Jornalista não pode perguntar a Bolsonaro, fala em censura e deixa programa

Eduardo Lucizano

Colaboração para o UOL, em São Paulo

O jornalista Juremir Machado abandonou um programa de rádio ao vivo na manhã desta terça-feira (23) após considerar que foi censurado por não poder fazer perguntas ao candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL), que deu entrevista ao jornalista e apresentador Rogério Mendelski da rádio Guaíba, do Rio Grande do Sul.

Após Bolsonaro conceder entrevista com perguntas feitas somente pelo apresentador, Mendelski explicou que os demais jornalistas presentes no estúdio não puderam fazer perguntas ao candidato por uma imposição de Bolsonaro. "O silêncio de vocês [jornalistas] foi uma condição do candidato que queria conversar com o apresentador", disse.

Após essa explicação, Machado questionou os motivos de não poder participar da entrevista. "Nós podemos dizer que o candidato nos censurou?", perguntou Machado.

Mendelski negou censura e respondeu: "Não, eu não diria isso'. "Por que nós não podíamos fazer perguntas?", perguntou de novo Machado.

O apresentador insistiu e disse que "ele [Bolsonaro] não sabe que vocês [outros jornalistas] estão aqui [no estúdio]". "Ele disse 'dou entrevista só para você'. Não tem censura", afirmou Mendelski.

Leia também

"Eu achei humilhante e por isso estou saindo do programa, foi um prazer trabalhar aqui dez anos", disse Machado, antes de se levantar e abandonar o estúdio.

O apresentador então afirmou: "Não podemos dizer nada. Foi uma condição do candidato. Agora, o Juremir é adulto o suficiente para participar ou não participar do programa, se é uma decisão que ele toma, lamentamos a saída dele."

A Rádio Guaíba pertence ao Grupo da Record, cujo dono, o bispo Edir Macedo, também líder da Igreja Universal do Reino de Deus, anunciou apoio a Bolsonaro.

O gerente-geral da rádio, Nando Gross, afirmou que Machado pediu para não participar mais do programa Bom Dia, no qual Bolsonaro deu a entrevista. Segundo Gross, Bolsonaro condicionou a participação com perguntas feitas apenas pelo âncora do programa e os comentaristas foram avisados.

"Ele [Machado] disse que não iria mais participar mais deste programa. Estou esperando [Machado] chegar para tentar tirar essa ideia, gostaria que ele continuasse", disse Gross.

Ao UOL, Machado afirmou que mantém a decisão de deixar o programa Bom Dia, mas que seguirá na rádio. Ele disse acreditar que Bolsonaro não quis perguntas feitas por ele por conta de entrevistas passadas do candidato ao jornalista.

"Tenho a impressão de que foi uma das piores entrevistas para ele. Acho que ele se lembra disso. O Bolsonaro não quis falar comigo", disse Machado.

O UOL ainda não conseguiu contato a campanha de Bolsonaro para que comentem o caso.

A candidata a vice-presidente na chapa de Fernando Haddad (PT), Manuela D'Ávila (PCdoB), que é gaúcha, comentou o caso no Twitter e afirmou que a "censura começou".

"A censura começou e os gestos de grandeza e coragem diante do arbítrio também! Minha solidariedade a meu professor Juremir Machado. Resistiremos e venceremos!", escreveu.

Bolsonaro diz ser garantia da liberdade e da democracia

Na entrevista, de cerca de 20 minutos feita apenas pelo apresentador, Bolsonaro disse que sua candidatura representa a garantia da liberdade e da democracia contra propostas do adversário Fernando Haddad (PT) de impor controles sobre a mídia e o Judiciário.

Bolsonaro falou também do episódio envolvendo seu filho, o deputado federal eleito Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que disse que para fechar o STF bastava um soldado e um cabo, dizendo que já o repreendeu e voltando às críticas ao PT.

"Foi o PT quem falou em fechar os tribunais, com o controle da Justiça que está previsto em seu plano de governo. Nós não somos uma ameaça à democracia, pelo contrário, nós somos a garantia da liberdade e da democracia", disse Bolsonaro na entrevista à rádio.

Bolsonaro rebateu acusação feita na véspera por Haddad de que o capitão da reserva ameaça a democracia antes mesmo do segundo turno da disputa presidencial e que pode fazer ainda pior se eleito presidente, depois que o candidato do PSL prometeu fazer uma "faxina" e que os "marginais vermelhos" serão "banidos" do país se ele for eleito.

Bolsonaro diz que, se eleito, "marginais vermelhos" serão banidos da pátria

Na entrevista, o candidato do PSL desmentiu que sua campanha esteja fazendo uso de pacotes de mensagens do WhatsApp contra o adversário do PT, disse que é fake news a informação de que pretende cobrar mensalidade de universidades públicas e voltou a justificar a não ida aos debates, em razão de seu estado de saúde.

"Existe risco à minha saúde se eu ficar estressado, além disso não vou debater com o pau mandado do Lula", emendou. Bolsonaro reiterou que se eleito irá extraditar, dentro da lei, Cesare Battisti. "Vou mandar esse terrorista de volta para a Itália", garantiu.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

UOL Newsletter

Para começar e terminar o dia bem informado.

Quero Receber

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos