Martin Wolf: Por que a regulação financeira é tanto difícil quanto essencial

Martin Wolf

Bela tentativa, mas sem sucesso. Esta foi minha reação à tentativa da comunidade bancária para evitar uma maior regulação, ao recomendar um "conjunto de boas práticas para serem adotadas voluntariamente". Também foi a reação dos autores de políticas que se reuniram em Washington no fim de semana. Mais regulação está a caminho. Após assustarem tanto políticos e autores de políticas, até mesmo o banqueiro mais otimista precisa entender isso. A pergunta é se a regulação adicional resultará em algo de bom.

Em um relatório interino sobre as "melhores práticas do mercado", o Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), uma associação de banqueiros, oferece uma autocrítica devastadora. Aqui estão algumas das fraquezas que ele identifica: "deterioração dos padrões de empréstimo por certos originadores de crédito"; um "declínio dos padrões de concessão de crédito"; uma "dependência excessiva de produtos estruturados pouco entendidos, de desempenho ruim e avaliação abaixo da adequada"; e "dificuldades em identificar onde se encontram as exposições". Você compraria um código voluntário de pessoas que descrevem seus próprios erros deste modo brutal? Eu achei que não. Há dois poderosos motivos adicionais para não fazê-lo.

Primeiro, em um setor ferozmente competitivo, um código voluntário quase certamente não valeria o papel em que está escrito. Diante da possibilidade de se safarem após se comportarem de forma irresponsável, alguns agirão dessa forma. Isto coloca uma forte pressão sobre os demais. Isto é o que Chuck Prince, o ex-presidente-executivo do Citigroup, quis dizer quando disse ao "FT" que "enquanto a música estiver tocando, você precisa se levantar e dançar". Também, como comentou Willem Buiter, da Escola de Economia de Londres: "Auto-regulamentação está para regulação como a presunção está para a importância".

Segundo, o setor tem um modelo. O próprio IIF foi fundado em 1983 em resposta à crise da dívida os países em desenvolvimento. Na época, uma grande parte do sistema bancário ocidental estava na prática falido. Agora, muitos problemas depois, nós chegados à "crise do subprime". O IIF foi criado não apenas para representar o setor, mas para melhorar seu desempenho. Está claro que isso não funcionou.

Não aceite apenas minha palavra a respeito. No mês passado, Carmen Reinhart, da Universidade de Maryland, e Kenneth Rogoff , de Harvard, publicaram um trabalho extraordinário sobre o longo histórico de crises financeiras. A incidência de crises bancárias (medida pela proporção de países atingidos) é tão alta desde 1980 quanto em qualquer período desde 1800; que a incidência de crises está correlacionada à liberalização dos fluxos de capital; e que havia, até 2007, um declínio na incidência de crises nos anos 2000.

Mas por que, eu pergunto, este setor aparentemente fracassou em melhorar seus padrões de desempenho ao longo do último século? Afinal, quase todos os outros setores melhoraram. Considere quão confiantes somos de que o alimento que compramos não nos envenenará. Mas alimento adulterado já foi uma ameaça.

Considere, segundo estes padrões, os fracassos do setor bancário, como reconhecidos pelo próprio IIF. Seu desempenho puramente operacional agora é impressionante. Mas a concorrência não funciona bem nas finanças. O "produto" do setor financeiro é promessa de um futuro incerto, comercializada como sonhos que podem rapidamente se tornar pesadelos. Os clientes se deixam prontamente levar pelas promessas exageradas, crenças irracionais, confiança indevida ou simples trapaça. Assim como os profissionais: basear a gestão de risco em dados limitados e modelos inadequados é um bom exemplo. As emoções contam sempre que pairam incertezas.

A Boeing não sobreviveria se as aeronaves que fabrica caíssem do céu. Mas no setor financeiro, graves erros quase sempre se tornam comuns. Se todos estão dançando, ninguém deve ser culpado e, de qualquer forma, os governos, horrorizados com as conseqüências de um colapso financeiro, virão em socorro.

Até agosto passado, eu me confortava com o pensamento de que muitas das crises do último quarto de século ocorreram em sistemas financeiros relativamente atrasados, mesmo quando instituições do primeiro mundo participaram na "sedução dos menores". Então, eu esperava, as coisas podiam estar melhorando.

Esta não é mais uma posição plausível. Assim que os próprios Estados Unidos incorreram em um enorme déficit em conta corrente, os concomitantes acúmulos de dívida interna geraram perdas imensas, como aponta o excelente novo Relatório de Estabilidade Financeira Global do Fundo Monetário Internacional. O lado bom é que as perdas estimadas de quase US$ 1 trilhão são amplamente distribuídas. O que torna a situação atual menos transparente, infelizmente. Mas também significa que a dor é mais difusa, e mais seguramente compartilhada.

O que então deve ser feito agora? Interessantemente, há uma convergência em substância entre o IIF e as autoridades, como mostrado em um relatório recente devastadoramente crítico do Fórum de Estabilidade Financeira sobre "aumento da resistência institucional e do mercado". Ambos concordam, por exemplo, que a gestão de risco foi aterradora.

A agenda estabelecida no relatório oficial é longa. Ela inclui: fortalecimento da supervisão prudente do capital, liquidez e gestão de risco; aumento da transparência; mudança do papel e uso do "rating" (classificação) de crédito; fortalecimento da resposta das autoridades ao risco; e melhoria dos arranjos para lidar com estresse. Mas, é preciso ser dito, os autores de política também acreditam que a regulação deve ser mais dura. Dado o tamanho do estrago e o tamanho da rede de segurança fornecida, não existe alternativa.

Mas não sou tão otimista em relação à regulação. Os reguladores estão condenados a fechar as portas atrás de instituições financeiras que sempre encontram novas formas mais empolgantes de perder dinheiro. Por esse motivo, é crucial que as instituições e credores não-garantidos sintam alguma dor: a criança que se queimou tem medo de fogo; marcar a ferro é menos eficaz. Mas o fogo nunca deve queimar demais, já que poderia destruir toda a economia.

Se a regulação deve ser eficaz, ela deve cobrir todas as instituições relevantes e todo o balancete, em todos os países significativos; ela deve se concentrar no capital, liquidez e transparência; e, igualmente importante, deve tornar as finanças menos pró-cíclicas. Funcionará perfeitamente? Certamente não. É impossível e provavelmente até mesmo indesejado criar um sistema financeiro livre de crises. As crises sempre estarão conosco. Mas certamente podemos nos sair melhor do que no momento. De qualquer forma, estamos condenados a tentar. George El Khouri Andolfato

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