Operação Lava Jato

Delator diz que firma ligada a plano de saúde repassou R$ 2,4 mi a pedido de lobista do PMDB

Eduardo Militão

Colaboração para o UOL, em Brasília

  • Zanone Fraissat - 15.mar.2013/Folhapress

    O lobista Milton Lyra, citado na Lava Jato como operador de senadores do PMDB

    O lobista Milton Lyra, citado na Lava Jato como operador de senadores do PMDB

Uma empresa de consultoria de capital social de R$ 1.000 repassou R$ 2,47 milhões à vista em uma conta bancária usada para lavar dinheiro para um lobista do PMDB, segundo depoimento do próprio destinatário da suposta propina, Flávio Calazans de Freitas.

Em seu acordo de delação premiada com a Lava Jato, homologado por Sergio Moro, ele diz que, em 2014, durante a campanha eleitoral, recebia valores a mando do lobista Milton Lyra. Para o Ministério Público, Lyra era "operador de senadores do PMDB", como Renan Calheiros (AL), Eunício Oliveira (CE) e Romero Jucá (RR). Os parlamentares negam qualquer irregularidade (veja mais abaixo).

Calazans disse que repassava os recursos depositados para contas indicadas por Lyra e outros dois empresários, todos sob investigação.

Conforme o advogado declarou à força-tarefa da Lava Jato, a empresa IGS pagou os R$ 2,47 milhões na sua conta em 5 de setembro de 2014 para seu escritório de advocacia. Este valor está em planilha apresentada por ele aos procuradores da força-tarefa.

No mesmo ano de 2014, Calazans recebeu mais R$ 1,1 milhão de três empresas do grupo de plano de saúde Amil.

Nessa época, o Congresso aprovou duas medidas provisórias de interesse dos planos de saúde, uma para perdoar multas das empresas e outra para permitir o ingresso de capital estrangeiro no setor. Até onde se sabe, os investigadores de Curitiba ainda não fizeram relação de causa e efeito sobre esse caso, mas a norma já é investigada pelo Ministério Público e a relação da Amil com essa medida provisória embasou uma das denúncias da Procuradoria-Geral da República contra o presidente Michel Temer. 

Gigante entre os planos de saúde 

A reportagem visitou o prédio onde deveria estar instalada a IGS, no centro de Luziânia (GO), no Entorno de Brasília, mas não encontrou placa nenhuma da empresa.

De acordo com os registros da Receita Federal, a consultoria está instalada numa sala de um prédio de três andares chamado Centro Empresarial Maria Lucinda Leite.

No mesmo endereço e telefone, a Receita registra uma administradora de planos de saúde, a Aliança.

Criada pelo empresário fluminense Elon Gomes de Almeida, a Aliança Benefícios é de propriedade da Qualicorp, de José Seripieri Júnior, uma das gigantes do setor de operação de planos de saúde no país, da qual Almeida foi sócio.

Em entrevista, Almeida disse que a IGS o ajudou na venda de parte de sua empresa para a Qualicorp, que tem "relação muito próxima" com a IGS, mas não é seu dono, e sim Arthur Yuwao Uenoyama.

Waldemir Barreto/Agência Senado
Renan Calheiros (AL) e o presidente do Senado, Eunício Oliveira (CE), ambos do PMDB

Almeida não disse por que a IGS está registrada no mesmo lugar em que fica sua empresa. "Talvez tenha sido feito aproveitamento de espaço, as divisões de espaço", afirmou.

"A IGS é empresa de consultoria permanente, como se fosse uma empresa terceirizada que presta serviço para a gente. Agora, quem ela pagou e por que pagou, eu não sei explicar", continuou. "Eu faço pagamentos para a IGS todo mês. É uma empresa que presta serviço para gente há mais de dez anos, 15 anos talvez."

Almeida não soube explicar por que uma empresa de capital social de apenas R$ 1.000 fez um repasse de R$ 2,47 milhões ao advogado e delator Flávio Calazans.

No endereço indicado, estão penduradas várias placas da Aliança, mas nenhuma da IGS. No primeiro andar, há uma sala com uma secretária e vários arquivos. A funcionária diz que o homem que responde perante a Receita como o dono da IGS, Arthur Uenoyama, não aparece lá.

Funcionários da Aliança indicaram que Uenoyama deveria ser procurado em outra empresa de Almeida, a Victória Empreendimentos. Lá, os empregados disseram à reportagem que Unenoyama é funcionário da firma e repassaram seu correio eletrônico, vinculado ao grupo Aliança.

A reportagem enviou uma mensagem, mas Uenoyama respondeu por um e-mail privado, no qual se limitou a dizer que atua há 18 anos no setor imobiliário, e não de saúde, e que não poderia revelar o motivo de pagar R$ 2,47 milhões à vista para Calazans "em decorrência de cláusula de confidencialidade".

Possível caixa 2 investigado na Operação Acrônimo

Almeida disse à Polícia Federal que pagou R$ 2,6 milhões de caixa 2 à campanha do governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), por meio de repasses em espécie e notas frias emitidas por suas empresas.

José Seripieri, seu sócio à época na Qualicorp, disse aos investigadores que foi procurado pela mulher do governador, Carolina Oliveira, durante a pré-campanha de 2014.

Segundo Seripieri, o próprio Pimentel o apresentou a Benedito Rodrigues de Oliveira Neto "como sendo uma pessoa de muita confiança de Pimentel" e disse que Bené "iria cuidar da campanha" para o governo de Minas.

Dias depois, o operador Bené teria solicitado dinheiro a Seripieri, que repassou o caso a Almeida. Após negociações, eles repassaram dinheiro via caixa 2 à campanha do PT de Minas, usando uma empresa chamada Support. 

Almeida disse à reportagem que, no episódio entre a IGS Consultoria e Calazans, não houve novas operações ilegais ou de caixa 2: "Isso não tem nada a ver", afirmou.

Após a publicação da reportagem, a Qualicorp enviou uma nota em que diz que "nenhuma de suas empresas teve qualquer relação com a pessoa citada na reportagem e tampouco efetuou qualquer pagamento à mesma". "O grupo reitera, ainda, que não teve qualquer envolvimento nos demais assuntos mencionados, o que já foi devidamente comprovado. Como companhia de capital aberto, com milhares de acionistas no Brasil e no exterior, o Grupo Qualicorp lamenta e repudia veementemente rumores envolvendo seu nome sem nenhum embasamento."

Outro lado

As três empresas ligadas à Amil não explicaram a que se deveu o valor de R$ 1,1 milhão repassado ao escritório de Calazans em 2014. O Hospital 9 de Julho e a EGB 01 alegaram apenas que os contratos são feitos "nos termos e limites da lei e do Estatuto da OAB", afirmaram ainda que o pagamento se deu "para os fins dos serviços contratados". O Hospital das Clínicas de Niterói não comentou o caso.

Renan Calheiros (PMDB-AL), Eunício Oliveira (PMDB-CE), Romero Jucá (PMDB-RR), Jader Barbalho (PMDB-PA) e Edison Lobão (PMDB-MA) têm negado quaisquer irregularidades levantadas pela Operação Lava Jato. A assessoria do presidente do Senado afirmou que Eunício "não tem relação alguma com o empresário Milton Lyra". "Assim sendo, não houve nem haveria espaço algum para que se tratasse de tais temas, desconhecidos também pelo senador", continuou.

Renan tem dito que conhece Lyra, mas não fez negócios com o lobista e com outros investigados na Lava Jato, como o operador Jorge Luz. "Essa é uma história requentada, inventada por gente que gostaria, mas não tem acusações a me fazer", disse, por meio de assessoria, à revista "Istoé".

O advogado de Edison Lobão, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, afirmou que ele "não tem relação pessoal ou comercial com as pessoas citadas". Afirmou ainda que o ex-ministro das Minas e Energia "está à disposição da Justiça para quaisquer esclarecimentos". O gabinete de Jader e a defesa de Jucá não prestaram esclarecimentos.

A assessoria de Milton Lyra foi procurada duas vezes. Na primeira, disse que ele "refuta com veemência qualquer interpretação equivocada de fatos e mentiras a seu respeito, fruto de pessoas com mentes criativas para tentar isentarem-se de responsabilidade penal por ilícitos por elas praticados". Na segunda, também não explicou os pagamentos a Calazans e suas declarações à força-tarefa da Lava Jato em Curitiba.

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