Como a Internet move a campanha nos EUA

Kevin Allison e Richard Waters, do Financial Times

Stacey Weinberger estava visitando o site da campanha de Barack Obama no mês passado, quando viu um convite para uma festa local para assistir pela televisão o discurso do candidato democrata durante a convenção do partido em Denver.

Foram necessários apenas alguns cliques para descobrir o endereço da festa, que estava acontecendo em uma residência privada em seu caminho de volta do trabalho.

Na noite do discurso, em uma cena repetida em centenas de festas similares nos EUA, Weinberger e 15 outros eleitores de Obama reuniram-se em uma sala de estar de um voluntário da campanha para assistir ao discurso do candidato. "Eles tinham alguns salgadinhos e uma tela grande de televisão, com a convenção passando", disse Weinberger. "Eu levei umas frutas. Fizemos crachás."

A reunião democrata perto de San Francisco foi um exemplo do que pode se tornar um dos fatores mais decisivos desta campanha presidencial, agora em pleno vapor.

A política moderna ainda é um negócio feito cara a cara, mas, conforme praticada nas eleições de 2008, ela depende do uso eficaz de tecnologia cada vez mais sofisticada. Desde o marketing com bancos de dados de escala industrial até tecnologias da web 2.0, como redes sociais on-line, as campanhas rivais estão usando muitas das tecnologias que hoje são altamente empregadas nas empresas americanas para tentar motivar e mobilizar seus partidários.

Para Obama vencer, sua equipe terá que superar o time dos republicanos em um jogo sofisticado no qual estes venceram os democratas nas últimas duas eleições presidenciais. Ao se dirigir para um duelo contra John McCain, o comitê de Obama está apostando pesadamente em sua capacidade de reunir um exército de voluntários para bater nas portas e fazer ligações telefônicas para eleitores indecisos em Estados indefinidos.

A saída dos voluntários às ruas em busca de votos pode aumentar o número de votos que um candidato recebe em uma eleição nacional em 3 a 4%, de acordo com Donald Green, professor da Universidade Yale que estuda a participação dos eleitores nas eleições. Isso é mais do que suficiente para fazer diferença em uma eleição apertada. Para ambos os comitês, o desafio desta eleição será fundir as novas tecnologias com a política à moda antiga de forma a maximizar o número de partidários que vão às urnas. "Estamos vendo a primeira verdadeira campanha do século 21. Nela, o cerne não é a televisão, mas as ações de milhões de pessoas", diz Simon Rosenberg, diretor do NDN, grupo de estudos progressista que presta assessoria de estratégias de mídia.

De certa forma, esta campanha também pode ser vista como uma volta ao passado. O contato pessoal envolvido lembra o século 19, quando os partidos políticos dependiam do apoio de seus partidários aos candidatos preferidos. Essa abordagem de pessoa a pessoa diminuiu quando as campanhas de mídia, particularmente na televisão, passaram a ser vistas como a forma mais efetiva de alcançar os eleitores.

Entretanto, nos últimos anos, uma série de eleições apertadas e a capacidade da Internet de conectar os candidatos à sua base levaram a uma ênfase renovada no corpo-a-corpo. "As campanhas da última década redescobriram a política como era há 100 anos, com voluntários batendo de porta em porta para estimular as pessoas a votarem", disse Michael Mcdonald, professor da Universidade George Mason, em Virgínia. "Os voluntários e a tecnologia são o motor do esforço da busca de votos".

Até agora, nesta década, o Partido Republicano conseguiu ficar à frente dos democratas na arte e na ciência da política de porta em porta. Os republicanos foram os primeiros a desenvolver a tecnologia principal das campanhas modernas da saída em busca de votos -um banco de dados gigantesco, contendo pilhas de informações fornecidas durante os anos pelos eleitores individuais. É chamado de Cofre dos Eleitores. "Eles estão montando isso há 20 anos. É o centro de tudo que fazem", diz Juan Proano, diretor do Plus Three, empresa de software que trabalhou com os democratas para criar seu próprio banco de dados depois de 2002.

Os arquivos dos eleitores, tanto dos republicanos quanto dos democratas, hoje incluem cerca de 170 milhões de nomes. Eles são fundamentados nas listagens de eleições dos Estados, que os partidos coletaram e organizaram. Eles mostram nomes e endereços dos eleitores e em quais eleições votaram. Em alguns Estados, também incluem a afiliação partidária.

Dados pessoais ou dados demográficos mais amplos são acrescentados a isso, apesar de nenhum partido estar disposto a dar detalhes sobre os tipos de informação que têm dos eleitores individuais. A renda e o valor da casa própria com base no endereço são duas informações incluídas freqüentemente, diz Proano. Outros dados são resultados de grupos de estudos locais - informações que possam dar pistas sobre suas tendências políticas.

"Posso ter cinco vizinhos na minha rua que votaram nos democratas em duas das últimas cinco eleições. Podemos procurar todos eles em uma determinada área", diz Thomas Gensemer, gerente da Blue State Digital, empresa que administra a tecnologia da web para Obama. "Arranhamos a superfície disso em 2004, mas sempre faltou a verdadeira interação com o arquivo do eleitor."

O modelo de computação sofisticado então é empregado para filtrar os dados e selecionar potenciais eleitores, orientando os esforços dos voluntários da campanha. O objetivo é identificar prováveis eleitores e atraí-los em torno de questões específicas da campanha. "Nossa forma mais eficaz ainda é bater de porta em porta. O ideal é usar a tecnologia para estreitar o número de portas a bater", diz um alto estrategista democrata.

Por grande parte desta década, os democratas trabalharam para acompanhar a capacidade dos republicanos neste ramo, no qual foram beneficiados pelo entusiasmo de um grupo sólido de ativistas sociais conservadores. Neste ano, uma rede de voluntários ativa no site de campanha de Obama deve formar o centro do empurrão democrata. "Passamos os últimos 19 meses construindo os arquivos de milhões de pessoas", diz Gensemer. "É uma mangueira de energia sendo liberada."

Parte dessa energia vem das atividades dos próprios membros do movimento de base. Aqueles que organizam as campanhas de porta em porta ou eventos como as festas para assistir o discurso da convenção podem enviar informações sobre os eleitores que encontram e as preocupações que expressam diretamente ao comitê central, que então usam os dados para fazer decisões sobre a alocação dos recursos.

Voluntários e partidários também podem interagir em redes sociais online montadas por cada candidato. Diferentemente do MySpace e do Facebook, que servem primariamente como forma de os usuários compartilharem fotografias e outras informações com amigos, a rede social da campanha de Obama, chamada de Mybarackobama, age como uma ferramenta de organização dos voluntários. Ela associa potenciais eleitores com voluntários e os voluntários entre si, permitindo que organizem, publiquem e coletem dados sobre os eventos.

De fato, foi um passo sem precedentes dar aos partidários inscritos no Mybarackobama acesso controlado ao próprio arquivo central do Partido Democrata. Genesemer diz que isso direcionará os partidários para endereços específicos de prováveis eleitores indecisos, durante o último empurrão por telefone e de porta em porta: "Não é apenas uma questão de levantamento de fundos. É visitar o eleitor e ver como está reagindo. A rede realmente está movendo campanha em muitos Estados."

Durante a campanha, o comitê de Obama procurou aproveitar as lições aprendidas durante a tentativa de nomeação do governador de Vermont Howard Dean para a eleição de 2004. A campanha de Dean foi a primeira fazer amplo uso da Internet como instrumento para organizar e motivar o movimento de base e provou-se eficaz para o levantamento de fundos. Entretanto, os democratas não conseguiram suficientes votos para vencer, tanto na disputa de Dean pelas primárias quanto nas eleições gerais que se seguiram, entre John Kerry e George W. Bush.

"Era para ser uma campanha de computadores e sapatos. Eles não foram eficazes na parte dos sapatos", disse David Weinberger, assessor de Dean para assuntos de Internet, que agora é professor do Centro Berkman de Harvard.

A campanha de Obama demonstrou que domina o levantamento de fundos on-line. Graças ao seu uso eficaz da rede social para unir eleitores e ao marketing eletrônico que explorou muitas técnicas de marketing empresarial, Obama atraiu mais de 2 milhões de doadores individuais desde o início das primárias. Agora, ele tem de usar esse empreendimento on-line para vencer a eleição. Nos últimos dias da campanha de 2004, os republicanos foram mais entusiasmados e mais capazes de identificar as questões importantes e as pessoas com quem precisavam conversar na fase de campanha por telefone e de porta em porta, diz McDonald.

"Os democratas ficaram surpresos com a organização dos republicanos no último minuto," disse ele. "Os republicanos deixaram os cristãos evangélicos frenéticos sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Eles levaram uma porção de voluntários para Ohio nos últimos dias da campanha e foram de porta em porta. Foi um grande sucesso. Os democratas atingiram todas as suas metas de presença nas urnas - mas nunca tinham imaginado aquilo que os republicanos fizeram."

A inscrição dos eleitores também pode ser uma grande parte dos esforços de levá-los às urnas. Os sites da campanha têm sessões com informações para novos eleitores. Neste ano, os primeiros números sugerem que os democratas têm uma grande liderança nas novas inscrições eleitores nos Estados disputados nos quais os esforços de corpo-a-corpo o podem ser críticos.

Independentemente de quem prevalecer em novembro, as novas tecnologias aplicadas neste ano provavelmente terão um longo impacto sobre como os eleitores interagem em campanhas políticas. Para pessoas como Weinberger, a Internet abre novas portas para o envolvimento político. "Sou mais de esquerda, mas não diria que sou uma pessoa politizada", diz ela. Ainda assim, poucos dias depois de participar da festa para assistir a convenção de Obama, Weinberger fez contato com o escritório local da campanha para oferecer seu trabalho voluntário.

A partir deste mês, ela fará a digitação de dados para os democratas em seus últimos esforços para conquistar votos.

Sites que mostram coisas em comum

O sucesso de Barack Obama durante as primárias em reunir apoio pelo uso da rede social on-line já fez com que esta seja a primeira "eleição Facebook".

Ainda assim, estrategistas de campanha dos dois lados admitem que a eficácia da rede social como instrumento para vencer as eleições ainda não foi provada. Ela contrasta com uma das mais fortes motivações das manobras eleitorais tradicionais: o desejo de fazer uma campanha disciplinada onde os administradores no centro controlam a mensagem e a organização.

Há pouca escolha. Como corporações modernas, as campanhas políticas têm que aprender a nova arte de co-optar seus "clientes", usando os instrumentos mais participativos da Internet de hoje, diz Blair Levin, ex-diretora da Comissão Federal de Comunicação e eleitora de Obama.

A primeira demonstração do poder da rede on-line veio com os primeiros sucessos de Howard Dean nas primárias do Partido Democrata em 2004. Em vez de apenas transmitir sua mensagem, a organização da campanha deixou que os partidários se comunicassem uns com os outros diretamente, disse David Weinberger, assessor de Dean. "Você podia encontrar pessoas com interesse em comum, formar um subgrupo e agir", disse ele.

O comitê de Obama aprendeu essa lição rapidamente, contratando Chris Hughes, um dos criadores do Facebook, para criar instrumentos de rede para o site da sua campanha. Tal facilidade tornou-se obrigatória para os candidatos dos dois partidos nas primárias deste ano, apesar de nenhum tirar grande vantagem disso.

De acordo com Mindy Finn, que administrou a estratégia de novas mídias para Mitt Romney, ex-competidor republicano, isso aconteceu porque o site de Obama foi o melhor ao empregar instrumentos fáceis de usar, como um simples botão para associar duas pessoas como amigas, como faz o Facebook e outros. Mas instrumentos apenas não são suficientes, diz ela: o que mais importa é "a mensagem e quem é o seu público".

Bem utilizada, a rede social cria elos fortes entre as pessoas com interesses similares que de outra forma não teriam se encontrado, diz Weinberger. "A forma como as pessoas reforçam seus laços usando as redes sociais faz com que um partido político torne-se uma força social", diz ele.

Ainda assim, a dinâmica espontânea das redes, apesar de apontar para um tipo de ativismo que as campanhas políticas buscam, ainda não é plenamente compreendida no contexto político. "É assustador para uma campanha. Não dá para dizer que as pessoas daquele grupo vão sair e votar", diz Finn.

Weinberger acrescenta que aprender a fomentar essas redes envolve "um choque de estilo" com a forma tradicional de campanha, mais centralizada. "Ninguém ainda sabe o que funciona."

Quando Barack Obama comparou a campanha de seu rival com colocar "batom em um porco", ele acendeu a blogosfera como uma bomba incendiária, nesta semana.

A manchete do Drudge Report fez um trocadilho chocado e o Huffington Post apresentou uma charge sugerindo que McCain estava usando o comentário para criar "uma tola distração".

Enquanto a campanha presidencial entrava em marcha avançada, os blogs políticos apresentaram a briga partidária de sempre. Mesmo assim, essa eleição já provou como esse meio está amadurecendo rapidamente. As pobres matérias das eleições anteriores - uma mistura de conteúdo de jornal reutilizado, comentadores solitários dando suas opiniões pessoais e sites que simplesmente coletavam histórias de diferentes origens- foram suplementadas por uma empreitada mais ambiciosa, diz Marc Cooper, jornalista e palestrante da Universidade da Califórnia do Sul.

Alguns sites entraram para o palco central, inclusive contratando repórteres para suplementar seus comentários. Entre eles estão o Huffington Post, que não existia na época da campanha de 2004, e o Talkings Pints Memo, que ganhou fama com sua reportagem agressiva sobre a demissão de nove advogados federais no ano passado e agora tem sete repórteres em seu editorial.

Outros tomaram um caminho mais especializado. Sites como o Pollster.com e FiveThirtyEight.com (ou, 538, tamanho do colégio eleitoral que escolhe o presidente) brotaram desde a eleição de 2004 para tirar interpretação mais profunda das montanhas de dados de pesquisas produzidas em um ano de eleição. "Estamos levando para o próximo nível, estamos tentando tornar (o processo) mais científico e acrescentar mais contexto", diz Nate Silver, do FiveThirtyEight, que vem aplicando os talentos desenvolvidos em seu emprego regular analisando estatísticas de beisebol.

A mídia tradicional aderiu ao movimento, contratando blogueiros ou convidando seus jornalistas a contribuírem "ao vivo" e comentarem em seus sites on-line. Como resultado, as diferenças entre um blog e uma coluna ficaram menos claras e as barreiras entre a mídia antiga e a nova erodiram-se, diz Cooper, que também organizou um projeto de jornalismo dos cidadãos para o Huffington Post.

A nova proeminência dos blogueiros foi refletida na decisão do Google de fornecer uma "grande tenda" nas convenções partidárias no mês passado para abrigar a nova multidão da mídia. "Eles não se vestem da mesma forma, não têm credenciais, não vêm como uma organização. Ainda assim, virtualmente todas as histórias mais importantes saíram primeiro... na blogosfera", disse Eric Shmidt, diretor executivo do Google, em uma entrevista de vídeo com o FT na convenção republicana. Deborah Weinberg

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