Operação Lava Jato

Apoio histórico a Lula e decepção com denúncias dividem redutos petistas em SP

Venceslau Borlina Filho

Do UOL, em São Paulo

  • AFP PHOTO / NELSON ALMEIDA

    O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante discurso na avenida Paulista, em SP

    O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante discurso na avenida Paulista, em SP

Tidos como "redutos petistas" em razão dos resultados eleitorais obtidos desde 1996, com Luiza Erundina candidata à Prefeitura de São Paulo, até 2014, com a reeleição da ex-presidente Dilma Rousseff, os extremos sul e leste da capital paulista se mostram divididos sobre votar no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva numa possível candidatura em 2018.

Após 12 dias da condenação na Lava Jato por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, eleitores do Grajaú, extremo sul, ouvidos pelo UOL se dividem entre manter o apoio a Lula ou ficar em dúvida se ele é mesmo a melhor opção. Já entre os eleitores ouvidos em São Mateus, no extremo leste, embora o petista ainda leve vantagem, encontra também uma rejeição mais incisiva ligada às recentes denúncias na Justiça.

Por dois dias na última semana, a reportagem do UOL esteve nas duas regiões e ouviu, aleatoriamente, dez moradores sobre o voto no petista numa possível disputa à Presidência da República no próximo ano. Lula só estará impedido de concorrer novamente às eleições se houver decisão colegiada dos desembargadores do TRF (Tribunal Regional Federal) da 4ª Região, no RS, antes do registro.

O petista foi condenado pelo juiz Sergio Moro a nove anos e meio de prisão em regime fechado e o pagamento de multa de R$ 670 mil, acusado de receber R$ 3,7 milhões de propina da empreiteira OAS por contratos com a Petrobras. O montante se refere a um apartamento tríplex em Guarujá, no litoral, reformas no imóvel e custos de acervo cobertos pela empreiteira.

A defesa do ex-presidente nega a acusação e diz que o imóvel nunca pertenceu ao ex-presidente. Os advogados de Lula afirmam que o julgamento é político, com o objetivo de tirá-lo da disputa no próximo ano. A defesa já contestou a sentença do juiz Sergio Moro e prepara recursos para a segunda instância. O Ministério Público Federal também vai pedir pena maior ao petista.

Grajaú

A operadora de caixa Pedrina Pereira de Santana, 30, está indecisa sobre votar em Lula. "Depende de quem for disputar as eleições com ele no ano que vem, né? Se for para colocar um pior do que ele, eu voto nele", disse.

"Eu voto no Lula porque foi o único presidente que trabalhou pela classe menos favorecida. Querendo ou não, ele fala a língua do povo", disse a costureira Josefa dos Santos Reis, 63.

Venceslau Borlina Filho/UOL
Josefa dos Santos Reis, 63, é costureira no Grajaú e declarou voto em Lula

A comerciante Célia Santos, 43, não votará em Lula em 2018 e afirmou esperar que ele não vença as eleições. "Foi uma decepção muito grande por causa das denúncias de corrupção. Não dá para votar no PT", disse ela.

A indecisão também atinge Abraão Araújo da Silva, 25, que é ajudante de cozinha. Apesar de avaliar os governos do PT como bons, ele afirmou que não dá mais confiar. "O que deixa a gente nessa indecisão é saber que ele fez bastante para o povo, mas que agora responde a todas essas denúncias."

Já a aposentada Juraci Ribeiro, 63, mantém sem voto. "Toda a minha vida fui PT. É o partido que mais fez pelos pobres. Aqui em São Paulo teve os CEUs, o bilhete único integrado, e no Brasil foi o Bolsa Família e o ProUni", disse.

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Juraci Ribeiro, 63, aposentada, afirmou votar em Lula numa possível candidatura em 2018

São Mateus

O vigilante Liércio Pereira da Silva, 59, declarou o voto em Lula porque, segundo ele, foi o melhor presidente que o Brasil já teve. "É só fazer uma comparação. Nos outros governos, a gente não conseguia comprar nada. Os problemas ainda existem, mas o PT mostrou que eles podem ser solucionados", disse.

"Já fui eleitor do Lula em 2002 e 2006. Agora não dá mais para confiar. O brasileiro perdeu a confiança no PT", disse Valter Lisboa, 54, técnico em elevador. Para ele, será necessário uma renovação muito grande para o PT voltar ao poder. "Do contrário, a maior parte das pessoas vai anular o voto", disse.

O músico Ademir da Silva Pedro, 36, afirmou que não vota em Lula "por tudo o que está saindo na mídia". "Eu votei nele e na Dilma nas últimas eleições. Agora não dá mais. É muita roubalheira, muita falcatrua que fizeram na Petrobras."

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O músico Ademir da Silva Pedro, 36, morador de São Mateus, que não vota em Lula

Já o motorista profissional Sebastião Pereira Cristóvão disse que vota no ex-presidente "porque ele ajudou muito as pessoas humildes, de baixa renda". "Muitos falam da condenação, mas não se sabe se o Sergio Moro agiu certo ou errado, se o Lula é culpado ou inocente", disse.

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Maria das Dores Oliveira dos Prazeres [de vermelho], 51, declarou voto em Lula

A dona de casa Maria das Dores Oliveira dos Prazeres, 51, afirmou que vota em Lula por acreditar que conseguirá novamente um emprego. "Os pobres viveram melhor durante os governos do PT. Agora eu e meu marido estamos desempregados e lutando para pagar as contas", afirmou.

PT nos extremos

A relação do PT com os extremos paulistanos está atrelada à história e fundação do partido. Parte do final dos anos 70 e início dos anos 80 com os movimentos sociais, comunidades da Igreja Católica e grupos de trabalhadores presentes nessas regiões. Além disso, os dois bairros são formados por população pobre e grande parte vinda de Estados do Nordeste em busca de uma vida melhor.

"É nessas camadas da sociedade que o poder público consegue promover as maiores transformações. É onde os partidos pobres ou de oposição aos partidos de elite criam suas raízes", afirma o professor de ciência política Cláudio Gonçalves Couto, da FGV (Fundação Getúlio Vargas) de São Paulo.

Segundo ele, o resultado do PT nas eleições do ano passado não é só resultado da crise política e de credibilidade que atinge o partido, mas sim uma reação do momento econômico. "O PT é um partido de marca forte. Quando se percebeu que a crise reduziu a qualidade de vida das pessoas, houve reação em escala", afirmou Couto.

Para Couto, o PT ainda tem fôlego e pode crescer diante da reputação do atual governo. "As pesquisas mostram que o Lula ainda tem força", disse. "Os outros partidos não têm os movimentos sociais ao lado deles. Essa é uma relação antiga do PT, que remonta à sua origem, o que levaria muitos anos para ser conquistado por outros partidos", afirmou o professor.

Reação petista

Luiz Marinho, ex-prefeito de São Bernardo do Campo e atual presidente do PT paulista, acredita em um processo de recuperação do partido a partir de 2018 e na reconquista de prefeituras em 2020. "A votação de 2016 foi um ponto fora da curva, favorecido pelo massacre da mídia e o impeachment da Dilma [ex-presidente Dilma Rousseff]", disse ele.

O petista afirmou que o partido não trabalha com um "plano B" para as eleições presidenciais de 2018. "Nossa convicção é tamanha que não temos um 'plano B'. Temos confiança de que a sentença contra o Lula será reformada nas instâncias superiores. É uma sentença frágil, um erro do juiz Sergio Moro", afirmou Marinho.

Alan Marques/Folhapress-10.dez.2013
O presidente estadual do PT e ex-prefeito de São Bernardo Luiz Marinho

Para ele, o PT deverá usar a receita já conhecida: reunir comunidades e lideranças, e discutir juntos as ações para um novo governo. "A reprovação do atual governo é gigantesca. É em cima disso que a gente vai buscar a nossa recuperação. Eles provaram mais uma vez que não sabem conduzir o país e propor ações que vão ao encontro do que as pessoas querem", disse.

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