Pornografia na Web prejudica formação de adolescentes, apontam especialistas

Bella English
Em Boston, Massachusetts

A primeira vez em que ela notou a cobrança incomum de US$ 40 na conta telefônica, não deu muita atenção. Com três filhos, a vida é agitada; a mãe, que mora em North Shore, simplesmente pagou a conta. Mas quando ela apareceu novamente no mês seguinte, ela investigou, apenas para ser informada que a cobrança era de visitas a um site pornográfico na Internet.

As visitas foram feitas durante o dia, quando ela e seu marido estavam no trabalho. Alguém estava acessando sites para adultos no meio da tarde, logo após a saída da escola. Tal pessoa era o filho dela de 13 anos.

Os pais ficaram chocados, apesar de não ter sido seu primeiro problema com pornografia na Internet. Poucos meses antes, o computador deles contraiu um vírus após ficar repleto de pornografia.

"Acabou com ele", disse a mãe que, assim como as muitas pessoas entrevistadas por The Boston Globe para esta reportagem, não quis ser identificada. "Nós não apenas tivemos que pagar a conta de telefone, como também uma fortuna para consertar o computador."

O filho perdeu seus privilégios de computador por um ano, teve que pagar os US$ 80 de conta telefônica e teve que ouvir o sermão de seu pai sobre como a pornografia degrada as mulheres. A mãe dele permaneceu horrorizada. "Fico perturbada porque acho que distorce completamente a sexualidade, e não quero que ele veja as mulheres dessa forma. Eu não quero que ele pense que sexo se trata disso."

Ela tem muita companhia em seu apuro diante da pornografia. Os meninos --e algumas meninas-- não estão usando o computador apenas para fazer lição de casa, enviar mensagens instantâneas e jogar.

Em números cada vez maiores, eles o estão usando para acessar sites de pornografia, muitos dos quais não cobram taxas nem exigem que os usuários tenham pelo menos 18 anos.

Um estudo recente revelou que 9 entre 10 crianças com idades entre 8 e 16 anos já viram pornografia online, a maioria não intencionalmente, quando usavam a Internet para fazer lição de casa. Outro estudo revelou que um quarto de todos os meninos com 15 a 17 anos já mentiu sobre sua idade para obter acesso a certos sites.

Isto é muito diferente dos velhos tempos de encontrar a pilha de revistas "Playboy" do seu pai ou pedir para o sujeito da banca uma revista de mulheres nuas.

Atualmente, imagens proibidas para menores estão tão ao alcance quanto a tela do computador, à qual virtualmente todo adolescente tem acesso, e quando não em casa, então na biblioteca ou na casa de um amigo.

Não se trata apenas de visitar sites pornográficos. Como explicou um garoto de 13 anos: "Tudo o que você precisa fazer é digitar o primeiro nome de uma garota em um site de buscas e clicar 'imagens'. Algo vai aparecer".

Milhares de sites de pornografia hardcore estão a um mero clique do mouse ou propaganda pop-up não solicitada, mostrando qualquer fantasia imaginável, incluindo masoquismo, bestialidade e sexo grupal.

A pornografia na Internet é um negócio de US$ 2,5 bilhões nos Estados Unidos, com mais de 4 milhões de sites, segundo a Family Safe Media, uma empresa que vende produtos para computadores que permitem o controle por parte dos pais.

A empresa, que compila estatísticas de vários centros e estudos, alega que a idade média da primeira exposição à pornografia na Internet é 11 anos, e que as crianças com idade entre 12 e 17 anos constituem o maior grupo de espectadores de pornografia online.

O encontro de pornografia nem sempre é deliberado. Mesmo se os adolescentes não estiverem procurando por ela, ela pode facilmente encontrá-los.

Um garoto no ensino fundamental de um subúrbio a oeste de Boston estava procurando por música na Internet quando apareceu um site pornô. Um colega de classe que procurava por fotos para um projeto da escola buscou na Web "imagens perfeitas". Um dos sites oferecidos era de modelos nuas. "Eu fui àquele site e havia todas aquelas garotas gostosas", disse ele.

Uma garota de 14 anos estava fazendo uma pesquisa por informação sobre submarinos, e imagens apareceram de pessoas fazendo sexo.

De fato, disseram os adolescentes, se você pesquisar por personagens de desenho animado online, você pode encontrá-los fazendo sexo. E nem todos são sites comerciais; às vezes se trata apenas de alguém postando fotos de uma amiga ou celebridade nua. Mesmo um site popular de classificados online gratuitos contém imagens eróticas de fácil acesso.

Em um recente encontro com oito garotos do terceiro ano do ensino médio de uma escola pública, o psicólogo Michael Thompson da área de Boston, co-autor do livro best seller "Criando Caim", perguntou quantos já tinham feito download de pornografia. Todos eles ergueram a mão.

"Mais de 10 vezes?" ele perguntou. Todos. "Mais de 20 vezes?" Todos levantaram a mão. "Mais de 30?" Unanimidade.

"É uma grande parte da minha vida", um garoto disse para ele.

O normal torna-se anormal

Carleton Kendrick, um terapeuta familiar da área de Boston, lembra de ter folheado as revistas de mulheres nuas de seu pai quando era garoto, que ficavam "escondidas entre as luvas e gorros de inverno no armário dele". Mas isto é totalmente diferente daquilo a que meninos --e meninas-- estão expostos atualmente.

"As revistas do meu pai e do meu tio basicamente exibiam garotas posando nuas", lembrou Kendrick. "Não havia simulação de sexo, não havia masoquismo, não havia escatologia. Não havia aberrações sexuais. Agora, qualquer criança pode se conectar e encontrar mulheres e homens fazendo sexo com animais, podem encontrar tortura, podem encontrar simulação de estupro, podem certamente encontrar qualquer tipo de sexo oral, anal, vaginal, sexo grupal, sexo gay." Muitos sites oferecem uma lista alfabética de fetiches para clicar.

A curiosidade adolescente sobre o sexo é normal. O que os especialistas temem sobre a pornografia na Internet é o constante bombardeio de imagens violentas e degradantes, que podem mudar a postura dos meninos em relação às meninas e pode levar a um comportamento sexual precoce.

"O que é uma coisa relativamente normal é transformada em uma coisa anormal", disse William Pollack, um psicólogo e autor do livro best seller "Meninos de Verdade", que dirige centros para homens no Hospital McLean, em Belmont.

"Os meninos estão procurando por um aspecto normal de como são as garotas, biologicamente, mas estão entrando neste tipo de material de indústria de filmes hardcore. Se não tinham um interesse antes disso, eles são atraídos para um mundo que vai além da curiosidade normal."

Thompson nota que os meninos se interessam por fotos de mulheres nuas desde os tempos antigos; mosaicos pornográficos foram encontrados em banhos e lares romanos. Os meninos com os quais se preocupa são aqueles que ficam "entocados em seus quartos" com pornografia na Internet em vez de levarem uma vida equilibrada. "A preocupação é não conseguirem parar quando precisarem."

Howard Shaffer, um psicólogo e especialista em vícios, está preocupado que a visão constante possa afetar negativamente os relacionamentos dos meninos com as meninas, e posteriormente com as mulheres.

"O que está acontecendo é que jovens estão começando a pensar que este tipo de comportamento humano é normal e aceitável. Eles não o vêem como raro. Assim, isto muda a visão deles de mundo durante seus anos de formação, e não posso imaginar que isto seja uma coisa boa."

Se os adultos estão preocupados com a constante exposição das crianças à pornografia, as próprias crianças não parecem muito preocupadas. A pornografia hardcore aparentemente se tornou comum. "Todos os meninos vêem isto", disse uma garota da oitava série. "Eles se gabam a respeito."

Outra garota disse que quando um amigo mostrou para ela um site pornográfico, ela o repreendeu: "Cara, isto é nojento. Isto transforma as mulheres em objeto". O garoto respondeu que era "artístico".

As garotas estavam entre a dúzia de alunas de oitava série e primeiro colegial entrevistadas recentemente por The Boston Globe, juntamente com garotos da mesma idade, em sessões separadas, em uma igreja Unitária Universalista, em Bedford. Os adolescentes participam de um currículo abrangente de educação sexual criado pela Associação Unitária Universalista chamado Toda Nossa Vida.

Todos os meninos entrevistados disseram que viram pornografia na Internet, incluindo heterossexual, gay e sexo grupal. "Mesmo se você não estiver procurando por pornografia, você a encontra", disse um menino. "Você precisa de um bloqueador de pop-up."

Colleen Tedesco, de Franklin, que tem duas filhas, sabe quão fácil é ter acesso. Quando sua filha de 14 anos estava fazendo um trabalho sobre economias reais e procurou por "rainhas" (queens), todo tipo de site de drag queens apareceu.

Em outra ocasião, Tedesco estava pesquisando sobre campos de escotismo online, quando apareceu um site sobre o desejo de homens por bandeirantes vendedoras de biscoito. "Nada é sagrado na Web", disse Tedesco. E assim o computador continua na sala de estar, com os pais controlando o seu uso.

Muitos sites pornográficos são gratuitos, mas outros cobram --apesar dos menores freqüentemente não perceberem. Legalmente, os usuários supostamente deveriam ter mais de 18 anos, mas o computador não pode verificar a identidade da pessoa.

De fato, em alguns sites, este alerta está postado: "Este site possui conteúdo sexual explícito dirigido apenas a adultos com mais de 18 anos. Se você tem menos de 18 anos ou não quer ver conteúdo sexual, não clique o botão entre. (...) Se você deseja ver material de natureza sexual clique entre". Os meninos que informaram ao Globe sobre o site tinham 13 e 14 anos.

Tanto usuários adultos quanto jovens encontram e-mails indesejados os atraindo para sites pornográficos que oferecem visita anônima, gratuita.

A pegadinha: uma janela pop-up que explica que o usuário será conectado ao serviço de longa distância, e às vezes internacional, do site. Muitos garotos --como o de North Shore-- não lêem o texto miúdo e desavisadamente lhes são cobradas tarifas exorbitantes.

Diferente das revistas de nu, algumas das quais são embaladas em papel pardo e mantidas em um ponto menos visível nas bancas, a pornografia na Internet tem menos restrições.

Apesar de o Congresso ter aprovado uma Lei de Proteção Online da Criança em 1998, que restringiria material "prejudicial aos menores", vários tribunais --incluindo a Suprema Corte dos Estados Unidos-- bloquearam sua aplicação, julgando que ela teria um efeito negativo sobre a liberdade de expressão.

Crise de controle

O que os pais devem fazer? Alguns estabelecem controles por meio de seu provedor de Internet ou bloqueiam chamadas telefônicas internacionais feitas a partir de seus computadores. Outros instalam firewalls ou programas de proteção. Alguns não permitem que os computadores de seus filhos sejam conectados à Internet.

Shaffer, que leciona na Escola de Medicina da Universidade Harvard, estabeleceu controles sobre o computador da família há vários anos. "Minha filha, que atualmente tem 18 anos, queixa-se, mas ainda sei quais foram os sites que ela visitou", disse ele. "No final, o trabalho árduo cabe aos pais."

Jeanne Hummel, de Franklin, também fez o mesmo. Anos atrás, quando o filho dela, atualmente com 19 anos, foi pego visitando sites indevidos, ela e o marido estabeleceram controles rígidos sobre os computadores da família.

"Nós podemos verificar todos os sites em que as crianças estiveram", disse Hummel. Ainda assim, o filho mais novo dela, de 14 anos, disse que seus colegas de classe visitam tais sites nos computadores da escola.

Ao longo dos anos, Kendrick já orientou muitos jovens e adultos que considera viciados em pornografia. "O mais novo tinha 10 anos", disse ele.

"Se você visitar estes sites diariamente, isto se tornará parte de seu DNA sexual, de seu DNA emocional e de sua postura em relação às mulheres."

Ele disse que casamentos já acabaram por causa da obsessão dos maridos por pornografia. "A pornografia muda as expectativas dos meninos sobre as meninas reais, e conseqüentemente muda a realidade para as meninas. O que me incomoda é que as meninas não ficam ultrajadas com isto."

Kendrick e outros críticos notam que na pornografia --assim como na prostituição-- não há romance. "É difícil encontrar em qualquer site pornô um homem e uma mulher se beijando. Não tem nada a ver com romance, mas com ser usado e usar." E, é claro, sexo seguro raramente é representado.

De fato, notou Pollack, a maioria dos sites pornográficos não oferece "o corpo feminino normal"; nestes sites de pornografia leve você precisa pagar.

"O mais anormal, o mais bizarro, é o que você encontra de graça", disse ele. "Isto dá aos meninos uma visão bizarra, depreciativa, completamente reificadora, do que é o corpo feminino, e do que se tratam os relacionamentos entre homens e mulheres.

A psicóloga Cate Dooley, que trabalha tanto na Universidade Brandeis quanto na Faculdade Wellesley, concorda que a pornografia prejudica os relacionamentos.

"No final ela afasta da intimidade emocional, e este é um terreno perigoso", disse Dooley. "Os meninos não aprendem que o sexo deriva de amizade e relacionamentos emocionalmente íntimos. Os meninos e meninas estão perdendo isto em nossa cultura, e eu acho que é uma crise."

Dooley também se sente incomodada com a postura das garotas, que parecem aceitar que os meninos vejam pornografia. "Ao menos em um casamento, se a esposa está infeliz com o fato de seu marido estar fazendo o download de pornografia, ela pode levá-lo a uma terapia", disse ela. "Mas para as garotas isto é simplesmente como as coisas são. Não há conseqüência para os garotos."

Aqueles que trabalham com adolescentes concordam que pais que descobrem que seus filhos estão realizado regularmente o download de pornografia devem ser firmes sem envergonhá-los.

Kendrick compara às letras obscenas de rap ou aos vídeos sugestivos que os pais proíbem. "Você pode dizer, eu entendo sua curiosidade com estas imagens, mas não apoiamos pessoas que pensam em mulheres desta forma. (...) Nós não as recebemos em nossa casa, nem pelo aparelho de som nem pelo seu iPod, nem pelo rádio, pela televisão ou pela Internet."

Pelo celular

Kendrick talvez queira acrescentar os telefones celulares a esta lista. Empresas como Playboy e produtores de filmes pornográficos anunciaram planos para transmitir "conteúdo adulto" para celulares, que eles acham que eventualmente será ainda mais lucrativo do que a pornografia pela Internet.

Atualmente, um terço das crianças com idades entre 11 e 17 anos têm seu próprio telefone celular. O número provavelmente aumentará para quase 50% em dois anos. Para psicólogos, o erotismo online afetará conduta sexual no futuro George El Khouri Andolfato

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