Operação Lava Jato

Lava Jato: empreiteiro diz que pagou R$ 30 mi em propina a Cabral para integrar obras do RJ

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

  • Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

O empreiteiro Ricardo Pernambuco, um dos donos da Carioca Engenharia e delator da Operação Lava Jato no Rio de Janeiro, afirmou em depoimento ao juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal, nesta segunda-feira (4), ter pagado cerca de R$ 30 milhões em propina ao ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) para que sua empresa participasse de obras como o PAC das Favelas, o Arco Metropolitano e a linha 4 do metrô.

Segundo ele, a empresa pagou entre 2008 e 2014 uma mesada ao peemedebista que começou em R$ 200 mil. Após a reeleição de Cabral, em 2010, esse valor teria passado para R$ 500 mil.

"Na contabilidade da empresa, tudo isso era entendido como propina, como vantagem indevida", afirmou. 

Questionado pelo Ministério Público sobre quanto a empresa teria pagado em propinas no total, ele disse estimar que "cerca de R$ 30 milhões", valor que somaria as mesadas e uma dívida de R$ 8 milhões que o político teria cobrado ao deixar o governo, em 2014.

Os contatos, segundo ele, eram feitos entre o seu filho, executivo da Carioca, e Wilson Carlos (ex-secretário de Governo, atualmente preso junto com Cabral), indicado pelo próprio ex-governador para tratar dessas questões.

O empresário comentou ainda que as licitações do Estado eram combinadas antes com o governo.

O ex-executivo da Odebrecht Benedicto Barbosa da Silva, também ouvido como colaborador, corroborou a versão de Pernambuco de que as empreiteiras que entravam nos pregões eram escolhidas antes. Segundo ele, era praxe acrescentar cláusulas restritivas aos contratos para garantir que apenas algumas empresas participassem.

Ao informar o ex-governador sobre o desejo de a Odebrecht participar da obra do estádio do Maracanã, ele disse ter ouvido que a licitação seria feita e que o governo iria "encontrar uma maneira" de a empreiteira ser escolhida.

A própria inclusão da Delta na obra, segundo relatou Benedicto, foi um pedido de Cabral. "A Delta foi empurrada goela abaixo. Foi a maior derrota da minha carreira ter que aceitar a presença de uma empresa que não precisávamos para a obra."

A Delta, do empresário Fernando Cavendish, viveu o auge entre 2006 e 2011, quando participou de algumas das principais obras do governo fluminense sob a gestão de Cabral, como a reforma do Maracanã e o Arco Metropolitano.

O empreiteiro, que cumpre prisão domiciliar, era amigo pessoal de Cabral. Em 2011, a mulher dele e a namorada do filho de Cabral morreram em um acidente de helicóptero na Bahia. A aeronave levava todos para a festa de aniversário do empreiteiro.

O advogado de Cabral, Rodrigo Roca, acompanha a audiência e ainda não se manifestou sobre as acusações. A defesa tem negado, contudo, as acusações de recebimento de propina, enquanto Cabral, nos interrogatórios, tem admitido que vantagens indevidas eram recebidas na forma de caixa dois.

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