Dirceu usou recurso desviado da Petrobras para "limpar imagem", diz Lava Jato

Vinicius Boreki

Colaboração para o UOL, em Curitiba

  • Ruy Baron/Valor DF/Folhapress

    MPF acusa Dirceu de ter recebido R$ 2,4 milhões desviados da Petrobras

    MPF acusa Dirceu de ter recebido R$ 2,4 milhões desviados da Petrobras

A força-tarefa da Operação Lava Jato ofereceu, nesta terça-feira (2), a terceira denúncia contra o ex-ministro José Dirceu (PT) por 33 atos diferentes de lavagem de dinheiro. Além do recebimento de R$ 2,4 milhões, o ex-ministro teria se beneficiado das propinas da Petrobras de outras formas, como em reformas de apartamentos, uso de aviões fretados e na quitação de dívidas de sua empresa (a JD Assessoria).

De acordo com a denúncia do MPF (Ministério Público Federal), Dirceu colheu esses benefícios por 6 anos, entre 2009 e 2014, em um período que contempla o início e o término do julgamento do mensalão, sua prisão e até os desdobramentos da Lava Jato.

"José Dirceu usou métodos sofisticados de lavagem de capitais, como celebração de dez contratos falsos, interposição de oito pessoas jurídicas diferentes, reformas de três imóveis, fretes de aeronaves particulares, interposição de dois diferentes operadores financeiros", declarou o procurador de justiça Roberson Pozzobon.

Leia a íntegra da denúncia do MPFhttp://uol.com/bpkblV 

"Isso retrata o modo profissional como José Dirceu praticava crimes ao longo de uma década. Entre 2009 e final de 2014, não houve um momento sequer em que Dirceu não estivesse sendo beneficiado por atos de lavagem de dinheiro, comprovando de forma cabal como praticava delitos, mesmo sendo julgado pela Suprema Corte do país", disse o procurador.

A denúncia desta terça-feira (2) também envolve outras quatro pessoas: Luiz Eduardo de Oliveira e Silva, irmão do ex-ministro; João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT; Gerson de Melo Almada, ex-executivo da Engevix; e Walmir Pinheiro Santana, ex-executivo da UTC.

Dinheiro para melhorar a imagem

A empresa de José Dirceu, a JD Assessoria, firmou contrato com a empresa de comunicação Entrelinhas em 2009, no valor de R$ 240 mil pelo período de um ano. A partir de 2011, de acordo com a denúncia do MPF, a Engevix, por meio de Almada a pedido do irmão de Dirceu, quitou os pagamentos referentes ao serviço, que, entre outras atribuições, visava produzir relatórios sobre a imagem do ex-ministro, gerenciamento de entrevistas, a organização do livro " Tempos de Planície" e a produção de artigos.

"Os recursos usados para pagar esse serviço foram decorrentes dos crimes praticados na Petrobras na tentativa de tentar limpar a imagem de José Dirceu por meio de artigos", afirmou o procurador Júlio Motta Noronha. O total desses pagamentos ao ex-ministro soma R$ 900 mil.

Em relação à UTC, a empreiteira firmou aditivos contratuais fantasmas no valor de R$ 1,5 milhão entre fevereiro de 2013 e outubro de 2014 para a JD Assessoria, com o conhecimento de João Vaccari, que beneficiavam tanto o ex-ministro quanto seus familiares.

Mesmo no período em que Dirceu esteve preso, após o julgamento do Mensalão, houve um segundo aditivo contratual, "o qual estabelecia a prestação de serviços de consultoria impossíveis, pois o consultor encontrava-se preso", diz a denúncia.

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Defesa critica nova denúncia

A defesa de Dirceu reagiu com desconfiança a respeito da nova nesta terça-feira, mesmo dia em que o STF (Supremo Tribunal Federal) deve julgar um pedido de habeas corpus do ex-ministro, que está preso, em Curitiba, desde agosto de 2015.

"É bem estranho que, no dia do julgamento do habeas corpus, depois de dois anos que Zé Dirceu está preso, o MPF resolva apresentar nova denúncia. Isso me faz pensar que estão se utilizando do direito de denunciar para fazer valer sua vontade", disse o advogado Roberto Podval em nota ao UOL.

Em nota, a UTC diz que "não comenta investigações em andamento".

A Engevix diz que "o ex-sócio apontado na denúncia já se afastou da empresa", que segue colaborando com a Justiça.

O advogado de Vaccari, Luiz Flávio D'Urso, disse em nota que seu cliente foi "indevidamente" incluído na denúncia, já que não teria responsabilidade ou conhecimento de eventuais contatos entre Dirceu e a Engevix.

UOL não conseguiu contato com a defesa de Luiz Eduardo.

Já a defesa da Entrelinhas confirmou que a empresa "prestou assessoria de imprensa ao ex-ministro José Dirceu", mas negou irregularidades.

"Todas as informações e comprovações desse atendimento foram entregues, por solicitação da autoridades, à Receita Federal e ao MPF. Os recebimentos por esses serviços foram realizados em conformidade com as leis brasileiras, incluindo a rigorosa liquidação dos impostos devidos", comenta a defesa.

*Colaborou Nathan Lopes, do UOL, em São Paulo

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