PSDB deve colaborar com possível governo Temer, diz Bolívar Lamounier

Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

  • Augurium Consultoria/Divulgação

    Bolívar Lamounier: "Não me surpreendo se o STF mandar prender Lula"

    Bolívar Lamounier: "Não me surpreendo se o STF mandar prender Lula"

Filiado ao PSDB, o cientista político Bolívar Lamounier, 72, afirma que os tucanos deverão colaborar com uma eventual gestão de Michel Temer, cujo partido, PMDB, decidiu nesta terça-feira (29) deixar a base do governo Dilma Rousseff.  "Ao contrário do que fez Dilma durante a campanha, o vice Michel Temer e a oposição estão dizendo antecipadamente, com toda lealdade, que um ajuste profundo é inevitável", diz o diretor da Augurium Consultoria, em entrevista por e-mail ao UOL.

Autor de livros como "Tribunos, profetas e sacerdotes – Intelectuais e ideologias no século 20", e "Partidos e Eleições no Brasil", este em parceria com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Lamounier considera "pura enganação" a afirmativa de governistas de que o processo de impeachment da presidente é uma tentativa de golpe.

O PSDB deverá colaborar, não sei em que grau; e nem poderia ser diferente, sabendo-se que é o partido que reúne o maior número de quadros técnicos reconhecidos por sua qualidade." 

Lamounier criticou também o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, pela "condução equivocada" do processo de prévias para a escolha do pré-candidato tucano à Prefeitura de São Paulo, que resultou na vitória do empresário João Doria e na saída do vereador Andrea Matarazzo do partido.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

UOL - Qual a chance de Dilma terminar o mandato em 2018, em sua avaliação?

Bolívar Lamounier - Chance de se manter até o final de 2018? Zero. Nada a fazer. Já passou do ponto. 

Apoiadores do governo interpretam o cenário atual como uma tentativa de golpe, a própria presidente Dilma chega a afirmar isso. O que senhor acha dessa interpretação de que há um golpe em curso?

Enganação, evidentemente. Pura enganação. Basta lembrar que o STF (Supremo Tribunal Federal) não aceitou o rito inicialmente proposto pela Câmara e mandou refazê-lo. Diversos membros e ex-membros do STF vieram a público nos últimos dias para desautorizar a interpretação de que impeachment é golpe.

O governo pode ter seu futuro decidido no campo parlamentar, no caso de um eventual avanço do processo de impeachment. Há hoje 99 integrantes do Congresso Nacional com processos à espera de julgamento no STF e são 500 os inquéritos em andamento envolvendo parlamentares. Envolvidos na Lava Jato aparecem também os presidentes das duas casas parlamentares, Eduardo Cunha e Renan Calheiros. De algum modo, essa situação pode ferir a legitimidade de uma decisão de impeachment no Legislativo?

Ninguém dirá que tal situação é boa, mas é preciso entender que essas coisas não podem ser misturadas. Do ponto de vista jurídico, não tem o menor cabimento misturar o processo contra o Eduardo Cunha na Comissão de Ética da Câmara com o processo de impeachment contra a presidente da República seria um disparate sem tamanho. Cada coisa a seu tempo e em seu inquérito próprio, assim são as instituições.

Tomas Munita/The New York Times
Para intelectual tucano, discurso de Dilma sobre impeachment é "pura enganação"
 
O senhor vê um viés político nas investigações da Operação Lava Jato e no Judiciário brasileiro, em geral?
 

Não, não vejo. E acho útil lembrar que oito dos atuais 11 integrantes do STF foram nomeados por Lula e Dilma. Foram eles que mandaram José Dirceu para a cadeia, e não me surpreenderei se mandarem prender Lula.

 

Um eventual governo Temer seria legítimo, já que o atual vice-presidente tem apenas 1%  das intenções de votos, segundo a última pesquisa Datafolha?

 

Uma coisa nada tem a ver com a outra. Com todo respeito pelos técnicos do Datafolha, carece totalmente de sentido tentar aferir intenções de voto do vice-presidente em exercício e com a campanha eleitoral a quase três anos de distância. O que importa no momento é se Temer tem estatura política para assumir o governo, e isso é claro que ele tem.

 

PMDB rompe com governo Dilma

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O PSDB deve compor um futuro governo Temer? O PMDB está implicado nas investigações da Lava Jato. Não seria uma contradição para o PSDB compor esse governo?

 

É preciso lembrar que o Brasil vive uma situação catastrófica. O PMDB será o protagonista da transição porque é um dos maiores partidos e porque a ele pertence o vice, quero dizer, o futuro presidente. Isto é o que está estipulado por nossa estrutura institucional. O PSDB deverá colaborar, não sei em que grau; e nem poderia ser diferente, sabendo-se que é o partido que reúne o maior número de quadros técnicos reconhecidos por sua qualidade.

 

A oposição está preparada para assumir o governo? Qual o projeto que ela apresenta para resolver a situação política e econômica em que o país se encontra?

 

Ao contrário do que fez Dilma durante a campanha, o vice Michel Temer e a oposição estão dizendo antecipadamente, com toda lealdade, que um ajuste profundo é inevitável. Ajuste, não criando mais impostos, que é a ótica petista, mas reduzindo e racionalizando despesas. Além disso, o afastamento de Dilma produzirá um imediato impacto de credibilidade, como temos visto seguidamente pelo comportamento do dólar e das ações negociadas em bolsa.

PMDB/Divulgação
"Temer tem estatura política para assumir o governo", diz Bolívar Lamounier

 

O PSDB votou em bloco contra bandeiras históricas do partido com o objetivo de dificultar o governo Dilma, a exemplo do fim do fator previdenciário. Qual sua opinião a respeito do assunto?

 

A vida político-parlamentar não segue sempre em linha reta, e não se nutre só de ideologias. Cada conjuntura abriga ingredientes diversos. Um caso clássico: Getúlio Vargas não cria a Petrobras como um monopólio estatal, e sim como uma empresa mista; quem radicalizou o projeto e a transformou em monopólio foi a UDN, com o único objetivo de comprometer Getúlio com uma plataforma ideológica estatizante.

 

Em que medida as citações do nome do senador Aécio Neves por delatores da Operação Lava Jato, a exemplo da delação do senador Delcídio do Amaral, pode impactar negativamente os planos do PSDB se mostrar uma alternativa viável de governo? 

 

A eleição de 2018 está longe, e além disso nem há uma investigação sobre Aécio Neves. No momento, só há palpites, e todos se igualam na falta de fundamentos.

Joel Silva-20.mar.2016/Folhapress
João Doria venceu as prévias e será candidato dos tucanos à prefeitura de SP

 

A saída do vereador Andrea Matarazzo já deixa evidente as rachaduras internas do PSDB visando a eleição em 2018?

 

Parece que sim. Fruto de uma condução equivocada do processo municipal por parte do governador Alckmin.

 

É possível afirmar que os protestos trazem também ingredientes de um conflito de classes sociais?

 

Não me parece. O protesto de 13 de março, do qual participaram 3.5 milhões de pessoas em todo o país, foi de apoio ao juiz Sérgio Moro para levar avante o combate à corrupção. A reação orquestrada pela CUT não reuniu nem 300 mil pessoas, mesmo pagando transporte e distribuindo alimentação. Está claro, portanto, que a rejeição ao governo do PT e à roubalheira que ele patrocinou é praticamente uma unidade nacional.

 

Há conquistas sociais do Brasil sob risco?

 

Sob risco, não, há muita coisa já destruída pela catástrofe econômica engendrada pela incompetência e pelos desatinos ideológicos de Dilma Rousseff e dos petistas. O Brasil regrediu muitos anos. Os índices de desemprego e concentração de renda já estão mostrando isso com toda clareza.

 

Na última manifestação pró-impeachment, em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin e o senador Aécio Neves foram hostilizados por manifestantes. O PSDB também sofre um desgaste por conta da percepção da população que a corrupção está entranhada no meio político de um modo geral?

 

Em parte, sim, mas creio que o fator determinante foi o desejo dos movimentos de manter sua identidade autônoma, de não parecerem teleguiados por partidos.

 

Crise política tem semana decisiva

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