Diminuem as críticas à política externa americana

Peter S. Canellos e Rick Klein
Em Washington

Uma sensação crescente de otimismo em relação à democracia no Oriente Médio está fortalecendo a posição do presidente Bush no mundo e arrefecendo as críticas internas de suas políticas na região.

A boa notícia no exterior ainda não afetou os índices de aprovação do presidente, que têm o peso de preocupações com seu plano de privatizar parte da previdência social.

A Casa Branca, entretanto, procurou levar o crédito político pelos desdobramentos no exterior, com Bush associando a suas políticas, inclusive de entrar em guerra com o Iraque, sucessos como as eleições iraquianas, a renovação do diálogo entre israelenses e palestinos e os protestos democráticos no Líbano.

"As chances de progresso democrático no Oriente Médio pareciam congeladas há décadas", declarou Bush na semana passada na Universidade Nacional de Defesa em Washington. "Mesmo assim, final, clara e subitamente, o degelo começou."

Muitos críticos da política externa de Bush estão mais brandos. Em forte contraste com até mesmo um mês atrás, quando estavam martelando a política de Bush no Iraque diariamente, os Democratas da Câmara, nesta terça-feira (15/03), fizeram críticas pontuais à guerra, enquanto debatiam o pedido de US$ 81,3 bilhões (em torno de R$ 220 bilhões), que deve ser aprovado facilmente.

Nações européias saudaram os desdobramentos no Oriente Médio, que incluem promessas de mudança política de governantes não democráticos no Egito e Arábia Saudita. A notícia gerou uma série de reavaliações das políticas de Bush.

A mais dramática foi um artigo na revista liberal alemã "Der Spiegel", que sugeriu que Bush podia estar certo sobre derrubar Saddam Hussein como primeiro passo para disseminar a democracia pelo Oriente Médio. O artigo compara as políticas de linha-dura do presidente à posição do presidente Reagan contra o comunismo no final dos anos 80, que também não foi popular na Europa até a queda do Muro de Berlim.

Mas nos EUA, as afirmativas de Bush de sucesso de política externa foram contrabalançadas pelo debate em torno da mudança da previdência social -uma batalha cada vez maior que Democratas dizem estar vencendo. Os dois lados estão fazendo forte campanha, e os líderes das minorias Democratas na Câmara e no Senado aumentaram sua defesa do atual sistema.

A pesquisa de opinião mais recente, pelo Centro de Pesquisa Pew, divulgada no início do mês, indicou otimismo crescente em relação ao Iraque, mas a aprovação de Bush relativamente baixa, em 46%. O índice de aprovação do presidente na questão de previdência social foi de 29%, número impressionantemente baixo.

"Um índice de aprovação de 29% na previdência social pode pesar mais do que boas notícias no Iraque", disse Andrew Kohut, presidente do centro de pesquisa.

Apontando para movimentos de democracia entre palestinos, libaneses e outros no Oriente Médio, Kohut disse: "Essas são coisas boas, e todas podem ajudar o presidente e o Partido Republicano. Mas aqui, no último mês, o foco tem sido a previdência social, que não é ponto para eles."

A diretora de comunicações da Casa Branca, Nicolle Devenish, disse em entrevista que o presidente usará os próximos eventos sobre a previdência social para "definir o problema". Ele fará campanha mais pesada por suas soluções, incluindo as contas de investimento privado, mais tarde.

"Acho que quando voltarmos a atenção para as soluções, algumas dessas pesquisas serão mais relevantes", disse ela.

Enquanto isso, Bush claramente está sendo estimulado pelos eventos das últimas semanas no Oriente Médio, inclusive sua reunião com o rei Abdullah 2º, da Jordânia, na terça-feira. Depois do encontro ele disse acreditar que a "paz está próxima" entre israelenses e palestinos.

"O presidente foi inspirado pelos iraquianos que foram às urnas e pelos milhares que estão protestando no Líbano", disse Devenish. "Mas é certo que tem uma visão ampla e compreende que a democracia leva tempo".

Em seus discursos, Bush sugeriu que não foi por acidente que movimentos democráticos emergiram no Oriente Médio quando ele colocou maior ênfase na promoção da democracia.

Os defensores do presidente dizem que sua disposição de entrar em guerra no Iraque apesar da oposição internacional, suas demandas pela retirada da Síria do Líbano e sua recusa de pressionar por discussões de paz na Palestina até que houvesse nova liderança palestina enviaram fortes sinais aos regimes autoritários na região --que era hora de abrir seus sistemas políticos.

Vozes dissonantes

Os democratas não sabem quanto crédito dar às políticas de linha-dura de Bush pelos desdobramentos no Oriente Médio. O deputado Rick Larsen, democrata de Washington, disse que os sinais de esperança na região ainda são "pequenos passos" e que a conduta do governo pode ser crucial em sua direção daqui para frente.

Com o otimismo cauteloso no Oriente Médio, os democratas estão modificando suas críticas e se concentrando em questões da guerra contra a insurgência iraquiana, como o ritmo de treinamento das forças iraquianas e o número de soldados americanos, em vez dos motivos de Bush pela invasão, disse Larsen.

"O debate se devíamos ou não estar lá já passou", disse Larsen, membro do Comitê de Forças Armadas da Câmara. "O debate agora tem que ser sobre a estratégia de sucesso e como sair de lá."

O deputado Robert E. Andrews, democrata de Nova Jersey, foi mais longe. Ele disse que os membros de seu partido admitem que Bush merece crédito pela tendência à democracia no Oriente Médio, já que sua decisão de derrubar Hussein tornou favorável o clima para isso.

"No Oriente Médio hoje, em relação há dois anos, são melhores as perspectivas de uma região estável, com base no mercado, livre de tiranos", disse Andrews. "Não vejo como isso não seria bom para os EUA"

No entanto, alguns críticos de Bush alegam que as políticas do presidente não precipitaram os eventos atuais no Oriente Médio.

Lawrence Korb, que foi subsecretário de defesa do governo Reagan e é membro do Centro de Progresso Americano, atribui o recente otimismo no Oriente Médio basicamente a dois eventos: a morte do líder palestino Iasser Arafat, que criou uma oportunidade para nova liderança, e o assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri, que provocou revolta contra a ocupação síria.

Nenhum dos dois eventos está relacionado às políticas de Bush, disse Korb.

"A morte de Arafat foi mais importante que o Iraque", disse Korb, alegando que o conflito entre israelenses e palestinos continua sendo a questão que define a região. "Não acho que as eleições palestinas tiveram qualquer relação com a invasão do Iraque."

Korb também sugeriu que o progresso pode se evaporar rapidamente, e que o sucesso da democracia no Iraque ainda é duvidoso, assim como a resolução da questão das ambições nucleares no Irã.

"Você poderia ter, em cinco anos, um Iraque aliado ao Irã", disse Korb. "Você pode ter um Irã com armas nucleares." A perspectiva de democratização do Oriente Médio fortalece Bush Deborah Weinberg

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