Movimentos católicos fundamentalistas cresceram com João Paulo 2º

Stephen Heuser
Em Roma

Em 1943, enquanto a Segunda Guerra Mundial passava o seu arco destruidor pela cidade italiana de Trento, uma professora de 23 anos experimentou um despertar religioso que acabaria fazendo com que, entre outras coisas, milhares de jovens vestidos com blusas de moletom e carregando mochilas se dirigissem a Roma neste mês para o funeral do papa João Paulo 2º.

A epifania de Lubich era simples: ela deveria ler os evangelhos atentamente, tentar amenizar o sofrimento humano e trabalhar pela união dos povos do mundo. Ela rapidamente trouxe os amigos mais íntimos para o movimento, e a sua mensagem passou a se difundir.

No final dos anos 40, Lubich contava com um número suficiente de seguidores na Itália para ocupar um acampamento de verão nas montanhas Dolomitas. Nos anos 60, o seu movimento, chamado Focolare, criava bases fora da Europa.

Hoje o movimento de Lubich possui 100 mil membros diretos e entre quatro e cinco milhões de seguidores em todo o mundo. O Focolare comprou terras e fundou pelo menos 20 pequenas cidades, incluindo uma no norte do Estado de Nova York.

Apesar de os números serem impressionantes, os "Focolarini" são ainda mais importantes devido à mudança enorme e silenciosa que promovem na estrutura de poder da igreja. O Focolare está entre as maiores das organizações chamadas de "novas comunidades eclesiais" dos movimentos internacionais católicos, compostos principalmente de leigos.

Eles têm o estilo e a retórica dos grupos liberais de base, mas são dotados de um caráter teológico profundamente ortodoxo, cujo papel de expansão na igreja representa um dos mais controversos e menos compreendidos legados de João Paulo 2º.

Não existe nenhuma definição clara de uma "nova comunidade" na Igreja Católica, e nenhuma lista do número total de membros em todo o mundo. O Conselho Pontifício de Laicidade, que administra o relacionamento do Vaticano com esses grupos, publica uma lista de organizações de 300 páginas, e que inclui grupos que vão do Encontro dos Casamentos à Associação Internacional de Farmacêuticos Católicos.

A mais importante dessas comunidades, no entanto, como o Focolare, a Comunhão e Libertação e o Caminho Neocatecúmeno têm certas características em comum.

Eles surgiram no nível local, fora da vida tradicional das paróquias católicas, e cresceram em todo o mundo sob a liderança de figuras carismáticas como Lubich. Os seus membros são preponderantemente leigos, e, embora ainda possam participar da missa em igrejas paroquiais, os grupos funcionam quase que como congregações alternativas.

Apesar de serem mais populistas e inclusivos do que o Opus Dei, um movimento secreto de padres e leigos que recebeu o status de "prelado pessoal" de João Paulo 2º, eles também contam com suas próprias reuniões, processos de iniciação e leituras.

Eles são alvo de pouco escrutínio público, financeiro ou não, e devem a sua atual robustez ao grande apoio que lhes foi dado por João Paulo 2º.

Atualmente é praticamente impossível participar de um grande evento religioso na Europa sem encontrar centenas ou milhares de membros do movimento dançando em campos, portando faixas e usando bonés de beisebol. Eles se fazem maciçamente presentes em Roma desde a morte do papa, e muitos pedem a rápida canonização de João Paulo 2º.

Para alguns observadores, o apoio declarado de João Paulo 2º aos "movimentos" correspondeu à criação de uma paróquia global enérgica, dotada de milhões de membros, cuja fidelidade primária passou por cima dos líderes locais da igreja e se voltou diretamente para o pontífice.

O resultado para o próximo papa será uma força imprevisível que qualquer pontífice reformista provavelmente terá dificuldade em controlar.

No dia do funeral de João Paulo 2º, sentei-me em uma colina próxima ao Circus Maximus, ao lado de Jacob Macasaet, um rapaz de 23 anos de cabelos despenteados e que usava um boné de beisebol. Macasaet é das Filipinas, um dos países não europeus onde o Focolare é mais forte, mas mora há quase dois anos em Loppiano, uma cidade administrada pelo Focolare nas montanhas da Toscana, dotada de escolas, uma fazenda e uma fábrica de móveis de bebês gerenciadas pelo Focolare.

Assim como grande parte de Roma, o Circus Maximus ganhou a aparência de um festival da juventude católica. Macasaet se sentava em uma das extremidades de uma faixa com a inscrição "Santo Subito", ou "Santo Imediatamente", em referência a João Paulo 2º.

Eu lhe perguntei por que ele assistia ao funeral em um telão, em vez de se juntar às massas na Praça de São Pedro.

"Dá no mesmo", respondeu sorrindo. "A nossa intenção é nos integrarmos a eles, os jovens, expressando essa satisfação e agradecendo".

No campo abaixo, dezenas de membros do Caminho Neocatecúmeno, que é chamado pelos integrantes simplesmente de "O Caminho", executavam a sua característica dança em círculo, girando hipnoticamente em torno de um guitarrista e de um baterista, aproximando-se e afastando-se.

Apesar de parecerem um bando de fãs em um concerto do Phish, a maior parte desses grupos é tremendamente conservadora em sua doutrina, enfatizando mais as virtudes tradicionais como a obediência à autoridade do que as novas interpretações dos evangelhos.

Por exemplo, uma das principais iniciativas do Focolare é o Movimento Novas Famílias, dedicado a apoiar o casamento heterossexual. A vasta Comunhão e Liberação apóia os políticos conservadores na Europa.

Recentemente, o movimento denunciou de forma barulhenta o fato de a União Européia não ter apoiado um comissário contrário ao aborto e aos direitos dos homossexuais, indicado pelo governo italiano para ocupar um posto chave na instituição.

Integrantes do Caminho Neocatecúmeno passam por um processo esotérico de comprometimento que tem por objetivo imitar as iniciações rituais da fase inicial da igreja.

Alguns setores vêem esses grupos como seitas. Em 1995, Gordon Urquhart, um desafeiçoado ex-padre católico que já foi membro do Focolare, publicou "A Armada do Papa", que apresentou o Focolare, o Caminho Neocatecúmeno e a Comunidade e Libertação como redes poderosas que utilizam técnicas clássicas de controle mental para moldar as vidas dos jovens iniciados.

Os grupos, por sua vez, alegam que nem mesmo as suas regras mais rígidas são diferentes das práticas consagradas utilizadas nos monastérios.

Até mesmo nas áreas nas quais o poder desses grupos é menor, a sua independência dos bispos locais, e os seus rituais e leituras que lembram os cultos protestantes, causaram tensões em muitas paróquias.

Uns poucos bispos chegaram a se mobilizar contra o grupo. O bispo Mervyn Alexander, da Diocese de Clifton, na Inglaterra, alegando que os neocatecúmenos "atrapalham a paróquia", os expulsou.

João Paulo 2º enviou uma mensagem clara ordenando que esses grupos respeitassem a autoridade de bispos e padres. Mas ele também manifestou sinais amplos de apoio direito aos grupos.

Na reunião de 1998, "O Papa e os Movimentos", em Roma, ele deu publicamente as boas-vindas a Lubich (atualmente com 85 anos de idade) e aos fundadores de outros grandes movimentos e, em um notável discurso para umas das maiores multidões já reunidas na Praça de São Pedro, comparou o rápido crescimento do grupo com a própria fundação do cristianismo.

Os membros do grupo entrevistados na semana passada em Roma expressaram um sentido uniformemente intenso de ligação pessoal com o papa.

O padre Kaz Chwalek, do movimento Misericórdia Divina, com sede em Stockbridge, afirmou: "Em 1981, após o Santo Padre ter sido baleado, a sua primeira visita foi à Capela do Amor Misericordioso em Colle Valenza, próxima a Todi, na Itália, onde falou sobre a importância da mensagem de misericórdia".

Bill Neu, que vive segundo votos de pobreza, castidade e obediência feitos em uma cidade do Focolare no norte do Estado de Nova York, diz: "Ele já conhecia o Focolare na Polônia antes de ser eleito papa".

Em parte, tal afinidade advém da profunda crença de João Paulo 2º na experiência do divino na vida diária. Mas há quem enxergue uma outra faceta mais estratégica no fato de o papa cultivar tais grupos leigos, que o ajudaram a centralizar o poder no Vaticano.

Avaliando o legado do papa em uma revista alemã, o teólogo liberal suíço Hans Kungwho, que foi punido pelo Vaticano em 1979 por questionar a infalibilidade papal, afirmou sem rodeios: "Ao seguir o seu ideal de uma igreja uniforme e obediente, o papa vê o futuro da igreja quase que exclusivamente nesses movimentos leigos conservadores e facilmente controlados".

Porém, qualquer potencial reformista que herde as chaves papais dificilmente herdará também a capacidade de João Paulo 2º de manter a influência sobre milhões de jovens entusiastas.

Luca Diotallevi, sociólogo italiano que estudou a proliferação de movimentos religiosos na igreja européia, vê o apoio do papa a esses movimentos como uma "estratégia de resistência" que contrabalança o declínio da igreja junto à opinião pública, ao mesmo tempo que compromete a tradicional estrutura da autoridade.

"Os primeiros anos do sucessor serão extremamente difíceis", afirma Diotallevi. "Ele terá que lidar com as forças estranhas nascidas dentro da igreja, como os movimentos e o Opus Dei. E terá que retomar o trabalho tradicional da igreja". Para sociólogo, os primeiros anos do sucessor serão "muito difíceis" Danilo Fonseca

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