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Bolsonaro tem de esquecer passado ao buscar apoio, diz presidente do PSL

Clara Gouvêa/UOL
O presidente do PSL e ex-presidente do Sport, Luciano Bivar, no escritório de sua empresa, no Recife Imagem: Clara Gouvêa/UOL

Wellington Ramalhoso

Do UOL, em São Paulo

04/12/2018 04h00

A equipe do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) tem conversado com outros partidos para formar uma aliança que seja majoritária e consiga aprovar medidas no Congresso a partir de 2019. O próprio Bolsonaro começa a participar da articulação. Entre os procurados, estão integrantes partidos do centrão como o PSD e o PR, liderado pelo ex-deputado Valdemar Costa Neto, condenado no processo do mensalão e investigado na operação Lava Jato. Para o presidente do PSL, o deputado federal eleito Luciano Bivar, é preciso esquecer o passado de escândalos ao buscar apoios.

“A gente está numa pia batismal, mas tem que esquecer dos pecados originais [de partidos e políticos] e olhar para frente”, afirma Bivar em entrevista ao UOL. O diálogo com figuras como Costa Neto não representa, segundo o líder do PSL, um casamento de Bolsonaro com a velha política.

O presidente eleito tem adotado o discurso de que não dá cargos a políticos em troca de apoio no Congresso, mas corre o risco de ter uma base parlamentar instável. Partidos têm negociado a formação de um bloco que isolaria o PSL.

Fundador do partido, Bivar é empresário no ramo de seguros, foi presidente do Sport do Recife e completou 74 anos na semana passada.

Depois de fechar o acordo para trazer Bolsonaro no começo do ano, ele se afastou da presidência da legenda durante a campanha eleitoral. Recebeu R$ 1,8 milhão em repasses do partido na campanha de candidato a deputado federal por Pernambuco. Conseguiu uma vaga na Câmara e reassumiu o comando do PSL depois do segundo turno.

Confira abaixo os principais pontos abordados por Luciano Bivar na entrevista.

“Vamos quebrar retrovisores”

“O Onyx [Lorenzoni, indicado para ser ministro da Casa Civil no governo Bolsonaro] está conversando com os líderes de partidos. Os poucos com que falei informalmente, sem até a bênção do Onyx -- falei porque sou amigo de velha guarda, feito o [Gilberto] Kassab [ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e fundador do PSD], o Marcos Pereira [presidente do PRB], feito o Valdemar [Costa Neto] --, são todas pessoas que estão sensíveis a ajudar o partido e o país por ajudar. A gente vai ter com certeza uma maioria significativa na Câmara”, declara Bivar.

Vamos pensar em quebrar retrovisores. A gente está numa pia batismal, mas tem que esquecer dos pecados originais e olhar para frente. Eu me casei hoje com a mulher. Eu não quero saber se no passado ela foi isso e aquilo. Eu quero saber se daqui para frente se ela vai ser fiel, leal e mãe dos meus filhos. Isso não implica num casamento com a velha política porque não vai ter ‘toma lá da cá’. Nós queremos é apoio”

“Como deputado, se estou bem-intencionado, vou fazer o melhor para o país. Não posso votar contra a [reforma da] Previdência. Vai ter um colapso amanhã. Votar contra isso [a reforma] é um escárnio ao mandato que o deputado recebeu”, diz o dirigente

Clara Gouvêa/UOL
Fundado em 1994, o PSL teve seu registro oficializado em 1998; Bivar se candidatou a presidente da República em 2006 e obteve apenas 62 mil votos Imagem: Clara Gouvêa/UOL

A bancada do partido e a disputa pela presidência da Câmara

O PSL deu um grande salto nas eleições de 2018. Com somente oito deputados federais atualmente, a legenda elegeu 52 deputados. Bivar espera conseguir a adesão de outros 12 vinculados a siglas menores, o que levaria o partido a ter a maior bancada da Câmara em 2019, com 64 representantes, ultrapassando o PT, que elegeu 56.

“A lei permite que um deputado que não participa de relatoria nem de nenhuma comissão oficial do Legislativo, não tem fundo partidário, não tem tempo de TV migre de partido. Claro que ele vai migrar. Ele não vai ficar ali como um zumbi na Câmara. Vai para um partido que coincida com os pensamentos dele. E nós, por outro lado, vamos saber se eles pensam como liberais. Acredito que pelo menos uma dúzia de deputados virão para o PSL.”

Tamanho crescimento coloca a sigla em condições de disputar a presidência da Câmara, mas Bivar frisa que o partido abre mão do cargo em troca de sustentação na Casa. “O PSL precisa fazer apoios para a gente ter número suficiente para viabilizar as reformas. O PSL é até capaz de abrir mão da cabeça da chapa.”

A maioria dos deputados eleitos pela sigla  jamais ocupou cargo eletivo, mas isto não será problema, na avaliação de Bivar. “A falta de experiência parlamentar não conta para tomar uma decisão. Porque vai ter um partido, vai ter uma bancada, vai ter uma liderança que vai orientar sobre as votações. E essas pessoas que entraram agora têm muito mais discernimento do que as que estavam outrora na Câmara, que eram movidas por fisiologismo."

Divulgação/PSL
Bivar e Bolsonaro em janeiro de 2018 quando a filiação foi acertada Imagem: Divulgação/PSL

Ecos de 2013 e vitória “estrondosa”

Além dos deputados e de Jair Bolsonaro, a legenda elegeu três governadores (em Roraima, Rondônia e Santa Catarina) e quatro senadores. “Tínhamos a consciência de que o povo queria mudar. Aquele movimento de 2013... o desenho estava bem definido, o que estava aí não se queria mais. A gente teve esse sentimento de que íamos fazer uma nova proposta fora do establishment. Eu tinha certeza de que era esse o único caminho que a gente teria”, diz Bivar.

“O Bolsonaro tem uma linha liberal semelhante à do partido. Dentro dessa da convergência de ideias que a gente tinha, a gente esperava o sucesso sim, mas não dessa forma tão estrondosa como foi”, admite.

Para o presidente da sigla, Bolsonaro está totalmente convertido ao liberalismo econômico, apesar de ter um histórico de votações na Câmara que deixa liberais desconfiados de suas convicções. “Vi várias palestras do Bolsonaro e ele dizendo que cresceu. Ele não deve nada a ninguém, foi eleito pelo voto popular, ele indica o ministro que ele quer. Então, se ele faz isso [indica o liberal Paulo Guedes para comandar a economia], ele faz com convicção de que a melhor forma de atingir o sucesso é uma economia aberta de mercado.”

Paulo Guedes como guia e meta ambiciosa para o partido

O liberalismo defendido por Bivar significa menos participação do Estado na economia e mais liberdade para a iniciativa privada. O Partido Social Liberal carrega a ideia no nome, mas ainda carece de coesão e profundidade programática.

“O grande desafio nosso é colocar alma no partido, mostrar que o PSL é um partido que vive o pós-Bolsonaro, que o partido efetivamente é um sentimento liberal”, reconhece o dirigente partidário.

Ele diz contar com a ajuda do futuro ministro da Economia para fortalecer o ideário da legenda. “A nossa fundação [denominada Indigo] vai propiciar estudos políticos, vai trazer palestrantes de âmbito internacional e brasileiro para a gente dar uma alma, uma substância muito grande ao sentimento que a gente quer. O Paulo Guedes se comprometeu a emprestar pessoas de sua equipe para nos ajudar na fundação e que possam disseminar o sentimento liberal [inclusive entre os eleitos pelo partido]. A gente vai fazer um partido com muita unicidade”, afirma.

Certamente que [o PSL] vai ser protagonista na política brasileira. Pode escrever isso: o PSL vai ser o maior partido da América Latina daqui a quatro, oito anos”

“Direita e esquerda são rótulos. Nosso partido é um partido liberal, está independente desses rótulos. Paulo Guedes fala [que é de] centro-direita.”

Janek Skarzynski/AFP
O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, na abertura da COP-24, nesta segunda-feira (3), na Polônia Imagem: Janek Skarzynski/AFP

“Não é hora de perder tempo com discussão climática e trazer mídia internacional para cá”

Na opinião de Luciano Bivar, o presidente eleito acertou ao pedir que o governo brasileiro abrisse mão de ser sede, em 2019, da COP-25, conferência anual da ONU que trata do clima no planeta -- a edição deste ano começou ontem na Polônia.

Acho que Jair está coberto de razão. Não é momento de estar perdendo tempo, esforços em ser protagonista de um assunto dessa natureza”

Para o dirigente pesselista, a questão climática não é prioridade. “O Brasil vai ter sua missão onde quer que seja a sede dessa conferência internacional do meio ambiente. A gente não pode trazer aqui para o Brasil um negócio que vá trazer a imprensa do mundo inteiro para cá. A gente está começando, o novo governo está administrando em cima de terra arrasada. Não posso discutir um assunto que está sob discussões para daqui a cem anos, 150 anos, sei lá. Tenho que pensar no aqui e agora.”