Católicos liberais esperam por mudança na igreja

Michael Paulson
Em Boston

Muitos católicos liberais nos EUA estão resignados com a possibilidade de o próximo papa ser conservador em questões sociais, sexuais e culturais. Afinal, quase todos os cardeais que elegerão o pontífice foram nomeados por João Paulo 2º, que manteve a igreja em um caminho resolutamente tradicional durante seu papado de 26 anos.

Lynsey Addario/The New York Times

Pelo menos 1 milhão de pessoas já viram o corpo do papa João Paulo 2º na Basílica de São Pedro
Apesar de alguns liberais ainda nutrirem esperanças de que o novo papa poderá traçar um curso progressista, eles reconhecem que, se houver mudanças no topo, serão lentas.

"Não procuro muitas mudanças. Dados os candidatos, com duas exceções, são todos conservadores de livro-texto, nos moldes de João Paulo. Qualquer católico progressista que espere que o novo papa entre e repentinamente diga que está disposto a discutir a ordenação das mulheres, o celibato obrigatório ou o controle dos bispados... está sendo pouco realista", disse o reverendo Richard P. McBrien, teólogo liberal da Universidade Notre Dame.

Quando o cardeal polonês Karol Wojtyla tornou-se o papa João Paulo 2º, em 1978, ele deteve os desvios do ensinamento tradicional sendo promovidos por defensores de uma mudança radical. Durante seu papado, ele segurou os padres que advogavam a "teologia da libertação" no Terceiro Mundo.

Ele definitivamente declarou que a "igreja não tem autoridade de conferir ordenação às mulheres", disse que casais do mesmo sexo causam "grande dano" às crianças e reprimiu teólogos que se desviavam da ortodoxia doutrinária.

Mas McBrien, como outros comentadores, observou que João Paulo 2º não se encaixou facilmente nas categorias políticas americanas --apesar de ser conservador em uma variedade de questões doutrinárias e questões de ética sexual, era liberal em outros assuntos.

"João Paulo 2º era um forte liberal em imigração, guerra e paz, justiça social e direitos humanos. Se o próximo papa for ao menos tão progressivo socialmente quanto João Paulo, será bom", disse McBrien.

Defensores de mudanças na Igreja Católica dizem que não estão esperando muitas alterações na política em curto prazo. Alguns acham que os cardeais escolherão um homem mais velho, para tentar garantir um mandato mais curto e transitório; nenhum imagina um Terceiro Conselho do Vaticano para reformar toda a igreja --uma idéia que foi levantada há três anos pela publicação National Catholic Reporter.

"Estamos tentando manter nossas expectativas razoáveis, mas otimistas", disse Marianne Duddy-Burke, ex-presidente da organização de católicos homossexuais chamada Dignity USA.

O papado de João Paulo 2º "foi uma época de sérias injustiças com católicos gays, lésbicas, bissexuais e transexuais e suas famílias", disse Duddy, "e é isso que a comunidade gay vê como parte significativa de seu legado, apesar de reconhecermos o bem que está sendo celebrado por tantas pessoas."

Duddy, como outros entrevistados, ainda espera que o próximo papa surpreenda as pessoas com suas atitudes. "Há algo que acontece com o cargo", disse ela. "Não sei se a história da pessoa serve para prever como agirá no cargo."

Muitos dos cardeais freqüentemente mencionados como candidatos têm posições fortemente conservadoras em questões doutrinárias. Dois que são considerados mais abertos ao debate são o cardeal Godfriend Danneels, arcebispo de Bruxelas, e o cardeal Walter Kasper, da Alemanha, que é presidente do Conselho Pontifical para Promoção da União Cristã no Vaticano. Kasper é defensor da descentralização do poder na igreja; Danneels mostrou-se aberto à possibilidade de mulheres chefiarem algumas agências do Vaticano.

Mesmo assim, alguns católicos esperam pelo menos uma mudança nas prioridades, com menos ênfase em questões sexuais.

"Podemos assumir que a maior parte dos cardeais é altamente conservadora em termos de ortodoxia teológica. Do ponto de vista liberal, a esperança é de que o próximo papa não se concentre tanto em reforçar os absolutos da igreja. Talvez não mude os ensinamentos sobre a sexualidade, mas possa conferir à questão menor importância", disse Michele Dillon, professora assistente de sociologia da Universidade de New Hampshire. Dillon escreveu sobre católicos que permanecem na igreja, apesar de discordarem significativamente de seus ensinamentos.

Dillon salientou que, apesar da popularidade pessoal do papa, muitos católicos americanos discordavam dele em questões importantes. As pesquisas indicam que a grande maioria dos católicos ignora os ensinamentos da igreja contra o uso de controle de natalidade e discorda da norma contra a ordenação de mulheres e homens casados. Os católicos também têm opiniões divididas sobre o aborto, como a população em geral, apesar da oposição da igreja.

"João Paulo 2º foi uma figura altamente carismática. Em suas viagens, ele realmente se conectou com muitas pessoas comuns, assim como chefes de Estado, então ele é muito querido, mas há claramente discordâncias", disse Dillon.

Thomas H. Groome, professor de teologia da Faculdade de Boston, disse que há questões em aberto "do Segundo Conselho do Vaticano". A reunião dos bispos do mundo todo, de 1962 a 1965, durante o papado de João 23, implementou uma série de reformas na igreja, inclusive inaugurando novos laços com outras fés e prometendo maior participação geral. Entre as questões pendentes, Groome citou maior papel das mulheres no ministério e de leigos na supervisão da igreja.

"Todas as homenagens que o bom homem está recebendo são merecidas, mas há outro lado do seu pontificado que adiou o Segundo Conselho do Vaticano em 27 anos e provavelmente muito mais, por causa das pessoas (bispos) que ele nomeou", disse Groome. "Esperamos que os cardeais saibam como está dividida a igreja."

Os diferenças dentro da igreja provavelmente receberão considerável atenção nas próximas semanas, enquanto os cardeais se preparam para eleger um novo papa, disse James E. Post, presidente da Voz dos Fiéis, um grupo laico reformista com sede em Newton.

"A extensão do processo garante que as pessoas possam ver as divisões dentro da Igreja Católica, assim como sua união. Somos uma igreja muito dividida em muitas formas", disse ele.

Post acha que é um erro exagerar a influência de João Paulo 2º no próximo papado.

"É verdade que os cardeais foram nomeados por João Paulo II, mas também é verdade que ele está morto e não pode mandar da tumba", disse ele. "Certamente ninguém vai rejeitar o que ele fez, mas se você olhar durante o ano, verá algumas indicações de nova ênfase."

Muitos reformistas parecem estar dispostos a aceitar uma mudança de tom. Eles acreditam que se o Vaticano fizer maiores deferências às conferências nacionais de bispos isso permitirá maior discussão e debate sobre a direção da igreja.

"A melhor coisa que podemos esperar é uma mudança no estilo de governo --em vez de depender de medidas disciplinares duras e silêncio, talvez possamos contar mais com o diálogo e a persuasão", disse Linda Pieczynski, porta-voz da Call To Action USA, organização nacional que defende a ordenação de mulheres, o fim do celibato obrigatório para os padres e outras mudanças.

"Acreditamos verdadeiramente que o Espírito Santo está nos guiando, e algumas vezes há voltas surpreendentes. Agora não é hora de desespero. Ninguém esperava que João 23 fizesse o que fez." Mas especialistas apontam que novo papa será outro conservador Deborah Weinberg

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