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Tensão, ataques e interrupções marcam 1º encontro entre Lula e substituta de Moro

Ana Carla Bermúdez e Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo e em Curitiba

15/11/2018 04h00

O primeiro encontro entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a juíza federal substituta Gabriela Hardt, que assumiu os processos da Operação Lava Jato após Sergio Moro aceitar um ministério no governo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), foi marcado por momentos de tensão e ânimos exaltados.

Já no início da audiência desta quarta-feira (14), Lula e a juíza se desentenderam e passaram cerca de cinco minutos interrompendo um ao outro. Adotando o mesmo discurso utilizado ao longo do caso do tríplex do Guarujá (SP), que rendeu ao petista sua primeira condenação, o ex-presidente afirmou não entender a acusação existente contra ele.

Veja mais sobre o interrogatório:

Eu sou dono do sítio ou não?”, perguntou à juíza. "Isso é o senhor que tem que responder, não eu, doutor, e eu não estou sendo acusada neste momento", devolveu ela.

"Não, quem tem que responder é quem me acusou", rebateu o ex-presidente. A juíza, então, subiu o tom: disse que, se Lula continuasse agindo daquela forma, haveria "um problema". Deixou claro, em seguida, que ela era a juíza do caso e que faria as perguntas para esclarecimentos necessários, mas que não iria responder a nenhum questionamento.

Lula foi ouvido por Hardt nesta quarta como réu no processo que investiga se o ex-presidente foi beneficiado por meio de reformas realizadas pela Odebrecht, Schahin e OAS em um sítio em Atibaia (SP).

De acordo com o MPF (Ministério Público Federal), as obras seriam uma contrapartida a contratos obtidos com a Petrobras de forma fraudulenta. A defesa de Lula nega as acusações.

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“É melhor o senhor parar com isso”

Quando Lula acusou Moro de ser amigo do doleiro Alberto Yousseff, Hardt foi dura em sua repreensão ao petista por meio de seu advogado, Cristiano Zanin Martins.

“Doutor, por favor. Ele não vai fazer acusações sobre meu colega aqui”, disse. Lula insistiu na crítica e afirmou, momentos depois, que Moro manteve Youseff sob vigilância por oito anos.

“Ele não ficou sob vigilância oito anos, e é melhor o senhor parar com isso”, disse a juíza, encerrando a discussão.

Também não foram poucas as ocasiões em que a juíza interrompeu Lula e sua defesa para que o ex-presidente, em suas respostas, se ativesse apenas a temas relacionados ao processo do sítio.

Em determinado momento, Zanin pediu questão de ordem à juíza para que Lula concluísse um relato sobre o processo do tríplex. Em tom firme, a juíza respondeu: “Se ele fugir do assunto e começar com discurso político, doutor, infelizmente, eu estou comandando a audiência e vou ter que cortar”.

Hardt também não poupou uma tentativa de brincadeira feita por Lula próximo ao fim da audiência. “Me leva com você”, disse ao advogado José Roberto Batochio, um de seus defensores, que deixou o local pouco antes do fim do interrogatório.

“Se o senhor quiser ficar em silêncio, também podemos encerrar [a audiência]”, devolveu a juíza.

O ex-presidente demonstrou estar irritado diversas vezes ao longo do interrogatório, dando respostas duras e irônicas, chegando a levantar o punho cerrado no ar.

“Se ele falou que não pagou achando que a Marisa tinha pago, eu não tenho mais como perguntar”, disse, batendo na mesa, em resposta ao procurador do MPF sobre uma afirmação de Fernando Bittar, dono do sítio, de que acreditava que Lula e Marisa pagariam pelas obras.

“O que eu acho grave e que você deveria perguntar era por que o Léo [Pinheiro, da OAS] não cobrou. Por que o Léo não cobrou? O cara que tem que receber é o cara que vai todo santo dia cobrar”, emendou, visivelmente irritado, com o dedo em riste no ar.

Para presentes, juíza “manteve a ordem” na audiência

Para advogados de réus ouvidos pelo UOL, a magistrada, apesar de momentos de embates, conseguiu manter a ordem na audiência. “Ela foi firme, manteve a audiência sob controle”, disse um deles.

Os advogados também ressaltaram que, quando a pessoa com a posse da palavra começava a tergiversar, Gabriela cortava o tema para que ela voltasse a se ater às questões atinentes ao processo do sítio.

O fato de ser a magistrada a conduzir a audiência também contribuiu para não haver a animosidade entre Lula e o juiz, tal como ocorria com Moro. O ex-presidente não poupa críticas ao magistrado desde que virou réu em processos da Operação Lava Jato.

Nos dois primeiros interrogatórios, referentes a outras ações da força-tarefa da operação, o petista aproveitava suas respostas para alguns comentários críticos referentes à força-tarefa e Moro, por exemplo.

Na audiência desta quarta, Lula praticamente se ateve aos temas do processo do sítio, ficando mais livre para comentários sobre outros assuntos em suas considerações finais. Na audiência do processo do tríplex, Lula chegou a fazer a defesa do legado de seus governos, o que aconteceu de maneira mais tímida desta vez.

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