Operação Lava Jato

Senador do PSD chama CPMI da JBS de "farsa", critica relator e é 2º a abandonar comissão

Gustavo Maia

Do UOL, em Brasília

Membro da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) da JBS, o senador Otto Alencar (PSD-BA) anunciou nesta terça-feira (12) sua saída do colegiado durante a primeira reunião de trabalho da comissão, a qual chamou de "farsa" e "chapa-branca".

A comissão tem como objetivo apurar supostas irregularidades praticadas pelo grupo J&F, que controla o frigorífico JBS, junto a empréstimos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Interrompendo a fala do presidente da CPMI, o senador Ataídes Oliveira (PSDB-TO), Otto Alencar criticou a visita do tucano ao presidente Michel Temer (PMDB) no último sábado (9) no Palácio do Jaburu, e a escolha do deputado federal Carlos Marun (PMDB-MS) como relator da comissão, chamando-o de "testa de ferro" de Temer.

Alencar levantou-se após terminar sua fala, e, em meio a apelos de Ataídes para que fosse ouvido, disse que "não dá para ouvir" suas justificativas, e deixou o plenário batendo a porta com força, depois de se dizer "envergonhado".

O presidente da CPMI classificou a atitude de Otto como "uma falta de respeito com os colegas" e um "filme", e disse que não esperava isso do colega.

Sobre a sua ida no fim de semana ao Palácio do Jaburu, residência oficial de Temer, Ataídes disse que tinha uma demanda com o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Antônio Imbassahy (PSDB-BA), há mais de 20 dias, para tratar da duplicação da BR-153 (Goiás-Tocantins) com o presidente.

"No sábado, às 16h, o Imbassahy me liga e pergunta: 'você está em Brasília?'. Eu disse: 'estou'. 'Você pode dar um pulinho aqui no Jaburu, que eu estou aqui do lado do ministro Moreira Franco e do presidente Michel? Você quer falar sobre a BR-153. Eu disse: 'estou indo'. E irei quantas vezes me chamar para tratar desse assunto", relatou.

Minutos depois, Ataídes foi questionado pelo líder do Psol na Câmara, deputado Glauber Braga (RJ) sobre se realmente não tratou sobre a CPMI durante a reunião. O presidente da CPMI modificou sua versão inicial e disse ter falado com Imbassahy enquanto o ministro o levava ao carro. "Ele perguntou: 'e a CPMI?'. E eu falei que teríamos a reunião nesta terça".

Antes de Alencar, também por conta do anúncio da escolha de Marun como relator, o senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES) se retirou da comissão.

De acordo com o requerimento de criação da CPMI, os procedimentos do acordo de colaboração premiada celebrado entre a PGR (Procuradoria-Geral da República) e os acionistas das empresas JBS e J&F também serão alvo de investigação.

A reunião de trabalho da CPMI desta terça foi encerrada por conta do início da ordem do dia no Senado. Durante mais de duas horas e meia, os membros do colegiado discutiram a escolha do relator e os objetivos da comissão mista, mas não chegaram a votar nenhum dos 95 requerimentos já apresentados.

Ao fim dos trabalhos, Marun informou que vai formular uma proposta de plano de trabalho na próxima reunião, convocada por Ataídes para a terça-feira da semana que vem (19).

"Política tem dois lados e um muro"

No início da sessão, o deputado federal e integrante da chamada tropa de choque do presidente Temer Carlos Marun foi escolhido como o relator da CPMI instalada na semana passada. A escolha foi feita pelo presidente da comissão, senador Ataídes Oliveira (PSDB-TO).

O nome de Marun não precisa ser aprovado pelos membros do colegiado. Como relator, ele terá de apresentar um parecer ao final da CPMI que indicará se houve ou não indícios de corrupção, apontará responsabilidades e sugerirá medidas para resolver os problemas apurados. As comissões têm poder investigativo, mas não judicial.

Aliado fiel de Temer, Marun disse saber que sua indicação "desagradou alguns membros dessa CPI e desse parlamento", em pronunciamento no início da reunião.

"A política tem dois lados e um muro. E eu sou uma pessoa que sempre fez questão de ter um lado. Eu sou uma pessoa que faz política com lealdade, não gosto de coisas varridas para debaixo tapete", declarou.

"Acho difícil que algum desses que já correram para denegrir a minha pessoa, questionando a minha indicação, eu duvido que possam buscar na minha vida algo de concreto que posso ser aí posicionado. Não me julgo mais honesto do que ninguém, não estou aqui para apontar dedo, mas duvido que alguém aqui seja mais honesto que eu", completou Marun.

O relator afirmou ainda que os membros da comissão têm o desafio de "não transformar essa banca num palanque eleitoral e de não ceder à tentadora espetacularização desse processo, buscando a verdade e ao final, apresentar à sociedade brasileira conclusões pertinentes e proveitosas a respeito de tudo que vamos aqui discutir".

À Folha, Marun afirmou que as investigações do colegiado vão apurar "sem medo" a atuação da PGR (Procuradoria-Geral da República) e do Judiciário na celebração do acordo de delação premiada com executivos da JBS.

"A CPMI vai olhar para a PGR e para o Judiciário sem medo", disse. "A Lava Jato até hoje preservou o Ministério Público e o Judiciário. A CPMI não tem esse compromisso. Temos que olhar para o que já foi feito até aqui."

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