Em tour caipira, Bolsonaro mira ruralistas para se firmar em reduto tucano

Gustavo Maia

Do UOL, em Barretos (SP)

Antes mesmo de o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) falar pela primeira vez aos apoiadores em Presidente Prudente (SP), onde desembarcou na última quarta-feira (22), outro discurso deu o tom do que seria o tour de quatro dias do candidato pelo interior paulista.

"Queremos um presidente que lute pelo nosso Brasil, pelo nosso estado. Chega de sem-terra, chega de invasão de propriedade", demandou o agropecuarista Luiz Antonio Nabhan Garcia do carro de som. Presidente da UDR (União Democrática Ruralista), ele foi anunciado com o "mentor" da viagem de Bolsonaro à região e não desgrudaria do deputado federal.

Ao longo dos quase 700 quilômetros que percorreu até este sábado (25), quando chegou em Barretos e participou da Festa do Peão de Boiadeiro, o candidato fez questão de afagar ruralistas, ao defender a propriedade privada e chamar o MST (Movimento Sem Terra) de terrorista, e de criticar "a dupla PT e PSDB", dizendo que iria varrer os partidos do mapa.

Marcelo Ferraz/UOL
Bolsonaro no Parque do Peão, em Barretos, no último dia do tour paulista

Entre as promessas que ofereceu aos paulistas, o presidenciável disse que pretende "conseguir uma retaguarda jurídica" não só para policiais, "mas para nós, na busca pela legítima defesa". A plateia aplaudiu efusivamente. "A propriedade privada é um dos pilares da democracia, quer seja rural, quer seja urbana", declarou neste sábado.

Em todas as aparições públicas, ele defendeu a posse de armas e empolgou o público ao simular disparos com os dedos das mãos. Neste sábado, ao reafirmar que pretende unir os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente, ele disse que "o nome desse possível ministro vai ser indicado pela classe dos agricultores".

O candidato demonstrou saber que se encontrava em um reduto historicamente tucano. Na eleição de 2014, por exemplo, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), seu adversário na disputa presidencial, venceu em 644 das 645 cidades paulistas e foi reeleito no primeiro turno. Os tucanos vencem as eleições para o governo de São Paulo desde 1994.

Apesar de reunir uma maioria de "convertidos" nos atos que realizou em oito cidades da região, Bolsonaro não poupou esforços durante o roteiro para conquistar antigos eleitores do PSDB. "O pessoal votava no PSDB, como eu já votei por, entre aspas, ser oposição ao PT", comentou, acrescentando que a máscara dos tucanos caiu.

O presidenciável ressaltou, por exemplo, declarações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) sobre uma possível aliança com petistas em um eventual segundo turno caso o adversário seja ele.

Presidente do diretório paulista do PSL e candidato a senador, o deputado federal Major Olímpio trabalha há meses com a previsão de que Bolsonaro só ganhará as eleições presidenciais se vencer no estado, que tem pouco mais de 33 milhões de pessoas aptas a votar --mais de 22% de todo o eleitorado no Brasil.

Marcelo Ferraz/UOL
Candidato do PSL segura chave simbólica da cidade de Araçatuba (SP) como se fosse uma arma

De acordo com a última pesquisa Datafolha, divulgada esta semana, o candidato do PSL ficou em segundo lugar entre os eleitores de São Paulo, com 19% das intenções de voto, no cenário com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que apareceu com 26%. Alckmin vem logo em seguida, com 14%.

No cenário sem Lula e com o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), Bolsonaro aparece tecnicamente empatado com o ex-governador paulista. Ele obteve 21% e Alckmin, 18%. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos.

Durante o tour, retornou pela primeira vez à cidade natal, Glicério, que deixou com a família ainda recém-nascido, e foi recebido pelo prefeito Ildo Gaúcho (PSDB) com pompa, no seu gabinete.

Em Barretos, durante cerimônia do aniversário de 163 anos do município neste sábado, ele dividiu palanque com outro mandatário tucano, Guilherme Ávila, que manteve distância protocolar.

Rouquidão após maratona

No quarto e último dia de viagens, o presidenciável acordou rouco, quase afônico. A rotina desde quarta-feira foi digna de uma maratona. Começando com carreatas pela manhã, ele realizou caminhadas espremido em meio a centenas de apoiadores, sempre cercado por seguranças em alerta.

À noite, Bolsonaro participou de jantares com comerciantes, empresários e produtores agrícolas, entre outros "bolsonarianos". Em todos os atos, seus apoiadores assediavam o visitante por fotos e vídeos. Em São José do Rio Preto, ele teve que trocar de camisa porque a que vestia foi rasgada na manga em meio ao empurra-empurra.

JOSE MARIA TOMAZELA/ESTADÃO CONTEÚDO
Com colete à prova de balas abaixo da jaqueta, Bolsonaro é cercado por apoiadores em Presidente Prudente (SP)

No primeiro dia da viagem, Bolsonaro usou um colete à prova de balas, mas não voltou a vestir o item no restante do tour. "Depende do momento", explicou Gustavo Bebianno, presidente em exercício do PSL e um dos mais próximos aliados do presidenciável.

A agenda divulgada previamente por sua campanha foi alterada diversas vezes e não continha quatro cidades que acabaram sendo visitadas. Depois de passar o primeiro dia em Presidente Prudente, passou por Araçatuba, Glicério, José Bonifácio, São José do Rio Preto, Jaci, Catanduva até chegar em Barretos.

A voz falhou durante a carreata agendada na véspera em Catanduva, no início da manhã deste sábado. Na primeira fala ao público que o aguardava na entrada da cidade, discursou por apenas um minuto.

Neste domingo (26), ele partiu para o Rio de Janeiro do aeroporto de Ribeirão Preto. Nesta semana, ele deve viajar ao Rio Grande do Sul, Acre e Rondônia. No próximo sábado (1º), começa a propaganda eleitoral no rádio e na televisão dos candidatos a presidente. Coligado ao nanico PRTB, o candidato do PSL tem direito a apenas oito segundos em cada bloco.

A intenção dos coordenadores de campanha é intensificar atos nas ruas para diferenciar Bolsonaro dos concorrentes, que têm mais estrutura partidária e financeira, mas costumam atrair menos apoiadores. A estratégia inclui a possibilidade de não participar de debates e sabatinas no período eleitoral.

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