Um jantar, quatro versões: do que trataram Temer, Odebrecht, Padilha e Melo Filho no Jaburu?

Mirthyani Bezerra

Do UOL, em São Paulo

  • Arte UOL

    Da esq. para a dir., o então executivo da Odebrecht Cláudio Melo Filho, Marcelo Odebrcht, Michel Temer e o hoje ministro Eliseu Padilha

    Da esq. para a dir., o então executivo da Odebrecht Cláudio Melo Filho, Marcelo Odebrcht, Michel Temer e o hoje ministro Eliseu Padilha

Um jantar para quatro pessoas está no centro das atenções da Justiça Eleitoral. Em maio de 2014, o então vice-presidente, Michel Temer (PMDB), acompanhado do deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS) -- atual ministro da Casa Civil --, recebeu em sua residência oficial, o Palácio do Jaburu, em Brasília, os então executivos da Odebrecht Marcelo Odebrecht e Cláudio Melo Filho para um jantar.

Nele, teria sido negociado o repasse de R$ 10 milhões por parte da empreiteira para campanhas eleitorais do PMDB daquele ano, segundo os convidados. Apesar de confirmarem a existência do jantar, os quatro envolvidos têm relatos conflitantes sobre detalhes que ocorreram naquela noite. Temer pediu R$ 10 milhões a Marcelo Odebrecht para a campanha do PMDB? Veja a versão de cada personagem que participou do evento.

Claudio Melo Filho: Temer pediu dinheiro diretamente

Rodolfo Stuckert/Agência Câmara
Cláudio Melo Filho disse que Temer pediu dinheiro "direta e pessoalmente para Marcelo"

No seu documento de acordo de delação premiada, o ex-executivo da Odebrecht Cláudio Melo Filho relata que ele e Marcelo Odebrecht foram recebidos por Padilha no Palácio do Jaburu numa noite de maio de 2014 porque Michel Temer ainda não tinha chegado à residência oficial. Enquanto esperavam pelo então vice-presidente, falaram "amenidades em uma sala à direita de quem entra na residência pela entrada principal", segundo o delator.

"Após a chegada de Temer, sentamos na varanda, em cadeiras de couro preto, com estrutura de alumínio. No jantar, acredito que considerando a importância do PMDB e a condição de possuir o vice-presidente da República como presidente do referido partido político, Marcelo Odebrecht definiu que seria feito pagamento no valor de R$ 10 milhões", afirmou.

Nas palavras do delator, os recursos foram solicitados por Temer "direta e pessoalmente para Marcelo"

Segundo Melo, Temer incumbiu Padilha de operacionalizar pagamentos de campanha. O ministro cuidaria da distribuição de R$ 4 milhões dos R$ 10 milhões. "Foi ele o representante escolhido por Michel Temer –fato que demonstrava a confiança entre os dois–, que recebeu e endereçou os pagamentos realizados a pretexto de campanha solicitados por Michel Temer. Este fato deixa claro seu peso político, principalmente quando observado pela ótica do valor do pagamento realizado, na ordem de R$ 4 milhões", afirmou o ex-executivo na delação.

De acordo com ele, parte do repasse foi entregue no escritório de advocacia do ex-assessor de Temer, o advogado José Yunes, em São Paulo. Yunes pediu demissão do cargo no Planalto logo após ter tido seu nome citado no acordo de delação premiada.

Marcelo Odebrecht: Temer não falou em valores

Giuliano Gomes/Folhapress
Marcelo Odebrecht negou ter acertado valores com Temer durante jantar no Jaburu

Segundo fontes ouvidas pela agência Reuters, Marcelo Odebrecht afirmou em depoimento ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), nesta quarta-feira (1º), que não houve um pedido direto de valores para o PMDB pelo então vice-presidente da República, Michel Temer, contrariando versão dada por Cláudio Melo Filho.

De acordo com o empreiteiro, foi somente depois da saída do vice-presidente da sala que ele conversou com Padilha e com Melo sobre o tema. Odebrecht disse ainda que os detalhes para os repasses foram acertados entre Eliseu Padilha e Cláudio Melo Filho, admitindo que parte dos pagamentos pode ter sido feita via caixa dois.

Durante o depoimento, de acordo com fonte ouvida pela Reuters, o ex-presidente da Odebrecht confirmou a informação de Melo Filo de que R$ 6 milhões dos R$ 10 milhões seriam encaminhados para a campanha de Paulo Skaf para o governo de São Paulo em 2014.

Ainda de acordo com ele, parte dos R$ 6 milhões destinados a Skaf não chegou a ser paga. O marqueteiro Duda Mendonça teria procurado a empreiteira após a campanha eleitoral de 2014 para cobrar o pagamento. Oficialmente, a campanha de Skaf em 2014 registrou na Justiça Eleitoral a doação de R$ 200 mil da Braskem, petroquímica do Grupo Odebrecht que também fechou acordos de leniência com Brasil, EUA e Suíça.

De acordo com a assessoria de Paulo Skaf, todas as doações recebidas pela campanha dele ao governo de São Paulo estão "devidamente registradas" na Justiça Eleitoral, que aprovou sua prestação de contas "sem qualquer reparo". "Paulo Skaf nunca pediu e nem autorizou ninguém a pedir qualquer contribuição de campanha que não as regularmente declaradas."

Temer diz que pediu valor legalmente; Melo não é lembrado

21.jun.2013 - Zanone Fraissat/Monica Bergamo/Folhapress
Temer (à dir.) confirma jantar; Yunes, ex-assessor de Temer, pediu demissão depois de ser citado em delação

Em comunicado à imprensa divulgado na sexta-feira (24), o presidente Michel Temer afirmou ter pedido apoio financeiro à Odebrecht para as campanhas do partido na eleição de 2014, mas disse não ter "autorizado, nem solicitado" que as doações fossem feitas de forma irregular.

Em nota nesta quinta-feira (2), Temer confirma a existência do jantar com Odebrecht em 2014 e diz que o depoimento do empreiteiro confirmou o que vem sido dito "há meses". "Houve o jantar (entre Temer e o empresário), mas não falaram de valores durante o encontro e a empresa deu auxílio financeiro a campanhas do PMDB", diz nota divulgada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República.

O comunicado afirma que as doações da Odebrecht para campanhas de candidatos do partido foram todas declaradas ao TSE e que o montante total foi R$ 11,3 milhões.

Na época em que a delação de Melo Filho foi publicada pela imprensa, a assessoria de imprensa do Palácio do Planalto disse que a contribuição de campanha acertada com o empresário Marcelo Odebrecht, no valor de R$ 10 milhões, havia sido feita por meio de transferência bancária e registrada na Justiça Eleitoral, e que não houve recebimento destes recursos em dinheiro. O Palácio disse ainda que o presidente não se lembrava da presença de Cláudio Melo Filho na reunião no Palácio do Jaburu.

Padilha diz que nunca tratou de arrecadação para campanhas

Danilo Verpa/Folhapress
Eliseu Padilha disse que nunca tratou de arrecadação para deputados

O ministro da Casa Civil Eliseu Padilha foi classificado como "arrecadador" na delação feita por Claudio Melo Filho que detalha o encontro daquela noite, segundo relatos na imprensa. Na época, Padilha não confirmou nem desmentiu o encontro entre ele, Temer e os executivos da Odebrecht, mas afirmou que nunca tratou de arrecadação para deputados "ou para quem quer que seja". "A acusação é uma mentira! Tenho certeza que no final isto restará comprovado", disse no início de dezembro.

A delação de Melo Filho diz que um dos pagamentos foi feito na sede do escritório de advocacia de Yunes, no Jardim Europa, em São Paulo. Yunes contou aos procuradores que em 2014, em meio à campanha eleitoral, recebeu um telefonema de Padilha pedindo que ele recebesse em seu escritório alguns "documentos", que seriam retirados de lá posteriormente por um emissário. 

Padilha ainda não se pronunciou sobre as declarações de Yunes. O ministro da Casa Civil está licenciado por problemas de saúde. 

O jantar na imprensa

A existência do jantar veio à tona em agosto do ano passado, após o vazamento de parte das declarações dadas nas negociações de delação premiada de Marcelo Odebrecht e de executivos da empresa. Documentos obtidos pela revista "Veja" revelaram detalhes sobre o jantar realizado no Jaburu.

Em dezembro, a refeição voltou a ganhar os holofotes. O documento do acordo de delação premiada de Cláudio Melo Filho, que foi vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht, divulgado pelo site de notícias "BuzzFeed", além de citar 43 vezes o nome do agora presidente Michel Temer, mostrou a versão do executivo sobre o que aconteceu no Palácio do Jaburu naquela noite de maio.

Marcelo Odebrecht confirmou à Lava Jato também em dezembro do ano passado o episódio do jantar no Palácio do Jaburu, segundo reportagem da "Folha de S. Paulo", além da versão Cláudio Melo Filho sobre pagamento dos R$ 10 milhões, sem, contudo, entrar em detalhes sobre a operacionalização do dinheiro.

Todo o conteúdo das delações já noticiado pela imprensa foi vazado, pois os processos ainda estão sob sigilo de Justiça. A versão oficial só será divulgada pelo TSE após o STF (Supremo Tribunal Federal) liberar o conteúdo das 77 delações de ex-executivos da Odebrecht, homologadas pela Justiça em janeiro. 

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