Análise: Decisão de Moro atinge Lula, mas quem sangra é o PT

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

A decisão do juiz federal Sergio Moro de receber a denúncia do Ministério Público Federal do Paraná contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tornando-o réu pela segunda vez, soma-se, segundo os especialistas ouvidos pelo UOL, a outros acontecimentos do último ano que enfraquecem o petista, e refletem-se, em especial, no desempenho do PT.

"O que fica muito evidente, independentemente do fato de hoje, é o declínio acentuado do PT como partido hegemônico", afirma o cientista político do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro) Geraldo Tadeu Monteiro.

O pesquisador lembra que a atual situação já teve reflexo nas candidaturas do PT nas eleições municipais. Enquanto o número de candidatos a Prefeituras caiu pela metade, o de vereadores concorrendo pelo partido diminuiu cerca de 47%, em comparação com 2012, de acordo com dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). "Quando se olham as pesquisas, o PT aparece de forma competitiva em apenas duas capitais: Rio Branco e Porto Alegre. Está claro que o grande perdedor destas eleições vai ser o PT", afirma.

Professor da PUC-Rio, o cientista político Ricardo Ismael diz que a operação Lava Jato, em especial, e o impeachment desgastaram muito Lula e o PT. Ele acredita, no entanto, que ainda é cedo para saber a repercussão exata da decisão de Moro. "É um momento dificil, mas é mais um capítulo. Lula continuará muito ativo na política."

Lula deve seguir como principal aposta do PT para as eleições presidenciais de 2018, considera Ismael.  "O PT não tem um plano B. Dentro do partido, do campo que o PT lidera, que envolve forças políticas, movimentos sociais etc, ele é a grande liderança. Ainda que de forma diferente do que era em 2010", afirma. "Essa não é mais uma candidatura imbatível, como já foi."

Em pesquisa divulgada em julho, Lula aparecia à frente de virtuais candidatos como Marina Silva (Rede) e Aécio Neves (PSDB)

Monteiro, no entanto, questiona a primazia de Lula nas pesquisas para 2018 e considera que o ex-presidente retomou ao patamar eleitoral que possuía no começo de sua carreira. "Ele volta ao patamar inicial da carreira dele", afirma. "A dimensão de Lula volta a ser de um líder de um segmento ideológico. Ele fala que lidera pesquisas para 2018, mas lidera com 21%, que era o que tinha em 1994. Em 1989 ele passou para o segundo turno com 16% dos votos."

Imagem de vítima de perseguição é eficaz entre militantes

Ambos veem o discurso de Lula, que se coloca como vítima de um processo político, como uma estratégia, que acaba tendo mais resultado entre a militância do que no campo jurídico em si. "Do ponto de vista da eficácia, junto aos órgãos que vão processá-lo, é ruim. Ele compra uma briga com a Justiça, os ministros do Supremo, parlamentares... Já para os militantes de esquerda é um discurso que dá coerência. Cria uma saída honrosa", diz Monteiro.

Para o pesquisador, a situação é muito pior hoje do que em 2005, com o Mensalão. "Estamos assistindo a decadência política de Lula. É claro que, em política dois anos, é uma eternidade. Mas é uma avalanche muito grande. Não acredito que nas condições atuais ele reúna forças para dar a volta por cima. Não há como comparar o estrago do Mensalão perto da Lava Jato."

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Decisão de Moro pode interferir em disputa para 2018

A aceitação da denúncia contra Lula pode mudar as perspectivas eleitorais do ex-presidente. Acusado de corrupção e lavagem de dinheiro, Lula estava, até a mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada em julho, na frente em uma hipotética corrida eleitoral simulada pelo instituto.

Com 22% de intenções de voto, o ex-presidente se mantinha na frente de Marina Silva (Rede) e Aécio Neves (PSDB), com respectivos 17% e 14%. Quando o cenário é composto por José Serra como o candidato do PSDB, Lula chega a 23%.

O ex-presidente manteve um estável favoritismo nos últimos nove meses, com um declínio de três pontos percentuais em março –mesma época em que foi levado coercitivamente para depor na Lava Jato. No mês seguinte ao episódio, recuperou as intenções de voto anteriores e até melhorou, chegando a 22% no meio de julho.

Caso condenado por Moro em primeira instância e pelo TRF (Tribunal Regional Federal) em segunda instância, Lula se tornará inelegível por oito anos pela Lei da Ficha Limpa. Não poderá disputar, portanto, qualquer cargo público até 2024, quando terá 78 anos.
 

Sérgio Moro aceita denúncia contra o ex-presidente Lula

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