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Cabral acusa Pezão de receber propina: "eu mesmo mandava entregar"

Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

26/02/2019 15h49

Resumo da notícia

  • Cabral diz que a campanha de Pezão custou R$ 400 milhões via caixa dois
  • Cabral diz ter combinado propina de 3% para ele e 2% para ex-secretário de Saúde
  • Ex-governador admitiu que a cobrança de propina era um "vício"
  • As declarações foram dadas em depoimento ao juiz federal Marcelo Bretas

O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB) admitiu em depoimento ao juiz federal Marcelo Bretas --responsável pelas ações da Operação Lava Jato na primeira instância no Rio-- o recebimento de propina durante seus dois mandatos e apontou o ex-governador Luiz Fernando Pezão (MDB) como recebedor de valores indevidos. Cabral definiu a cobrança de propina em seu governo como um "vício" e um "erro de postura" --é a primeira vez que ele admite na Justiça desde que foi preso em novembro de 2016 ter recebido dinheiro sobre contratos.

De acordo com Cabral, Pezão "recebia cerca de R$ 150 mil que eu mesmo mandava entregar a ele desde que ele era secretário de Obras e não é uma mentira de qualquer delator". Cabral disse que o pagamento era mensal, mas não afirmou por quanto tempo perdurou. Ex-aliado de Cabral, Pezão está preso desde novembro, investigado por recebimento de propina --sua defesa tem dito que ele "jamais cometeu qualquer ato ilícito".

O ex-governador admitiu ter combinado propina sobre a compra de material na área da saúde e envolveu o então diretor do Into (Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia) e ex-secretário da área Sérgio Côrtes no recebimento de valores indevidos.

Foi um erro meu de postura, de apego a poder, a tudo isso. Um vício.

Sérgio Cabral, ex-governador do Rio

Questionado sobre a campanha que levou Pezão ao governo fluminense, Cabral afirmou que os valores chegaram a R$ 400 milhões financiados por empresários via caixa 2. O custo, de acordo com o balanço de campanha fornecido pelo site do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), girou em torno de R$ 45 milhões --na ocasião, o teto de gastos era de R$ 85 milhões, segundo o site de TSE.

O depoimento prestado hoje acontece depois do vazamento de trechos do depoimento Cabral ao MPF (Ministério Público Federal) no último dia 21. Na ocasião, ele admitiu pela primeira vez ter recebido valores ilícitos supostamente pagos durante a reforma do Maracanã, a desapropriação do Porto do Açu e a construção da linha 4 do metrô. A divulgação dos depoimentos foi feita pela "TV Globo".

Em outros depoimentos prestados a Bretas, Cabral havia negado o recebimento pessoal de propina, mas admitido a prática de caixa 2 para fundos de campanha. Desta vez, o depoimento acontece no contexto da Operação Fatura Exposta, desdobramento da Lava Jato no Rio, que apura um esquema de fraudes na compra de próteses para o Into do Rio de Janeiro e na Secretaria Estadual de Saúde.

O depoimento de hoje acontece a pedido da nova defesa de Cabral que, na primeira vez em que foi convidado a depor no âmbito da Fatura Exposta, preferiu o silêncio.

"Ao assumir o mandato, apresentei o Sérgio Côrtes (então diretor do Into) ao Arthur Soares, que, na ocasião, já era o 'número um' da prestação de serviços do estado e era alguém que eu convivia enquanto político. Àquela altura, ele já havia me ajudado com campanhas com caixa dois, mas não o conhecia pessoalmente. Quando acabou a eleição, avisei ao Côrtes que combinaríamos uma propina de 3% pra mim e 2% pra ele na área da saúde, na compra de materiais", disse Cabral.

Segundo ele, "a tradição de antes [de seu mandato] era de até 10% de propina. Governos anteriores cobravam, segundo o Arthur. Foi um erro meu de postura, de apego a poder, a tudo isso. Um vício", reconheceu.

A reportagem procura as defesas de Pezão, Sérgio Côrtes e Arthur Soares sobre as acusações de Sérgio Cabral.

Condenado no total a 198 anos e seis meses de prisão, Cabral trocou a sua defesa em dezembro do ano passado. Na época, cogitou-se uma delação premiada do ex-governador. No entanto, o acordo nunca foi confirmado.

"Contaminei o escritório da minha mulher"

Cabral eximiu a sua mulher, a advogada Adriana Ancelmo, de culpa pelo fato de o seu escritório ter se tornado uma espécie de "centro de recebimento de propina e lavagem de dinheiro" das suas gestões. De acordo com ele, a ex-primeira dama, que atualmente cumpre prisão domiciliar, é "uma advogada capacitada e capaz", sem culpa pelas negociatas feitas por ele.

"Eu a enganei, a prejudiquei. Me dói muito. Hoje já não me dói mais [assumir que era propina]. Alguém que tem uma carreira política reconhecida pela população, como eu, dói muito dizer que roubou. Eu contaminei o escritório da minha mulher" afirmou Cabral.

Condenada pelos crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa, Adriana viu sua pena ser reduzida em dezembro pelo TRF-2 (Tribunal regional Federal da 2ª Região) --de 18 anos e três meses, a pena dela por participação nos crimes apurados pela Operação Calicute hoje totaliza 12 anos e 11 meses.

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