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Indígenas pedem fim de especulações sobre Funai e de comparação a "animais"

Luciana Amaral/UOL
Indígenas do Pará, Piauí, Ceará, Bahia, Tocantins, São Paulo, Espírito Santo foram ao CCBB, sede do governo de transição, para tentar falar com o presidente eleito, Jair Bolsonaro Imagem: Luciana Amaral/UOL

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

06/12/2018 12h36

Um grupo de cerca de 30 indígenas pediu nesta quinta-feira (6) no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) o fim das especulações sobre o destino da Funai (Fundação Nacional do Índio) e das comparações feitas pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), quanto a eles serem tratados hoje como “animais em zoológico”.

Representantes de algumas tribos de vários estados do país – como Tocantins, Bahia, Pará, Espírito Santo, São Paulo e Ceará – estão em Brasília para um fórum de saúde da área e aproveitaram a oportunidade para tentar uma audiência com o presidente eleito com a entrega de documento com demandas. Eles têm uma reunião com integrantes da equipe de saúde da transição marcada para a tarde.

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O coordenador executivo da Abip (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) pela região Sul, Kretã, da tribo Kaingang no Paraná, afirmou que os povos indígenas se sentiram ofendidos pela maneira como vêm sendo tratados pelo presidente eleito e defendeu que cada tribo tem o direito de se posicionar diante de questões como tecnologia e possibilidade de arrendamento de terras, em discussão no Congresso Nacional. Ele atribuiu as falas de Bolsonaro a desconhecimento.

“Principalmente também pela questão de que nos últimos dias ele andou falando sobre os povos indígenas, chamando nós [sic] de animais. Como povo originário desse estado brasileiro, não como ocupante, nos sentimos muito ofendidos. E que pare a especulação sobre a Funai. Se vai para a Agricultura, Integração Social. A gente quer que pare”, falou.

“90% do povo brasileiro não sabe nem o que é indígena. Então, a gente leva para um lado prejudicial. Essa fala [dos animais] foi muito prejudicial a nós. A gente entende que a questão sobre tecnologia, tudo o que ele falou ali, depende de nós, de cada região, de cada povo. A maneira como quer viver”, comentou. “Somos mais de 305 povos no Brasil. Não somos iguais. Somos povos com culturas e conhecimentos diferentes. Não tem como falar que agora tenho de fazer uma coisa universal para todos só porque somos índios.”

Nunca vou ser um não índio e posso ter, sim, um celular, acesso à internet, carro. Não sou diferente. Assim como tenho de respeitar aquele indígena que quer ficar lá dentro do isolamento voluntário e ninguém pode atacar ele”

Kretã, coordenador executivo da Abip

Na avaliação do grupo, não há pasta com capacidade para lidar com os temas indígenas além do Ministério da Justiça, ao qual a Funai está submetida atualmente. O pedido é que a Funai continue onde está e não vá para as pastas da Agricultura ou Cidadania, como cogitado. Outras pautas incluem a continuidade da demarcação de terras, que contraria a vontade de Bolsonaro.

Questionado sobre a indefinição sobre o futuro da Funai nesta quarta (5), Bolsonaro repetiu que irá “para algum lugar, onde o índio receberá o tratamento que ele merece”. “O índio quer se integrar à sociedade, ele quer aquilo que nós queremos, energia elétrica, médico, dentista, internet, jogar um futebol, ele quer aquilo que nós queremos”, disse, ao acrescentar que o futuro titular da Justiça, Sergio Moro, está sobrecarregado.

Índio terá o tratamento que merece, diz Bolsonaro

UOL Notícias

Bolsonaro também repetiu a comparação da situação do índio no Brasil com a Bolívia. “Na Bolívia, o índio pode ser presidente, aqui querem tratar como se fosse animal no zoológico, dentro de uma reserva. Eu quero tratar o índio como ser humano, como um cidadão, que explore sua propriedade, o subsolo, dê royalties disso, plante ou arrende sua terra para que seja plantada”, afirmou.

Demais integrantes do grupo ouvidos pela reportagem concordaram sentir com a sensação de que a Funai é uma espécie de “batata-quente”, com a qual nenhum ministro quer lidar. “Não é sensação, está claro”, disse um.

Eles ressaltaram não querer criar conflitos, mas cobrar somente o previsto na Constituição, “nada além”. Se o governo apoiar o arrendamento de terras por parte dos indígenas, medida a qual o grupo presente no CCBB é contrário, disse Kretã, é necessário haver também políticas de financiamentos para o desenvolvimento de agricultura sustentável nelas.