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Estudantes tentam provar que militante 'suicida' foi assassinado durante a ditadura em Porto Alegre

Silva foi encontrado morto em cela do Presídio Central, em Porto Alegre; tinha 26 anos  - Divulgação/ TJ-RS
Silva foi encontrado morto em cela do Presídio Central, em Porto Alegre; tinha 26 anos Imagem: Divulgação/ TJ-RS

Lucas Azevedo

Do UOL, em Porto Alegre

07/06/2013 06h00

Uma série de 13 fotografias pode revelar mais um crime ocorrido no período da ditadura militar brasileira (1964-1985). Imagens e documentos encontrados em 2011 no arquivo do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul por dois estagiários de história podem recontar o que os registros oficiais apontam como suicídio. Em 22 de abril de 1970, o motorista de táxi e militante de esquerda Ângelo Cardoso da Silva foi encontrado morto, aos 26 anos de idade, em uma cela do Presídio Central, em Porto Alegre.

O achado é dos alunos da Faculdade de História da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) David dos Santos e Graziane Righi. As fotos do corpo de Silva de joelhos, com um lençol envolto no pescoço e amarrado a uma janela basculante a 1,30 metro de altura, chamaram a atenção dos dois durante um trabalho de garimpo de documentos.

Guiados por uma lista de indenizados políticos, os jovens pesquisadores encontraram o processo de Silva. "Estava dentro de uma caixa com vários inquéritos de suicídio. Quando vimos as fotos, ficou evidente para nós que não parecia se tratar de suicídio", disse a estudante.

As fotos viraram objeto de pesquisa e artigo na universidade. Os autos de necropsia feitos na época foram entregues ao legista Helio Antonio de Castro, que, reavaliando os exames cadavéricos feitos em 1970, chegou à conclusão de que há sinais evidentes no corpo de Silva que extinguem a possibilidade de suicídio.

Entre eles estão a ausência de um nó de amarra no lençol que marcasse seu pescoço; a improvável cena de enforcamento, já que o preso estava a uma baixa altura com os joelhos dobrados; e a impossibilidade de uma esganadura realizada pelo próprio preso.

Segundo Castro, as evidências levam a crer que duas pessoas torceram o lençol no pesçoco de Silva, em uma espécie de garrote, o asfixiando. Outras questões presentes no inquérito que também levantam dúvidas são os depoimentos das duas testemunhas do caso, dois agentes penitenciários que encontraram o corpo do taxista. Seus depoimentos foram colhidos três anos depois do episódio.

Em março deste ano, os arquivos de Silva foram apresentados à CNV (Comissão Nacional da Verdade), que deve iniciar uma investigação própria. Para Graziane, a importância de levantar a verdade deste caso tem a ver com a dúvida que paira em outras dezenas de mortes classifidas como suicídio.

"É importante que haja uma retratação pública e que se investiguem os outros 44 casos de suicídio entre os mortos e desaparecidos políticos em todo o país durante a ditadura militar no Brasil", diz a estudante.

Quem foi

Ângelo Cardoso da Silva nasceu em 27 de outubro de 1943, na cidade gaúcha de Santo Antônio da Patrulha. Com 24 anos, iniciou os estudos e ingressou no movimento de luta armada M3G (referência a Marx, Mao, Marighella e Guevara).

Motorista de táxi, auxiliou na fuga em ao menos quatro ações de "expropriação bancária" no Rio Grande do Sul. As suspeitas sobre sua morte já haviam sido levantadas por outros ex-presos políticos, mas só agora as fotos do corpo vieram à tona.  Os pesquisadores encontraram apenas um irmão do taxista vivo, que autorizou a divulgação de seus documentos.     

Há na história dos chamados “anos de chumbo” ao menos outros quatro casos de supostos suicídios e que, com o passar dos anos, foram se revelando uma farsa. Os mais famosos e emblemáticos são o do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, e o do operário Manoel Fiel Filho, em 1976, ambos no Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo. 

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