Por que os banqueiros do Bear deveriam fazer penitência nesta Páscoa

John Gapper

As palavras "sofrimento" e "banqueiro" raramente vêm juntas. Mas o resgate do Bear Stearns, banco de investimentos de Wall Street, nesta semana é um caso raro desta colisão.

Quando o Federal Reserve, banco central americano, formulou a tomada do Bear Stearns pelo JPMorgan Chase, endossou o virtual aniquilamento das ações do Bear, um terço das quais são de propriedade dos 14 mil funcionários do banco. Jamie Dimon, diretor executivo do JPMorgan ofereceu US$ 2 (em torno de R$ 4) por ação, ou cerca de US$ 237 milhões (R$ 474 milhões) por um banco que valia US$ 20 bilhões (aproximadamente R$ 40 bilhões) em seu ápice e US$ 9,5 bilhões (em torno de R$ 19 bilhões) há apenas três semanas.

Na última década, enquanto os mercados financeiros globais prosperaram, os "hedge funds" e firmas de ativos privados proliferaram e os banqueiros de investimento receberam bônus anuais que chegaram a dezenas de milhões, o resto do mundo olhou com inveja e certo ressentimento financeiro.

Os preços dos imóveis em distritos importantes de Nova York e Londres inflaram além do alcance dos que não eram do mercado financeiro, os restaurantes estavam lotados, as escolas privadas trabalhando em capacidade máxima. Os que tinham emprego em Wall Street ou na City de Londres tornaram-se os "que têm" e quase todos os outros os que "não têm".

Ainda assim, mesmo quando algo dava muito errado nessas instituições, seus líderes saíam com milhões de dólares a mais. Tanto Chuck Prince quanto Stan O'Neal, ex-diretores executivos do Citigroup e Merrill Lynch, respectivamente, receberam dezenas de milhões em compensação adiada - ações que só poderiam receber depois de um ano ou mais.

Quando a queda imobiliária tornou-se uma crise de crédito, e bancos centrais foram forçados a intervir para deter o colapso do Northern Rock e do Bear Stearns, o contribuinte teve de sustentar instituições que agiram como caça-níqueis gigantescos em benefício dos que nelas trabalhavam. Certamente, as pessoas fora da classe dourada não acharam justo.

Moe Tkacik, escritor do blog de Nova York Jezebel, veiculou com eloqüência o ódio aos banqueiros nesta semana: "Eles escolhem esse caminho, sabe. Eles escolhem adorar Ayn Rand e vestir essas camisas Paul Smith e não pagar nada de entrada para suas casas de verão nas Hamptons e, odiosamente, toda vez que são confrontados por alguém como eu em um bar, alegam que o mercado resolve tudo. Deixe o mercado resolver esta para eles."

O "New York Times" colocou da seguinte forma: "Os banqueiros recebem recompensas estelares quando as estratégias de investimento saem-se bem, mas têm um piso quando suas perdas são grandes. Talvez tenham que se privar de um bônus, se os investimentos derem errado. Talvez até sejam despedidos... Em geral, porém, não têm que devolver o dinheiro que ganharam nos bons tempos, quando estavam fazendo todas as loucas apostas que eventualmente derrubaram seus bancos."

Exato! Concordo plenamente, Moe e Grey Lady. Mas esfriem a cabeça e considerem o Bear.

Neste caso, por uma vez, os banqueiros estão sofrendo. Como outros bancos de investimento, o Bear pagava a maior parte dos bônus anuais dos funcionários com ações restritas, de posição futura. Um operador talvez recebesse um bônus de US$ 1 milhão, mas muito disso era pago em ações que só podiam ser vendidas em três anos. A idéia era mantê-lo leal e dar-lhe um incentivo para não fazer "apostas loucas" que explodissem mais tarde.

Depois que o Fed resgatou o Bear para evitar uma derrocada dos títulos de hipotecas, encorajou o JPMorgan a fazer uma oferta tão baixa que quase toda compensação adiada foi extinta. Queria evitar um risco moral ou, em linguagem simples, ensinar aos banqueiros uma lição inesquecível.

No espaço de três semanas, a participação de Jimmy Cayne, diretor voluntarioso do Bear, passou de US$ 500 milhões para US$ 12 milhões (de cerca de R$ 1 bilhão para R$ 24 milhões - no ápice, era bilionário). Um grande número de funcionários perdeu milhões e cerca de metade deve perder o emprego quando o JPMorgan engolir seu banco e o prédio na Madison Avenue.

O ambiente que prevalece no Bear é uma mistura de desespero e raiva. Dimon foi até o Bear na quarta-feira para falar aos 400 executivos destruídos do banco. Junto com ele estava Alan Schwartz, diretor executivo do Bear que, segundo o "New York Times", disse ao grupo que: "Nós aqui somos um vítima coletiva da violência".

Schwartz parece crer que o Bear desmoronou porque os "hedge funds" e outros bancos retiraram seus negócios e suas linhas de crédito na última semana, tornando-o insolvente. Joe Lewis, economista inglês que detém 8% das ações, ficou tão revoltado que rejeitou publicamente a oferta do JPMorgan, e as ações do Bear subiram acima do oferecido pelo JPMorgan nesta semana, na esperança de uma oferta melhor.

Podem sonhar. A proposta do JPMorgan foi adiante porque o Fed concordou em patrocinar US$ 30 bilhões (em torno de R$ 60 bilhões) do balanço do Bear, e o banco central provavelmente bloquearia qualquer alternativa que desse mais aos acionistas, retiraria seu apoio e empurraria o Bear para a insolvência. Fora de Wall Street, todo mundo quer que isso seja uma dura lição.

E deveria. O Bear foi uma instituição de Wall Street que teve tudo fácil por um longo tempo. Fez grande lucros negociando hipotecas e servindo fundos alavancados no boom imobiliário e de títulos de crédito. Durante anos, o Fed deu moleza, mantendo a taxa de juros baixa e alimentando o mercado com dinheiro barato. Nesta semana, o Fed tirou.

Os banqueiros também são humanos. Eles têm famílias e, se forem espetados, provavelmente sangrarão. Mas é tanto justiça quanto boa prática que os perpetradores (e não, Sr. Schwartz, as vítimas) deste fiasco financeiro sofram. Páscoa é tempo de perdão, mas primeiro é preciso fazer penitência. Deborah Weinberg

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