Países latino-americanos começam a ficar nervosos com a economia dos EUA

Richard Lapper
Em Miami

As preocupações sobre a desaceleração econômica nos EUA e a queda dos preços das matérias-primas começaram a prejudicar o otimismo gerado pelo forte desempenho recente das economias latino-americanas.

Na reunião anual em Miami esta semana do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a maior instituição de desenvolvimento da região, os criadores de políticas e banqueiros rejeitaram conversas de "desconexão" e advertiram que a região não permaneceria imune a uma acentuada inversão da economia global.

"Cabe à região preparar-se para uma correção [do mercado] mais forte", disse William Dallara, presidente do Instituto para Finanças Internacionais (IIF na sigla em inglês), uma associação de bancos.

As fortunas da América Latina se transformaram desde a crise financeira de 2001-2002, com a estabilidade econômica e as condições internacionais benéficas abrindo caminho para uma expansão constante. No ano passado as economias da região cresceram em média 5,3% e deverão se expandir cerca de 4% este ano.

Mas a região será afetada por uma desaceleração nos EUA, com a redução da demanda por importações prejudicando especialmente o México e as economias menores do Caribe e da América Central, que têm laços comerciais e financeiros estreitos com os EUA.

Mais recentemente os latino-americanos começaram a temer que uma combinação de desaceleração nos EUA e expansão chinesa mais lenta poderia atingir os preços das matérias-primas. Se isso acontecesse, os maiores países sul-americanos -Brasil, Argentina, Venezuela, Colômbia, Peru e Chile-, que são menos dependentes dos mercados americanos mas obtêm receitas de exportação significativas da venda de produtos como petróleo, cobre, soja ou minério de ferro, também poderiam ser prejudicados.

Refletindo essas tendências em um relatório intitulado "Tudo o que brilha pode não ser ouro", os economistas do BID, liderados pelo vice-presidente Santiago Levy, disseram: "O atual superávit de conta-corrente e os fluxos líquidos de capital muito limitados não isolarão necessariamente a região de um achatamento da liquidez global".

Os economistas afirmaram, pelo contrário: "O véu da bonança externa descobre uma série de vulnerabilidades que não são imediatamente aparentes: crescimento, investimento e produtividade foram menos que impressionantes".

Fora o Chile, que estabeleceu com sucesso fundos de estabilização, nenhum país da região está realmente preparado para enfrentar um declínio potencialmente acentuado da economia mundial, disse o relatório.

Embora a gestão fiscal tenha melhorado, a maioria dos governos adotou políticas de gastos pró-cíclicos, concentrando recursos demais em coisas como salários e insuficientes em investimentos.

As reservas internacionais aumentaram significativamente, disse o relatório, mas também têm fraquezas monetárias. Os riscos associados ao aumento da dívida interna e o crescimento explosivo dos empréstimos ao consumidor foram subestimados. De modo geral a América Latina estava tendo um desempenho inferior ao de outros países em desenvolvimento.

Embora o IIF esteja razoavelmente animado sobre as perspectivas da região, o vice-presidente da organização, William Rhodes, o banqueiro do Citicorp, admitiu que sua previsão para 2008 -crescimento de 4,4% e influxos líquidos de capital de US$ 129 bilhões (ligeiramente menores que em 2007)- era "otimista" e disse que seria um "desafio" para a América Latina cumpri-la.

Sugerindo uma potencial turbulência à frente, Dallara disse: "O mundo se acostumou ao crescimento chinês. Muitos investidores estão semi-hipnotizados pela China. Até uma modesta redução na expansão poderia levar a uma grande mudança no sentimento do mercado". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos