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Demóstenes diz que se sentiu "traído" por Cachoeira

Demóstenes Torres nega ter defendido interesses de Cachoeira e lobby em favor da Delta - Wilson Dias/ABr
Demóstenes Torres nega ter defendido interesses de Cachoeira e lobby em favor da Delta Imagem: Wilson Dias/ABr

Camila Campanerut

Do UOL, em Brasília

29/05/2012 13h57Atualizada em 29/05/2012 14h55

Traído pelo bicheiro Carlos Cachoeira. É como disse se sentir o senador Demóstenes Torres (sem partido, ex-DEM-GO), em depoimento ao Conselho de Ética do Senado nesta terça-feira (29). O parlamentar respondia a uma pergunta do relator de seu processo no conselho, Humberto Costa (PE).

  • "Acho que sim [me senti traído e decepecionado]. Acho que todo mundo que se relacionou com ele se sentiu assim [e não tinha conhecimento das atividades ilícitas]. Ficamos na pior situação do mundo", afirmou o senador.
  • Após falar por mais de duas horas, Demóstenes passou a responder  a perguntas do relator do processo por quebra de decoro parlamentar.

    O senador afirmou que além da amizade com Cachoeira, mantinha contato com o sargento da Aeronáutica Idalberto Matias de Araújo, mais conhecido como Dadá, mas negou ser amigo do militar. Dadá é apontado pelo Ministério Público Federal como o membro do grupo que levantava informações sigilosas para Cachoeira

    Nas palavras de Demóstenes, ele era um “homem de informações, um sujeito que tem informações e é fonte de jornalistas, do Ministério Público e membros de outros lugares”. 

    O parlamentar negou que Dadá fosse o autor de grampos e disse que o relator não tem provas para falar sobre este assunto. "Isso são suposições que vossa excelência está levantando. Vossa excelência não tem base para fazer essa pergunta."

    Sobre seu envolvimento com Gleib Ferreira da Cruz, funcionário de Cachoeira, o senador disse que o viu apenas duas vezes quando recebeu dele parte de um equipamento de som que tinha comprado. Ele negou que tivesse recebido R$ 20 mil dele - segundo Cachoeira, esta história não existiu. Demóstenes afirmou ao conselho que encontrou Gleib apenas para receber dele seis taças de vinho, na véspera de seu casamento.

    Inquérito e versão de Demóstenes

    Demóstenes é investigado por suspeita de envolvimento em esquemas de corrupção envolvendo o jogo ilegal. Além de comentar diversos pontos do inquérito da Polícia Federal que deu origem às operações Monte Carlo e Vegas, o parlamentar mencionou várias reportagens de jornais, dando sua versão para cada uma delas.

    Dizendo-se vítima de um massacre político, Demóstenes recorreu à religião para descrever sua situação. "Redescobri Deus. Se eu cheguei até aqui, é porque readquiri a fé."

    Embora reconheça a relação de amizade com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o parlamentar negou ter ficado com 30% do dinheiro da jogatina ilegal em Goiás, contestando o inquérito da PF. O parlamentar nega ter recebido R$ 1 milhão ou R$ 3 milhões do contraventor.

    A ligação com Cachoeira se deu antes de ser tornado público o envolvimento do empresário com irregularidades, segundo Demóstenes. 

    "Hoje, se sabe o que foi divulgado [sobre o envolvimento de Cachoeira com esquemas de corrupção]. Naquela época, o senhor Cachoeira andava no meio de todos nós em Goiás, ele tinha relacionamento com cinco governadores e vários parlamentares", disse o parlamentar. 

     "Cagueta, eu não sou. Está na imprensa, qualquer um pode ir lá e pegar [os nomes dos governadores que tem relacionamentos com Cachoeira]", afirmou Demóstenes Torres, em resposta a questionamento do senador Pedro Taques (PDT-MT).

    Ao comentar a ligação telefônica na qual aparece informando Carlinhos Cachoeira sobre uma suposta operação da Polícia e Ministério Público contra o jogo ilegal, o senador disse que tentou "jogar um verde", isto é, enganar o bicheiro. A ideia, afirmou Demóstenes, era saber se Cachoeira continuava envolvido em jogos de azar. 

    O senador goiano disse que nunca procurou nenhum parlamentar nem trabalhou nos bastidores para legalizar os jogos de azar. Ele afirma apenas que deu informações ao bicheiro sobre o assunto e reforça o argumento de que “não é quebra de decoro dar informação do que quer que seja”.  “Tanto é que o projeto não andou”, afirmou.

    Delta

    Entre outras acusações, Demóstenes comentou o relatório do Ministério Público Federal, que diz haver evidências de que o senador atuava como "sócio oculto" da Delta Construções. 

    "No dia 19 de abril de 2012, em entrevista à jornalista Monica Bergamo, o [empresário e dono da Delta] Fernando Cavendish diz que nunca me viu. Como é que eu posso ser sócio de alguém que eu não conheço?" Demóstenes disse ao Conselho que há uma campanha para "destruí-lo", ao colocá-lo como sócio da empresa. "O sócio oculto da Delta, se tem, não sou. Procurem com uma lupa maior."

    Desde 2007, a Delta é líder em repasses de recursos da União, principalmente por tocar obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Escutas e relatório do MPF apontam que Demóstenes usou o cargo para negociar um projeto de R$ 8 milhões em favor da empresa.

     

    Depoimento

    Demóstenes responde a um processo do Conselho de Ética do Senado que o investiga por quebra de decoro parlamentar. Ele é acusado de mentir aos colegas por ter negado na tribuna que tinha relações com Carlinhos Cachoeira. 

    A operação Monte Carlo, da Polícia Federal, contém informações que colocam Demóstenes como braço político dos negócios de Cachoeira, também apontado como sócio oculto da construtora Delta na mesma investigação. O senador, que deixou o Democratas para não ser expulso, começou seu depoimento por volta das 10h. Abriu sua fala dizendo viver o pior momento de sua vida. "Pensei nas piores coisas, pensei em renunciar", afirmou. 

    Trâmite

    Nem Cachoeira nem o advogado Ruy Cruvinel, indicados por Demóstenes para depor em sua defesa, aceitaram falar ao conselho. Eles disseram apenas os nomes dos delegados responsáveis pelas operações Vegas e Monte Carlo: Raul Alexandre e Matheus Rodrigues. O relator do processo de Demóstenes, Humberto Costa (PT-PE), terá inicialmente uma semana para elaborar seu relatório. A expectativa dos parlamentares é de que, se for pedida a cassação de Demóstenes no conselho, o plenário decida antes do recesso de julho.

    Entenda as suspeitas envolvendo Demóstenes Torres

    "Existe esse espaço exatamente para o senador tentar esclarecer o que até agora não teve explicação", disse o relator Costa. "Eu não faço pré-julgamentos e quero confrontar as denúncias com a defesa dele. Vou levar tudo isso em conta."

    Adversários de Demóstenes acusam o parlamentar de protelar suas explicações por semanas exatamente para que o clima esfriasse e ele não respondesse diretamente às acusações de envolvimento irregular com Cachoeira. Demóstenes foi chamado a falar na quinta-feira (31) na CPI do Cachoeira.

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