Em Rhode Island, escrivães tornam-se cães de caça para farejar casamentos falsos

Yvonne Abraham
em Cumberland, Rhode Island

Patrícia Skurka conhece todas as ruas desta cidade. E sabia que o endereço que um casal escrevera em seu pedido de licença de casamento não existia.

Na frente da escrivaninha de um funcionário certo dia, no início de 2005, Skurka, a escrivã da cidade, sentiu que aquilo não era um erro inocente.

Algo estava errado. E talvez envolvesse mais do que apenas um casal. Ela mandou sua equipe trazer todos os pedidos do ano. Eles encontraram 35 outros endereços falsos.

Depois, observaram outros detalhes. Os casais que apareceram procurando licenças de casamento mal conseguiam se entender. Sempre consistiam de um cidadão americano e de um imigrante e não sabiam dizer onde e quando iam se casar.

Os servidores municipais com olhos de águia tinham encontrado um esquema criminal no qual cidadãos americanos estavam recebendo para se casarem com imigrantes ilegais do Brasil e da África, dando-lhes situação legal no país.

O trabalho de detetive dos escrivães, no curso de muitos meses, levou à prisão no dia 23 de outubro do líder da quadrilha, Carlos da Veiga, de New Bedford. Dezenas de imigrantes agora enfrentam a deportação.
"Foi sorte eu ter olhado e pensado: 'Isso não está certo'", disse Skurka, 69, ex-escriba de polícia que trabalha na prefeitura há 23 anos. "Algumas pessoas olhariam e diriam: 'O que é isso? Ah, não me incomodo.' Mas eu sim.".

Os esquemas de casamentos falsos tornaram-se cada vez mais comuns em Rhode Island. Diferentemente de Massachusetts, onde os casais precisam esperar três dias entre o pedido de licença e o casamento, Rhode Island permite que os casais tirem a licença imediatamente.

Isso tornou o Estado um imã para imigrantes ansiosos em encontrar uma forma de burlar as leis de imigração mais rígidas do país. Um imigrante ilegal, ou que não é residente, pode pedir cidadania se ele ou ela ficar casado por três anos. E o imigrante em geral pode conseguir um "green card" rapidamente.

Esquemas similares foram descobertos em torno do país. No Condado de Arlington, de Virgínia, 22 pessoas foram presas e acusadas de celebrar mais de 1.000 casamentos falsos entre imigrantes africanos e cidadãos americanos.

No caso de Rhode Island, Veiga articulou ao menos 15 casamentos fraudulentos, segundo as autoridades, cobrando até US$ 9.000 (em torno de R$ 20.000) dos imigrantes e pagando ao cidadão americano US$ 1.500 (em torno de R$ 3.300). Pelo acordo, o imigrante concordava em pagar ao cidadão US$ 200 (aproximadamente R$ 440) por mês depois do casamento até a aprovação de seu pedido de residência.

Veiga deve se dizer culpado de "conspirar conscientemente com outros para que se casassem" e evadissem a lei de imigração e provavelmente será condenado a cinco anos em prisão federal.

A promotoria de Rhode Island, que processou Veiga, admitiu uma dívida com a prefeitura e os escrivães, que são cada vez mais os primeiros a descobrirem esforços para evadir as leis de imigração.

Depois de contatar as autoridades, Skurka e sua equipe tornaram-se cães de caça. Eles adotaram um jeito discreto em frente dos casais, mas observavam de perto seu comportamento. Eles corriam para fazer cópias dos documentos e mantinham investigadores informados enquanto a parada de casais aparentemente sem amor continuava.

"Não os detínhamos; no minuto que entravam, as meninas mandavam alguém me dizer: 'Temos outro', e eu chamava o detetive", disse Skurka. A 10 km de Cumberland, a escrivã de Woonsocket, Pauline Payeur, descobriu o que acredita ser uma operação ainda maior. Há dois anos, observou uma enxurrada de casais em seu escritório vindos de Worcester. "Eles passam por 20 prefeituras no caminho e escolhem Woonsocket?" exclamou Payeur. "Obviamente estavam tentando esconder algo."

Os casais, que em geral consistiam de um imigrante africano e um cidadão americano, freqüentemente estavam acompanhados de uma mulher africana, que parecia os aconselhar. Diferentemente dos imigrantes em Cumberland, estes falavam inglês fluentemente e pareciam altamente educados, disse Judith Labonte, secretária de registros vitais.

E pouco depois de receberem a licença, os casais chamavam um juiz de Woonsocket e se casavam no local, onde houvesse espaço. "Era ridículo", disse Payeur, sentada em seu pequeno escritório. "Eles se casavam ali no corredor, ao menos no início. Depois nós dissemos que aquilo não era uma capela. Os telefones tocavam. Eu tinha duas testemunhas, a noiva e o noivo e o juiz aqui dentro. Digo, sou uma pessoal legal, mas depois de um tempo, tive que dizer!"

Payeur emitiu entre 200 e 300 licenças de casamento para casais de Worcester só no último ano. A cidade de Woonsocket em geral emite um total de 400 licenças por ano. Payeur, 61, que trabalha na prefeitura desde que saiu do colégio, nunca viu nada igual.

A mulher pequena e falante o e sua equipe agora estão trabalhando com agentes de imigração, reunindo documentos e fornecendo informações. As autoridades federais recusam-se a comentar a investigação.

Dentro do cofre de documentos, certo dia na semana passada, Payeur puxou de uma estante um volume grosso, amarrado com fita vermelha, de certificados de casamento. Ela o abriu ao acaso.

"Worcester, Worcester, Worcester," leu dos certificados, virando as páginas. "Gâmbia. Dois do Brasil. Gana. Quênia. Bolívia. Senegal. Todas as páginas. Não estou de brincadeira. Eu lhe digo, é incrível." Deborah Weinberg

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