Ré na Lava Jato, senadora Gleisi Hoffmann é eleita presidente do PT

Bernardo Barbosa

Do UOL, em Brasília

  • Evasisto Sá/AFP Photo

    A senadora Gleisi Hoffmann durante Congresso Nacional do PT, em Brasília

    A senadora Gleisi Hoffmann durante Congresso Nacional do PT, em Brasília

A senadora paranaense Gleisi Hoffmann, que responde a processo da Operação Lava Jato, foi eleita neste sábado (3) em Brasília como a nova presidente do PT, com 367 votos. Ela substitui Rui Falcão, que ficou seis anos no cargo, e será a primeira mulher a comandar o partido.

Gleisi assume o comando do PT pelos próximos dois anos após um período em que, em pouco mais de três anos, o partido venceu sua quarta eleição presidencial consecutiva, foi alvo de um impeachment que tirou Dilma Rousseff do poder e viu algumas de suas principais lideranças presas ou investigadas na Lava Jato.

Em discurso após o anúncio de sua vitória, Gleisi relembrou outros presidentes do PT, entre eles José Dirceu. Quando o nome dele foi mencionado, militantes gritaram "Dirceu, guerreiro do povo brasileiro".

"Tenho uma grande responsabilidade por ser a primeira mulher a presidir o PT", afirmou Gleisi.

Em entrevista coletiva após ser eleita, a senadora disse o PT saiu "unificado" do congresso. Segundo a senadora, não há como o fato de ser ré na Lava Jato "atrapalhar mais" o partido. "Como que isso vai atrapalhar mais? O PT foi desconstruído nesse processo. O processo legal não foi respeitado na maioria dos casos. E o partido está aí", disse. "Quem tem ligação com o povo, tem história, não pode ser facilmente desconstruído."

Ao defender sua candidatura, a senadora disse que o partido não vai ficar "enumerando" seus erros para que sejam explorados pela "burguesia". "Nós fazemos o resgate dos nossos erros na prática", afirmou. Ela afirmou que faltou ao PT uma "entrada maior" nos movimentos sociais, principalmente nos da juventude.

Mesmo assim, segundo a senadora, "não teve, em 500 anos de história do nosso país, governos melhores que os do PT".

Em entrevista ao UOL, Rui Falcão --que dará lugar a Gleisi na presidência do partido-- disse que o PT "está vindo de um processo de recuperação".

Desde a queda de Dilma, Gleisi e outros nomes de peso do PT têm sido favoráveis a realização de eleições diretas para presidente. Seja em um pleito antecipado --o que exigiria a aprovação de uma emenda constitucional-- ou em 2018, quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá ser o candidato do partido.

Filiada à legenda desde 1989, Gleisi também foi ministra da Casa Civil entre 2011 e 2014, no governo de Dilma Rousseff. A senadora disputava a presidência do PT com um colega de bancada, Lindbergh Farias (PT-RJ), que teve 226 votos, e com o pernambucano José de Oliveira.

Pedro Ladeira/Folhapress
PT tenta se reerguer após impeachment de Dilma, e com peças-chave sob a mira da Lava Jato

Militância tensa e confusão

Gleisi foi eleita no 6º Congresso Nacional do PT, que começou quinta (1º) em Brasília. Ela integra a CNB (Construindo um Novo Brasil), corrente majoritária do partido.

Na sexta (2), os candidatos à presidência da legenda se reuniram para uma conversa transmitida pelo Facebook, no que foi anunciado pelo site do PT como uma demonstração de "força e unidade".

A união em torno da defesa de Lula e de eleições diretas, assim como no ataque às reformas propostas pelo governo de Michel Temer (PMDB), não foi o suficiente para evitar a tensão entre militantes.

O ex-ministro Alexandre Padilha, da CNB, discursou criticando quem defendia o PT apenas nos momentos bons. Em seguida veio o secretário de Movimentos Populares do PT, Bruno Elias, pró-Lindbergh, que atacou a CNB por defender a votação do presidente antes da discussão de resoluções sobre o partido.

"Isso nem sindicato pelego e partido de direita faz", disse Elias. "Nós estamos destruindo a possibilidade de aprovar as resoluções que nos unificam."

Logo depois, uma confusão entre militantes da CNB e de outras tendências estourou bem em frente ao palco onde as lideranças discursavam. Não houve agressão física porque os mais exaltados foram contidos por outros militantes.

Alvo de processo na Lava Jato

A senadora é ré no STF (Supremo Tribunal Federal) desde setembro do ano passado, quando os ministros da 2ª Turma aceitaram a denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República) acusando Gleisi e seu marido, o ex-ministro do Planejamento Paulo Bernardo, de receberem de forma ilegal R$ 1 milhão para a campanha dela ao Senado em 2010.

Segundo a PGR, o dinheiro teria origem no esquema do chamado Petrolão, investigado pela Operação Lava Jato, e teria sido repassado à campanha com o objetivo de manter no cargo o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, hoje um dos principais delatores do esquema de corrupção na estatal.

Gleisi e Paulo Bernardo negam qualquer participação em irregularidades. Os advogados de defesa do casal afirmam que a denúncia não traz provas e se baseia em "meras conjecturas".

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