A verdade de Gore acende o fogo

Rick Klein
em Washington

O novo filme de Al Gore estréia na quarta-feira (24/5) nos EUA e traz a mesma mensagem assustadora que ele vem disseminando há duas
décadas: que o mundo está enfrentando uma mudança climática catastrófica por negligência da humanidade.

"An Inconvenient Truth" (uma verdade inconveniente) está estreando, no entanto, em um momento especial -coisa que Gore raramente teve em sua longa carreira na vida pública, de acordo com membros do Congresso dos dois partidos. Uma conjunção de fatores, inclusive a alta nos preços da gasolina, furacões devastadores e o aumento da preocupação evangélica com a degradação ambiental- lentamente está levando o aquecimento global para a frente do debate político.

Depois de anos de inação em Washington em relação às mudanças climáticas, o Senado aprovou, no ano passado, uma resolução admitindo que existe um "consenso científico" de que as temperaturas globais estão aumentando com o crescimento das emissões de dióxido de carbono. A resolução pedia "limites obrigatórios para emissões de gases de efeito estufa e incentivos", algo que a Casa Branca de Bush se opõe em favor de programas voluntários.

No início do mês, o Comitê de Apropriações da Câmara endossou um documento similar, apesar dos líderes republicanos da Câmara o terem tirado de um projeto de lei de gastos antes de enviá-lo ao plenário da Casa. Na terça-feira, o Comitê de Relações Exteriores do Senado adotou uma resolução pedindo ao governo Bush que assumisse um papel de liderança em negociações internacionais de mudança climática.

Há também um movimento crescente no Congresso para requerer que os fabricantes de automóveis produzam veículos de menor consumo de combustível, o que reduziria significativamente as emissões. Líderes da Câmara estão prometendo votar a proposta nas próximas semanas, e o grupo bipartidário por trás do esforço diz ter a melhor chance em anos para aprovar o projeto.

O movimento mostra a formação de uma coalizão política emergente em busca de medidas mais extensas, de acordo com observadores e ativistas ambientais.

A estréia de "An Inconvenient Truth" pode impulsionar o sistema e forçar políticos relutantes a confrontarem a "verdade" citada no título, disse o senador Jeff Bingaman, de Novo México, principal membro democrata no Comitê de Recursos Naturais e Energia do Senado.

"A maior parte das pessoas racionais já ultrapassaram essa fase (de questionar se o aquecimento global está ocorrendo) e agora está tentando descobrir o que fazer", disse Bingaman. O filme "pode levar as pessoas a perguntarem aos membros do Congresso ou candidatos qual é sua posição na questão e o que planejam fazer a respeito. Acho que ajuda muito."

Gore disse em entrevista que detecta uma boa vontade crescente no Congresso para realizar mudanças, apesar de o filme fazer um retrato desanimador de negligência e negação oficial.

"Eu acredito que estamos perto de uma grande mudança na forma como o país lida com a crise climática", disse Gore. "Estou otimista. O sistema político, como o clima, não é linear. O potencial de mudança pode aumentar sem ser visto por um tempo, até ser liberado em uma onda repentina de mudança. E acho que estamos muito próximos disso, realmente acho."

O filme -um documentário que mostra Gore viajando pelo mundo apresentando slides sobre o aquecimento global- estréia em Nova York e Los Angeles na terça-feira e será lançado em todo o país na sexta-feira dia 2 de junho.

Grande parte das primeiras reações em relação ao filme foi como ajuda a suavizar a fama do ex-vice-presidente. Alguns estão até clamando para que concorra novamente à presidência.

Mas a maior esperança dos ativistas ambientais é que os espectadores prestem atenção ao que Gore está dizendo, não apenas como.

"Gore tem uma posição única na questão, e está levando isso para um público maior. A questão está dominando o centro e isolando alguns poucos membros dos extremos no Congresso", disse David Doniger, diretor de política climática do Conselho de Defesa de Recursos Naturais.

É claro que Gore, no passado, foi rotulado como extremista ambiental. O filme mostra cenas memoráveis do ex-presidente George H. W. Bush durante a campanha de 1992 dizendo que o candidato a vice-presidente Gore deixaria a nação "cheia de corujas, e sem trabalho para todos americanos."

Apesar disso, as evidências dos efeitos devastadores da mudança climática aumentaram, e a questão entrou para o centro das atenções -e voltou para Gore. Ele defendeu seu argumento com força em um livro campeão de vendas de 1992, "A Terra em Balanço", e disseminou-o para um público maior com a apresentação de slides que estima ter dado mais de 1.000 vezes.

Na apresentação -elemento central do filme- Gore mostra gráficos preocupantes e imagens perturbadoras, em uma chamada política às armas.
Enquanto isso, o filme mostra Gore como um mensageiro solitário, digitando em seu laptop em quartos de hotel e carregando suas malas pela segurança nos aeroportos.

"An Inconvenient Truth" levou Gore de volta aos holofotes. Ele fez outra volta ao estrelato em "Saturday Night Live", no último final de semana. Sua resposta à questão presidencial é que descobriu outras formas de servir e não tem planos de concorrer novamente. Ex-assessores dizem que a paixão de Gore com o aquecimento global é maior que suas ambições políticas.

"Isso é algo que realmente faz o homem se mover", disse Chris Lehane, secretária de imprensa da campanha de Gore em 2000.

Aquele que venceu as eleições de 2000, o presidente Bush, admitiu que a atividade humana contribuiu para o aumento dos gases de efeito estufa, mas não criou limites de emissões de dióxido de carbono. Perguntado por um membro do público em Chicago na segunda-feira se veria o filme de Gore, o presidente respondeu: "Duvido".

O filme já provocou reação contrária. O Instituto de Empresa Competitiva, um grupo em favor da liberdade do mercado patrocinado por empresas de petróleo, está passando anúncios na televisão contra os argumentos de Gore.

Frank Maisano, lobista de indústria de energia e porta-voz, disse que Gore está muito próximo da extrema esquerda em questões ambientais para mudar a mente das pessoas sobre o aquecimento global.

"Mudança de clima é uma questão séria, e vai precisar uma abordagem séria e colaborativa", disse Maisano. "Não deve ser 'nós contra eles'. Mas quando (a questão) recebe esse tipo de atenção, com Gore, as pessoas tomam lados."

Maisano disse que o filme provavelmente será o "Fahrenheit 9/11" deste ano -uma polêmica que confirma o que as pessoas pensam dos dois lados, mas pouco faz para avançar as discussões sérias.

Por outro lado, o estilo de Gore no filme, combinado com o interesse crescente na questão, pode forçar uma ação política, disse o deputado Edward J. Markeya, democrata.

"Neste filme, Al Gore se torna o professor de ciências predileto de todos; ele é o Sr. Wizard de hoje", disse Markey. Algo despertou nas pessoas. "O público está prestando atenção." Deborah Weinberg

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