Pequim toma medidas para calar dissidentes que desejam reformas

Jamil Anderlini
Em Pequim (China)

O governo chinês está tomando medidas no sentido de esmagar um grupo de dissidentes e intelectuais proeminentes que divulgou um apelo por democracia, direitos humanos e estado de direito.

Todos os integrantes do grupo de cerca de 300 escritores, agricultores, estudantes, professores, jornalistas, economistas e ativistas políticos de todo o país assinaram um documento, conhecido com Carta 08, que fornece uma fórmula detalhada e ampla para uma reforma pacífica política, legal e econômica na China.

Desde então, quase 7.000 intelectuais chineses e estrangeiros dentro e fora do país assinaram a Carta 08, que adverte para a "possibilidade de um conflito violento de proporções desastrosas" caso Pequim não se mobilize rapidamente para reformar o Estado autoritário de partido único.

Intelectuais e dissidentes chineses afirmam que o documento é o mais significante do tipo em um período de pelo menos uma década, e possivelmente desde os protestos da Praça da Paz Celestial, em 1989. O nome do documento é uma referência à Carta 77, o apelo por direitos humanos divulgado por dissidentes da Tchecoslováquia em 1977.

A iniciativa tem preocupado mais e mais os líderes chineses. Desde que o documento começou a circular, um dos organizadores foi detido sem acusações, e desde sexta-feira (02), os seus parentes e amigos não sabem onde ele se encontra.

Pelo menos 70 dos 303 signatários originais da carta receberam intimações para prestar esclarecimentos ou foram interrogados pela polícia, e o poderoso Departamento de Propaganda Central da China advertiu todos os veículos domésticos de mídia para que não entrevistem pessoas que assinaram a carta nem publiquem artigos redigidos por elas.

Os interrogatórios aumentaram nesta semana, e todos os que receberam intimação para depor foram ordenados a retirar o apoio à carta. O governo parece estar preocupado com a linguagem contundente da carta e a proeminência de vários dos seus signatários. Alguns deles são autoridades governamentais de escalão intermediário e acadêmicos do Partido Comunista.

A carta foi publicada na Internet em 10 de dezembro, para marcar o 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A sua publicação ocorreu na véspera do 20º aniversário do massacre da Praça da Paz Celestial, que é mencionado explicitamente no documento.

Autoridades de alto escalão têm se mostrado cada vez mais preocupadas com a possibilidade de que haja agitação social como resultado de demissões e da desaceleração do crescimento econômico do país. A carta poderia servir como estímulo ao protesto para jovens recém-graduados que encontram-se desempregados, e cujo número pode chegar a 1,5 milhão.

Liu Xiaobo, dissidente e crítico literário proeminente, e aparentemente um dos organizadores da Carta 08, foi preso por agentes de segurança estatal em 8 de dezembro.

Após passar quase um mês sem conhecer o paradeiro dele, e sem ter conhecimento de qualquer acusação formal, a mulher de Liu recebeu permissão para vê-lo na sexta-feira (02), nos arredores de Pequim. Segundo grupos de direitos humanos, ela foi informada de que o marido está preso em uma residência em um local não revelado.

De acordo com ativistas dos direitos humanos, a detenção de Liu parece ser uma violação da própria lei penal chinesa, que estipula que um suspeito que encontra-se sob "vigilância residencial" precisa ser mantido na sua própria casa. UOL

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