Aquecimento global provocará aumento das inundações costeiras nos Estados Unidos

John Donnelly
Em Washington

As comunidades costeiras da Nova Inglaterra e das outras regiões dos Estados Unidos serão "cada vez mais pressionadas" pelo aquecimento global nas próximas décadas e ficarão especialmente vulneráveis a enchentes generalizadas provocadas por tempestades, segundo a minuta de um relatório divulgada na segunda-feira (16/4) por um grupo de cientistas internacionais.

Autores de um capítulo de um relatório feito para o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, mais de 20 cientistas se concentraram no potencial impacto das alterações climáticas na América do Norte, prevendo um número cada vez maior de "extremos meteorológicos" na região, incluindo furacões, inundações, secas, ondas de calor e incêndios florestais.

"A lista de possíveis impactos soa como um rol de pragas bíblicas: calor, seca, doenças, insetos e elevação do nível dos mares", afirma Angela Anderson, vice-presidente dos programas climáticos do Fundo Nacional do Meio-Ambiente, um grupo ecológico e educacional.

Os cientistas disseram estar preocupados não apenas com a elevação do nível do mar ao longo da Costa Leste dos Estados Unidos, mas também com tempestades mais intensas, que se fazem acompanhar de enchentes nas regiões costeiras. "Esta é a vulnerabilidade número um", afirma Cynthia Rosenzweig, diretora do Grupo de Pesquisas sobre Impactos Climáticos do Instituto Goddard de Estudos Espaciais.

Embora os especialistas não sejam capazes de afirmar que a rara tempestade de primavera que atingiu o nordeste dos Estados Unidos na segunda-feira esteja especificamente vinculada ao aquecimento global, Michael Oppenheimer, professor de geociências e de questões internacionais da Universidade Princeton, disse que a alteração climática fará com que no futuro cresça o número dessas tempestades.

"Este é o tipo de coisa que podemos esperar nos próximos anos", disse Oppenheimer, referindo-se à tempestade que atingiu a Costa Leste no domingo e na segunda-feira, provocando alagamentos. "Essas tempestades se tornarão mais intensas e ocorrerão com maior freqüência".

Oppenheimer disse aos jornalistas que o painel de cientistas tem certeza de que o nível do mar subirá de 18 a 60 centímetros no decorrer deste século. "Isso provocará muitos problemas ao longo da costa", afirmou, referindo-se ao desaparecimento de terras e de habitats de animais e plantas.

Mas ele observou que o derretimento da Groenlândia e das camadas de gelo do oeste da Antártica representam um perigo ainda maior. Segundo ele, bastaria o derretimento da camada de gelo da Groenlândia para fazer com que os oceanos sofressem uma elevação total de cerca de 6,7 metros, embora seja difícil prever uma catástrofe de tais proporções, que poderia ocorrer daqui a centenas ou milhares de anos.

Neste ano, o painel intergovernamental sobre aquecimento organizado pelas Nações Unidas vem apresentando partes da sua quarta atualização da avaliação do estágio em que se encontra o conhecimento sobre a mudança climática. No início deste ano, o painel anunciou que há mais de 90% de certeza de que os humanos estão contribuindo para o aquecimento global.

Ainda que vários cientistas tenham afirmado que o aquecimento global afetaria mais os países em desenvolvimento, já que estes carecem dos meios para se adaptarem rapidamente, vários pesquisadores disseram na segunda-feira que as nações ricas também enfrentarão problemas significativos.

"Ninguém escapará dos impactos da mudança climática", afirma Patricia Romero Lankao, uma das autoras do relatório e cientista que trabalha no Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas, um grupo sem fins lucrativos com sede em Boulder, no Colorado.

A avaliação recém-divulgada também prevê que a elevação das temperaturas nos Estados Unidos reduzirá os acúmulos de neve e intensificará a evaporação, ameaçando rios, lagos e outras fontes de água. Nos Grandes Lagos e nos principais sistemas fluviais dos Estados Unidos os níveis mais baixos poderão ter um impacto sobre a qualidade da água, a geração de energia hidroelétrica e as relações com o Canadá. Além disso, a elevação da temperatura poderá provocar o aumento das doenças respiratórias, acelerar a disseminação de doenças infecciosas como a Doença de Lyme e o vírus do Nilo Ocidental e causar períodos de calor diurno mais extensos, o que, segundo o relatório poderia fazer com que dobrasse o potencial para o aumento das ondas de mortalidade causadas pelo calor nas áreas urbanas. UOL

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