Cristina Kirchner se volta ao exterior em busca da vitória eleitoral argentina

Jude Webber
Em Buenos Aires

Cristina Fernández de Kirchner dedicou tanto tempo a viagens ao exterior durante sua campanha eleitoral que quase parece que ela está concorrendo a um cargo na ONU, não à presidência da Argentina.

A senadora, que passou a semana passada cortejando financistas, líderes empresariais e diplomatas durante a Assembléia Geral da ONU em Nova York, quase certamente obterá a vitória em 28 de outubro, sucedendo sem quebra de continuidade seu marido, o presidente Néstor Kirchner.

Mas ao menos na política externa, ela tem prometido um estilo mais aberto que o de seu marido e, caso vença, como prevêem as pesquisas, ela terá várias questões urgentes tanto externas quanto domésticas em sua mesa quando assumir em 10 de dezembro.

Jamil Bittar/Reuters - 30.ago.2007 
Presidente Lula recebe Cristina Kirchner no Palácio da Alvorada, em Brasília

Ela disse pouca coisa nova em Nova York e fracassou em tratar de preocupações econômicas chaves, como a crescente inflação da Argentina, que economistas privados estimam ser o dobro da estimativa oficial de 9,6%, mas ainda assim foi uma grande blitz de relações públicas. A intenção era mostrar uma candidata comprometida em colocar a Argentina de volta ao mapa, seis anos depois de seu calote na dívida tê-la deixado à margem na comunidade financeira internacional, e alguém com a qual os líderes mundiais podem negociar.

"O principal desafio diante do próximo governo é como atrair investimento", disse Luis Tonelli, um ex-diretor-geral de planejamento estratégico.

Apesar do crescimento sustentado de mais de 8% ao ano, a Argentina precisa de mais gastos em setores como energia, infra-estrutura e transporte, que dependem altamente de investimento estrangeiro.

Cristina Kirchner não mediu esforços para visitar empresas estrangeiras e presidentes para pedir investimentos, lhes assegurando que seus compromissos com a Argentina serão respeitados.

Ela provavelmente será questionada no Brasil nesta semana pelo fechamento de um usina de armazenamento de combustíveis da brasileira Petrobras, no mês passado. O fechamento foi ordenado por supostas irregularidades ambientais, mas foi visto por muitos na Argentina como tendo motivação política.

O governo está correndo para concluir um acordo, há muito atrasado, com o Clube de Paris de países credores para renegociação da dívida de US$ 6 bilhões da Argentina, o que permitiria a Cristina Kirchner iniciar sua presidência com uma poderosa abertura para os governos ocidentais e que também desbloquearia vários bilhões de dólares em empréstimos congelados.

Mas Cristina Kirchner não deu sinal de que buscará um acordo com os detentores de US$ 20 bilhões em títulos -muitos na Itália, Alemanha, Estados Unidos e Japão- que rejeitaram uma reestruturação em 2005. O litígio deles pesa nas relações internacionais e prejudica a imagem da Argentina no exterior.

"A primeira coisa que ela deveria fazer é olhar para as relações com seus vizinhos", disse Celia Szusterman, da Universidade de Westminster, em Londres.

A Argentina tem cultivado laços com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que comprou títulos de sua dívida e lançou um título conjunto, mas não compartilha do apreço deste pelo Irã. A Argentina culpa ex-líderes iranianos de terem ordenado o atentado de 1994 a um centro judaico em Buenos Aires.

Cristina Kirchner diz que a Argentina não precisa ser amiga dos "amigos de nossos amigos" e provavelmente desejará impor seu próprio estilo, talvez mais seletivo, nas relações com a Venezuela -apesar de que terá pouco espaço para manobra, dada a dependência financeira da Argentina.

Ao mesmo tempo, ela deverá ter relações mais calorosas com Washington, que critica Chávez, especialmente se Hillary Clinton for eleita presidente no próximo ano.

Mas como na maioria dos desafios de política externa, incluindo como vê o futuro das Ilhas Falklands (Malvinas), ela ainda não declarou sua posição.

Sejam quais forem suas políticas, Cristina Kirchner provavelmente prosseguirá em suas viagens ao exterior para vender sua imagem de "posso fazer". E isto poderia resultar em uma das maiores mudanças em comparação ao estilo excessivamente participativo de Kirchner: ministros de governo com autonomia de fato? "Se ela não delegar poderes, ela não poderá viajar muito", notou um alto diplomata ocidental. George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos