Amigos e militantes lembram histórias de Marisa: 'Ela vai fazer muita falta'

Aiuri Rebello

Do UOL, em São Paulo

  • Juan Esteves/Folhapress

Foi em clima de recordação das histórias do casal Luiz Inácio e Marisa Letícia Lula da Silva que os antigos companheiros do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, na Grande SP, e militantes do PT passaram a noite de sexta-feira (3), depois que foi confirmada a morte cerebral da ex-primeira-dama, aos 66 anos. Ela estava internada no Hospital Sírio-Libanês desde o dia 24, quando sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral).

O ponto de encontro foi o Bar da Dona Rosa, junto a uma das esquinas do edifício histórico de onde Lula, na condição de presidente da entidade, comandou as greves de metalúrgicos do ABC que acabariam por projetá-lo como personalidade política brasileira. O local era ponto certo para encontrar Lula depois do expediente, entre cachaças e cervejas, conversando e articulando com os colegas. Era o final dos anos 1970. 

Ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva morre aos 66

"Teve aquele dia, quando o Lula já era presidente, que ele veio aqui no sindicato e entrou no meu Fiat 147 branco com a Marisa e saiu dirigindo, lembra?", questiona um senhor idoso. "Virou notícia no mundo todo, queriam saber que carro era aquele, por que eles fizeram isso…", completa. E quando "ela me chamava de Ni, e eu chamava ela de Má…", fala uma senhora na mesa ao lado.

Teve ainda "aquela outra vez que fui buscar ele em casa para vir para o trabalho e a dona Marisa estava louca da vida por que o homem tinha chegado tarde…", confidencia um companheiro. "Ela vai fazer muita falta, inacreditável, que saudade", sentencia alguém.

"Eles tiveram muitos momentos felizes aqui com a gente, dá uma saudade danada", diz dona Rosa, que sorri quando perguntam sua idade, que está na casa dos 70 anos. "A última vez que vi a Marisa foi em dezembro. Ela veio aqui, tinha um compromisso aqui do lado, e ficamos conversando um tempão. Fazia oito anos que ela não aparecia… Será que a alma dela já estava inconscientemente se despedindo?", questiona a dona do bar.

Leonardo Soares/ Xinhua/ Agência Estado

Durante toda noite de ontem, o bar ficou cheio de novos e velhos militantes petistas e trabalhadores ligados ao sindicato. "Sem Marisa, não teria havido Lula", resume Damasceno, que está para completar 68 anos. Fundador do PT e diretor no sindicato, ele desiludiu-se com o partido que ajudou a criar e se afastou da agremiação há cerca de 15 anos, pouco antes de Lula chegar à Presidência da República, em 2003. Nunca desfiliou-se, mas também não vota mais legenda.

Do casal Lula e Marisa, nunca se separou. "A gente vai ficando chateado com algumas coisas, mas nunca com as pessoas que a gente ama de verdade. Eu perdi hoje uma pessoa que era como uma irmã", diz ele entre um brinde em homenagem a ela e outro. "Foram meus padrinhos de casamento", conta. Damasceno ficou viúvo há sete anos, e desde então havia falado pouco com Marisa. "Elas eram muito amigas, e mantinham as famílias em contato".

Ele hoje em dia é figura rara no bar de dona Rosa, mas nesta quinta-feira fez questão de ir ao local: "Tive que vir. Hoje era dia de lembrar essas histórias e beber com os amigos em homenagem a ela". Damasceno diz que ainda tem o Fiat 147 branco que, há quase 40 anos atrás, havia sido de Marisa Letícia e Lula, nessa ordem. "Está novinho, não vendo por dinheiro nenhum nesse mundo".

A trajetória de uma ex-primeira-dama

Velório e homenagens

Ao longo da noite, pessoas, histórias e memórias cruzaram-se naquela esquina de São Bernardo do Campo para lembrar e homenagear a ex-primeira-dama. No saguão do sindicato, poucos metros ladeira abaixo, militantes chegavam de todo o Brasil para acompanhar o velório. "Eu vim de Santos", diz o aposentado Elias do Carmo da Silva, 41. "Fiz questão de prestar condolências para a família e mostrar para o Lula que ele não está sozinho", afirma. "Hoje estou indignado com o meu Brasil. Quando pessoas torcem pelo mal dos outros dessa forma, que nem andou acontecendo nesse caso, é ainda mais importante vir mostrar solidariedade."

No início desta madrugada, os militantes ainda eram esparsos, mas chegavam pouco a pouco de vários lugares. "Eu vim do interior do Paraná, vou dormir aqui para mostrar que sentimos muito a morte da dona Marisa, uma grande mulher brasileira", afirmou uma militante que chegou ao sindicato pela tarde e só iria embora depois do velório.

As ruas em volta do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC começaram a ser fechadas no final da noite pela Polícia Militar e o departamento de trânsito de São Bernardo do Campo. O velório de Marisa Letícia Lula da Silva está previsto para começar às 9h deste sábado (4) e ser encerrado às 15h. O local será aberto ao público após o final de uma cerimônia reservada para a família e amigos. A cremação será realizada no Cemitério Jardim da Colina.

Wilton Júnior/ Estadão Conteúdo

Vítima de um AVC

Marisa Letícia foi internada em estado grave no hospital Sírio-Libanês no dia 24 de janeiro, após sofrer um AVC (Acidente Vascular Cerebral) hemorrágico. Ela chegou a apresentar uma ligeira melhora na terça-feira (31), e a sedação começou a ser reduzida. Como ela não reagiu bem, voltou a ser sedada, mas piorou na quarta-feira.

Na quinta-feira, um doppler transcraniano já havia mostrado que dona Marisa não tinha mais fluxo cerebral. A partir de então, a família Lula da Silva autorizou o início dos procedimentos para a doação de órgãos. A ex-primeira-dama teve a morte confirmada na noite desta sexta-feira (03), após a realização de exames protocolares. 

Marisa acompanhou Lula desde o início de sua vida política, durante as greves de operários no ABC paulista no fim dos anos 1970 – ele tornou-se presidente do sindicato um ano depois do casamento deles, em 1975. Ela foi a responsável por costurar a primeira bandeira do Partido dos Trabalhadores. Além do filho de seu primeiro casamento, Marcos, adotado por Lula, Marisa deixa os filhos Fábio, Sandro, Luís Cláudio, e a enteada, Lurian (filha do ex-presidente com uma ex-namorada).

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