Mark L. Rosenberg, diretor-executivo da organização Task Force for Child Survival and Development ("Força-Tarefa para a Sobrevivência e o Desenvolvimento da Criança"), criada em meados dos anos 80 para coordenar os esforços para a redução das mortes infantis, disse não existir "tal dicotomia entre o foco nos direitos da criança e na sobrevivência infantil".

Mas Rosenberg disse de Atlanta, por telefone, que o sucessor de Bellamy deveria desenvolver um relacionamento mais íntimo com outros grupos da ONU, especialmente com a Organização Mundial de Saúde (OMS), assim como com o governo dos Estados Unidos e as grandes instituições filantrópicas, tais como a Bill & Melinda Gates Foundation e a Rockfeller Foundation.

Rosenberg disse ainda que um grande desafio que há pela frente é o enfrentamento de problemas complexos. Ele observou que em Bangladesh os afogamentos se constituem na maior causa da morte de crianças. Ele diz que uma providência quanto a isso poderia ser a proibição dos projetos residenciais próximos aos canais de irrigação.

Ferimentos, especialmente os provocados por acidentes rodoviários, também matam muitas crianças. Rosenberg disse que as respostas deveriam ser encorajar o uso de cintos de segurança; separar pedestres do tráfego de veículos; e separar bicicletas e carros de boi dos automóveis, caminhões e ônibus.

Nils Daulaire, diretor-executivo da organização independente Global Health Council, o maior consórcio mundial de grupos de saúde, diz que o novo diretor da Unicef poderia também reduzir o número de mortes, simplesmente aprimorando coisas que já funcionam. O nome do sucessor de Bellamy ainda não foi revelado.

"Não estamos falando sobre inventar coisas novas", afirma Daulaire. "E sim sobre levar recursos que conhecemos até as pessoas que deles necessitem".

Segundo ele, os benefícios se estenderiam à melhora da saúde de centenas de milhões de crianças. "O principal impacto seria o grande número de crianças que freqüentaria a escola com mentes e corpos em boa forma", explica. Taxa global de mortalidade infantil parou de cair, aponta o Unicef Danilo Fonseca

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