Delatores estão sendo perseguidos pelas verdades que disseram, diz dono da JBS

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

Um dos donos do grupo J&F, proprietário do frigorífico JBS, o empresário Wesley Batista disse que delatores estão sendo perseguidos. "O que vejo, nesse momento que estamos vivendo no país, são colaboradores sendo punidos, perseguidos pelas verdades que disseram", disse Wesley em audiência da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) mista da JBS, nesta quarta-feira (8).

Junto com seu irmão Joesley Batista, Wesley fechou acordo de colaboração com a PGR (Procuradoria-Geral da República) a respeito de esquemas de corrupção envolvendo suas empresas e companhias do governo federal. A delação do grupo serviu de base para as duas denúncias contra o presidente Michel Temer (PMDB), posteriormente barradas pela Câmara.

"As delações dos últimos anos fizeram o país se olhar no espelho. Mas como ele não gostou do que viu, o resultado tem sido esse, colaboradores presos e delatados soltos", declarou Wesley.

Ao terminar sua fala inicial, de cerca de dois minutos, o empresário afirmou que não responderia as perguntas feitas pelos parlamentares presente na sessão por orientação de seus advogados. De acordo com o empresário, um depoimento "sem expressa autorização da PGR" colocaria em risco seu acordo de colaboração e prejudicaria sua situação.

Em setembro, após uma reviravolta no caso, a Procuradoria decidiu revogar a imunidade penal dos delatores da JBS. Joesley foi preso logo em seguida.

Já Wesley foi preso dias depois, suspeito, junto do irmão, de se aproveitar de informação privilegiada em decorrência dos próprios acordos de delação premiada para obter lucros milionários no mercado financeiro.

"Estou preso por um crime que jamais cometi. Jamais descumpri o acordo de colaboração celebrado com o MPF [Ministério Público Federal]", disse Wesley na CPI.

O empresário afirmou que, "tão logo essa situação seja resolvida com a PGR", ele se compromete "a prestar todos e quaisquer esclarecimentos necessários para continuar colaborando com a Justiça."

Wesley disse ainda que não se arrepende "de ter decidido colaborar com a Justiça brasileira". "Foi um processo de profunda transformação pessoal e empresarial. Tornar-se um colaborador não é uma decisão fácil. É solitário, dá medo e causa muita apreensão".

O empresário considera que o acordo de colaboração da J&F é o mais "eficaz até agora no país", mas vê um "imenso retrocesso" neste momento após as informações entregues à PGR. "Acredito que estamos vivendo agora um imenso retrocesso daquilo que eu esperava ser um profundo processo de transformação do nosso país".

Hoje, porém, ele avalia que os acordos são "um processo imprevisível e inseguro para quem decide colaborar". "Quando resolvemos fazer o acordo de colaboração, nós não tínhamos noção e ideia do quanto isso afetaria a nossa vida, a vida de nossa família e de nossos filhos".

"Discurso não cola mais"

O presidente da CPI, senador Ataídes Oliveira (PSDB-TO), disse a Wesley que essa seria uma "oportunidade ímpar" para o empresário se pronunciar. Ele também sugeriu uma sessão reservada, sem a presença da imprensa e apenas com parlamentares, para que ele prestasse depoimento.

O advogado de Wesley, Ticiano Figueiredo, explicou que, até o acerto a respeito do acordo, "não é possível qualquer tipo de declaração". "Mas o que tem que se destacar é que ele jamais praticou qualquer tipo de crime, tipo de delito".

O deputato federal Izalci Lucas (PSDB-DF) recordou o depoimento de Ricardo Saud, executivo da J&F que também está na prisão, na semana passada. Na ocasião, Saud disse que estava preso por "falar a verdade", assim como afirmou Wesley disse nesta quarta-feira. O parlamentar queria que o empresário explicasse o que eles quiseram dizer com essa declaração. "Excelência, eu manterei o silêncio", disse Wesley.

Oliveira então disse que "esse discurso de que falou a verdade e foi preso não cola mais". "A verdade liberta, a verdade não prende", disse o presidente da comissão.

Em seu depoimento, Saud também preferiu ficar em silêncio durante a audiência.

Por causa do silêncio dos depoentes, Lucas chegou a sugerir "acabar com esse negócio de CPI". "Se todo mundo chegar aqui e disse que não pode falar nada... Estamos perguntando coisas que não têm nada a ver com a delação dele".

Iniciada em outubro, a CPI mista da JBS foi criada em um ambiente em que a Câmara dos Deputados avaliava o arquivamento da segunda denúncia oferecida pela PGR contra Temer. Entre os convocados para prestar depoimento, 80% têm ligação com a Procuradoria e com ex-procurador-geral Rodrigo Janot, autor da denúncia contra o ex-presidente.

O convite a Janot para que ele seja ouvido na CPI já foi aprovado, mas ainda não se avisou oficialmente o ex-procurador-geral a respeito.

Parlamentares de PT e PMDB chegaram a fazer um pacto de não agressão durante as audiências, tanto que requerimentos para ouvir figuras ligadas ao mundo político foram deixados de lado.

Na sessão desta quarta-feira, o deputado federal João Gualberto (PSDB-BA) questionou a presidência da CPI a respeito da convocação de políticos para a CPI. Gualberto quer que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e outros políticos sejam convocados.

"Claro que nós vamos chamar os políticos, sim", respondeu Oliveira. "Estamos indo por etapa. O processo é a delação superpremiada. Mas sabemos que o verdadeiro corrupto é o político. O que não podemos é politizar essa CPI", avaliou o presidente da CPI.

Aos parlamentares presentes na audiência, o deputado federal Carlos Marun (PMDB-MS), relator da CPI mista, avaliou que a comissão "já avançou muito e vai, sim, chegar a uma conclusão". "[Ela] revelará que nesse mato tem muito coelho e exigirá, se for o caso, alteração na legislação para que absurdos como esse não voltem a acontecer".

A Wesley, Marun disse que ele e seu irmão "foram orientados a tomar determinadas atitudes que fazem de vocês hoje mais bandidos que vocês realmente são". "Acharam que eram malandros, fizeram uma molecagem, e agora estão nessa situação. Vocês estão na iminência de ficar 30 anos na cadeia".

De acordo com o relator, os irmãos Batista deveriam "tentar outro acordo de delação, acordo agora real, falando a verdade". "A casa caiu, o gato subiu no telhado. Essa CPI pode ser um canal para isso [ tentar outro acordo], para ir à PGR buscar uma nova delação para os senhores. Mas uma coisa que seja justa, que vocês paguem os males que fizeram".

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