África do Sul volta a combater a Aids

Tom Burgis
Em Johannesburgo (África do Sul)

A África do Sul voltará a fazer parte do grupo de países que luta atualmente contra o HIV, no momento em que a epidemia de Aids, que praticamente não foi enfrentada pelo governo anterior, provoca aquilo que a maior sindicalista do país descreve como um holocausto.

Barbara Hogan, a nova ministra da Saúde, aproveitará uma visita a uma das localidades mais atingidas em Johannesburgo para anunciar que o Reino Unido, um grande doador na área de saúde, deverá voltar a apoiar o programa anti-HIV do governo sul-africano com uma quantia inicial de £ 15 milhões (€ 18 milhões, US$ 23 milhões).

O simbolismo da medida é importante quando a cada dia a Aids acrescenta mais 600 mortos ao conjunto de 2,5 milhões de pessoas que já morreram no país vitimadas pela doença. Pesquisadores da Universidade Harvard estimam que as políticas de Thabo Mbeki, o presidente anterior, tenham sido responsáveis por 365 mil mortes adicionais, já que a população não recebia drogas antiretrovirais e outros tratamentos. Passaram-se nove anos desde que Mbeki começou a adotar a opinião de cientistas dissidentes que negavam que o HIV provocava a Aids, enquanto o seu ministro da Saúde, Manto Tshabalala-Msimang, defendia o uso de ervas medicinais e curandeiros tradicionais, ao invés da medicina convencional, para combater a doença.

"Há muito tempo a África do Sul tem lutado contra a Aids com as mãos amarradas às costas", disse Ivan Lewis, o ministro do Desenvolvimento do Reino Unido, durante uma visita a Johannesburgo para lançar o programa. "Agora esse nó foi desatado".

Atualmente calcula-se que até seis milhões de pessoas - um em cada oito sul-africanos - sejam HIV positivos. Nenhum outro país apresenta um total de infectados mais elevado.

Quando Tshabalala-Msimang deixou o cargo em setembro, juntamente com o resto do governo, os ativistas da luta contra a Aids abriram garrafas de champanhe. Agora o que eles mais desejam saber é se Hogan, uma das poucas pessoas do governista Congresso Nacional Africano que resistiu à atitude irracional do partido de negar a existência do HIV e da Aids, permanecerá quando o governo interino deixar o poder no ano que vem.

Hogan passou oito anos na prisão por resistir ao apartheid; agora ela poderá enfrentar uma desafio ainda maior. Conforme a vice dela, Molefi Sefularo, disse ao "Financial Times", o HIV prospera em uma economia marcada por uma das maiores desigualdades do mundo entre ricos e pobres.

Isso se manifesta em cenas como aquela presenciada nos fundos de um bar de Soweto, onde homens corpulentos de meia idade levam meninas novas para motéis caindo aos pedaços.

"É um tipo de sexo comercial, a síndrome do 'sugar daddy' (relacionamento de mulheres jovens com homens bem mais velhos), disse Zwelinzima Vavi, diretora da Cosatu, a federação sindical, antes de entrar em uma tenda para fazer um exame de HIV com o objetivo de marcar o Dia Mundial da Aids, nesta segunda-feira. "O índice de infecções não está diminuindo... Estamos nos mergulhando de maneira cada vez mais profunda em um holocausto".

Mas uma cultura de obstrução continua existindo na África do Sul. "O Ministério da Saúde recebeu todo o dinheiro do qual precisava para combater o HIV, mas eles jamais o gastaram", acusa Alan Whiteside, especialista em economia da saúde da Universidade de KwaZulu-Natal. UOL

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