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Mais votada, Janaina aponta "fake news" e frustra-se em disputa na Alesp

A deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP) - Carine Wallauer/UOL
A deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP) Imagem: Carine Wallauer/UOL

Aiuri Rebello

Do UOL, em São Paulo

14/03/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Parlamentar mais votada da história, Janaína Paschoal (PSL-SP) disputa presidência da Alesp
  • Deputada reclama de falta de vontade para mudar as coisas, jogo sujo e "fake news"

Deputada mais votada na história de SP desde pelo menos a redemocratização, a deputada estadual Janaina Paschoal (PSD-SP) se diz frustrada. Seus mais de dois milhões de votos nas eleições do ano passado não parecem traduzir-se em força política dentro da Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), onde ela concorre à presidência da Casa contra o deputado Cauê Macris (PSDB-SP) com chances diminutas de sucesso na eleição marcada para amanhã.

Enfrentando uma ampla articulação suprapartidária que apoia o tucano, Janaina conta apenas com os votos dos 15 integrantes de sua bancada mais o do deputado Arthur do Val (DEM-SP), que contrariou orientação do partido e declarou voto na candidata do PSL. Ao todo, votam os 94 deputados.

De acordo com o deputado Campos Machado (PTB), veterano de oito legislaturas na Casa, apenas dois partidos não vão apoiar Macris e a eleição não deve trazer surpresas.

Várias vezes por semana desde o início do ano, Janaina percorre solitariamente os corredores da Assembleia, onde só terá um gabinete para si a partir da semana que vem, bate na porta dos gabinetes e faz campanha, tentando convencer os colegas a votar nela. "Estão fazendo o discurso de que sou metida e não conversei com ninguém", afirma ela ao UOL, após mais um dia de peregrinações.

"O Coronel Telhada [deputado do PSDB], por exemplo, tem dito em declarações na internet que não conversei com ele, mas ele foi justamente um dos que eu procurei. Tentou me convencer da importância de aceitar o comando da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) em troca de retirar minha candidatura e apoiar o PSDB. É inaceitável esse toma lá da cá", afirma a deputada.

Para ela, o que os deputados estão fazendo é arrumar desculpas para não votar nela e apoiar a composição feita pelo tucano. "Uma das coisas que estão dizendo é que eu defendo gays... Vários estão dando este argumento para não votar em mim. Não sei do que estão falando, eu não discrimino ninguém, mas essa não é uma causa minha."

Criaram a tese de que vou tirar os carros oficiais dos deputados, tudo para fugir de admitir que não vão votar em mim porque fizeram acordos com o adversário em torno de cargos na casa.

Caça às bruxas na Alesp

A deputada Janaína Paschoal (PSL-SP) disputa a presidência da Alesp - Carine Wallauer/UOL
A deputada Janaína Paschoal (PSL-SP) disputa a presidência da Alesp
Imagem: Carine Wallauer/UOL

Com um discurso de independência e não oposição ao governo João Doria (PSDB) em São Paulo no evento de lançamento de sua candidatura, ela prometeu um pente-fino nas contratações da Alesp, inclusive com funcionários de gabinetes. Essa disposição, de acordo com alguns colegas ouvidos pela reportagem, assusta em uma Casa acostumada com a distância dos holofotes, votações de propostas por aclamação e decisões com base em acordos com todos ou quase todos os partidos.

"Ela não chegou só prometendo independência em relação ao governo estadual, ela chegou prometendo uma caça às bruxas na Alesp, algo completamente contrário à nossa tradição democrática", afirma um tucano que possui diálogo com Janaína e pede para não ser identificado na reportagem pois não gostaria de antagonizar com ela, pelo menos neste momento.

A truculência de eleitores e apoiadores do PSL e da deputada também não foram bem recebidos pelos deputados na Alesp. No dia que lançou sua candidatura, integrantes do movimento civil Direita SP saíram em coro pelos corredores da assembleia, normalmente vazios e silenciosos, gritando palavras de ordem e batendo na porta dos gabinetes.

Eduardo Bolsonaro, deputado federal pelo PSL-SP, declara apoio a Janaína Paschoal

TV Folha

O pior ainda viria nas semanas seguintes. Algum parlamentar ou funcionário da Casa vazou os números pessoais de telefone celular de vários deputados, que passaram a sofrer pressão, assédio até ameaças anônimas para votarem na candidata do PSL. Deputados ouvidos pela reportagem afirmam que "pegou mal".

Inconformados, deputados de outras siglas acusam colegas do PSL de terem vazado seus telefones, e prometem retaliação. Ala comandada pelos veteranos Barros Munhoz (PSB) e Campos Machado (PTB) trabalha para controlar o Conselho de Ética da Casa e usar o colegiado para enquadrar os novatos por quebra de decoro parlamentar.

São vários os deputados que apostam também que os colegas do PSL terão mais dificuldade de aprovar suas emendas ao Orçamento, assim como colocar projetos em votação ou assumir posições de destaque nas comissões. Janaína e seus apoiadores, aparentemente, sabem disso.

"Quem está me apoiando faz isso por que acredita que precisamos mudar, fazer diferente. Todo mundo sabe que vai ser retaliado depois, que assim vai ter mais dificuldade de se reeleger por que vai ficar de mãos amarradas, mas é o único caminho. Fosse diferente, não faria sentido estarmos aqui", afirmou no lançamento da candidatura.

Independência e não oposição

Apesar de não declarar oposição a Doria, Janaina diz que estranha a postura do governador no pleito pelo comando da Alesp. "Acho estranho o governador seguir apoiando o candidato do seu partido, depois dessas revelações [as supostas irregularidades cometidas por Macris]. Ele não é obrigado a me apoiar, mas será que não há um outro quadro?", questiona.

"Compor com eles seria deixar tudo igual. Não passei por tudo que passei para deixar tudo igual", afirma. "Temos que alterar as formas de as coisas acontecerem. Não dá mais essa política da vassalagem, da servidão."

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