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Fã de Trump, deputado que morava nos EUA "pede" para ir com Bolsonaro

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

2019-03-15T04:00:00

15/03/2019 04h00

Fã do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o deputado federal Luis Miranda (DEM) morava em Miami desde 2014 até setembro do ano passado e, apesar de metade da campanha ter sido feita na cidade, conseguiu se eleger pelo Distrito Federal nas eleições de outubro. Agora, em entrevista ao UOL, diz querer importar o famoso American way of life ao Brasil.

Às vésperas da viagem do presidente Jair Bolsonaro (PSL) aos Estados Unidos, o deputado tem muitas expectativas para o encontro entre Trump e o brasileiro, e, em tom de brincadeira, faz um apelo para que o capitão o convide a integrar a comitiva. Bolsonaro viaja no domingo (17) a Washington.

Alvo de "piadas" por ter sido eleito morando fora do país, Miranda diz que a vitória nas urnas vem do fato de seu eleitor esperar que traga "a dignidade que o americano conquistou ao longo dos anos", como segurança, saúde, educação e acesso a bens de consumo.

Reprodução
Deputado Luis Miranda apresenta seu slogan nas redes sociais Imagem: Reprodução

Embora tenha ressaltado a vida em Miami ao longo da campanha e se tornado conhecido como "Luis Miranda USA" no YouTube, seu gabinete, no fundo de um corredor de um dos anexos da Câmara, não traz apetrechos americanos. Questionado sobre a decoração do local, o deputado pede a um assessor que procure uma bandeira do país, que estaria guardada. Sem sucesso.

Leia os principais trechos da entrevista:

UOL - Na campanha eleitoral, o senhor sempre posou ao lado da bandeira americana, sempre usa nos vídeos do YouTube o nome "Luis Miranda USA" propondo trazer as ideias de lá para cá. Por que o senhor decidiu voltar e se candidatar?

Luis Miranda - Sendo bem sincero, a decisão foi nos 45 do segundo tempo. Não tinha realmente o interesse de fazer parte da política, mas sempre fui um crítico por enxergar visivelmente o abismo social econômico e cultural que existe entre ambos os países. Os Estados Unidos são minha referência número um talvez por ser mais fácil de convencer a população brasileira de que aquilo existe, porque temos aí Hollywood, a penetração da cultura americana dentro dos lares diariamente.
Em agosto, na véspera de encerrar [o limite para] os registros para ser um candidato, um deputado federal fez um desafio dizendo o seguinte: que era muito fácil eu ficar de lá criticando, andando na Lamborghini, falando mal do Brasil. "Venha para cá fazer alguma coisa, se candidate como deputado federal. Aí sim, se você ganhar, poderá fazer alguma coisa pela população brasileira". Isso meio que mexeu comigo, porque ele falou a verdade.

Aceitei o desafio sem nenhuma esperança de vencer. Afinal, estava fora. Metade da campanha feita em Miami.

Miranda fala sobre decisão de ser candidato

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No seu site, o senhor classifica os Estados Unidos como "o lugar perfeito para empreender e morar de forma legal e honesta". Por que o senhor acredita que os Estados Unidos seriam o modelo de modo de vida ideal para o Brasil e não outros lugares também de referência, como países escandinavos?

Nos Estados Unidos, a indústria fabrica um produto, vende para o distribuidor nacional. Quanto ele paga de imposto? Zero. Chama sistema de venda por wholesale. Só paga imposto quando chega na ponta. Viabiliza a geração de empregos.
Não adianta o governo ficar maquiando com números falsos.

Hoje 40% da população brasileira está desempregada, porque não incentiva o empreendedorismo. É nesse ponto que sou apaixonado pelo Estados Unidos, porque o foco número um é fortalecer o empreendedor.

Além de reforma no sistema tributário, no sistema bancário, o que mais acha ser preciso trazer dos Estados Unidos para ter esse "sonho americano" adaptado ao Brasil?

Segurança. A maioria dos empresários mundiais que tem interesse em investir no Brasil alega que o problema não está nem nos tributos. Estão dispostos a pagar os impostos altos do Brasil. Eles não querem é correr o risco de perderem suas vidas e de seus executivos com a criminalidade crescente no Brasil.

Reprodução fev.2017 /Facebook
Luis Miranda com a mulher e cachorro em sua casa na Flórida, EUA Imagem: Reprodução fev.2017 /Facebook

O presidente da República, Jair Bolsonaro, vai se encontrar com o presidente Donald Trump nos Estados Unidos na terça que vem. Qual sua expectativa para essa visita?

O Trump tem uma personalidade espetacular quando se fala de empreendedorismo. Minha esperança é que o Trump passe essa mensagem de uma forma mais objetiva, mais efetiva. Afinal de contas, ele é responsável pela reforma tributária mais eficiente e tão questionada dos Estados Unidos de todos os tempos, que é a redução do imposto de renda da pessoa jurídica de 35% para 21%. Desemprego na América agora está em 3,8%. Quer dizer, é o menor de todos os tempos após a reforma tributária.

Essa visão que o Trump possui, se passar para o Bolsonaro, [este] vai voltar dos Estados Unidos um outro Bolsonaro entendendo que a reforma da Previdência é importante, mas não é a mais importante. Hoje para o Brasil, a mais importante seria a reforma tributária.

O senhor se elegeu defendendo o Bolsonaro, fez vídeo com ele. Percebo que o senhor agora defende que a reforma tributária seja feita antes e também que haja mudanças na reforma da Previdência apresentada. O senhor acredita que Bolsonaro não está agindo como esperava?

Acho que a política tem muito disso, né? As pessoas têm as suas opiniões. O guru da economia escolhido por ele que foi tão discutido na mídia. Acho que está seguindo orientações do seu economista que acredita ser a pessoa competente para tomar essas decisões. Nem atribuo a decisão da reforma da Previdência ao Bolsonaro.

Acha que as opiniões do ministro Paulo Guedes estão erradas?

Acho. Acho que não está errado, está erradíssimo. Ele é muito competente, mas o Brasil está passando por crise absurda na questão de empregos, do empreendedorismo, pequeno e médio empresário. A marca principal do Brasil hoje é "aluga-se" ou "vende-se". E você querer mexer ainda na reforma da Previdência, gerando um desconforto nacional. Até mesmo para poder motivar a população para aceitar uma pancada dessa que é a reforma da Previdência, melhor a reforma tributária esperada e aclamada há 30 anos. Se chega com reforma tributária, descia [a previdenciária] goela abaixo.

Defesa do empreendedorismo e reforma tributária

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O senhor disse que apresentará uma proposta de reforma tributária. Conversou com a equipe econômica?

Conversei com a Casa Civil. Eles entendem que, se trouxer um resultado financeiro que é proposto de aproximadamente R$ 200 bilhões por ano, é extremamente bem-vinda. O objetivo é ajudar o governo a fazer uma reforma da Previdência de forma gradativa, em que a população vá se adaptando.

Voltando à política externa em relação ao Brasil e Estados Unidos, quais ideias que o senhor mais concorda com o Trump?

Acho que os Estados Unidos possuem uma política interna muito voltada para eles. Isso é notório. Em nenhum momento o Trump foi falso. Acho engraçado alguns países ficarem puxando o saco dos Estados Unidos sem reconhecer que os Estados Unidos só defendem os próprios interesses. Sempre foi assim e sempre será. Aí minha admiração pela América. Não é porque acho que serão os melhores amigos do Brasil. Pelo contrário, acho até essa relação um pouco perigosa. O Brasil é muito pequenininho comparado com o poder que possui a América.

Então, o que gosto mais no Trump é o nacionalismo dele. É o interesse em fazer políticas voltadas para que o país cresça. E muitas das vezes cedendo, o que é uma coisa que não vejo muito o Brasil fazendo. Acho que o ponto principal que mais admiro no Trump é ele ter o entendimento de "eu tenho problema com a China, mas não posso deixar de fazer negócio com a China".

O senhor é a favor da construção de um muro na fronteira com o México?

Sou a favor. Sou a favor de todo e qualquer ato que venha a proteger a sua nação. Seja ele de forma a construir o muro, que eu acho que é mais polêmica do que tudo, porque o muro não vai impedir que ninguém entre pelos Estados Unidos. Os mexicanos arrumam um jeito de entrar por tudo que é lugar, até pelo Canadá se for preciso. Mas, no momento em que a proposta for proteger a nação, sou totalmente a favor.

E em relação a uma intervenção militar na Venezuela?

O brasileiro não tem noção do que acontece na Venezuela. Eu tenho. Morei quatro anos em Miami onde tem o maior número de cubanos e venezuelanos fora desses países.
Acho que não só o Trump deveria agir o mais rápido possível e intervir nessa situação, mas como o Brasil. Respeitar a soberania de um país é uma coisa. Aceitar que um genocida continue a fazer o que está fazendo calado, fronteira porta a porta com a Venezuela, é outra completamente diferente. Se fosse eu presidente já teria movido todo o Exército brasileiro para a fronteira e chamado para um acordo. Primeiro um acordo de paz. Se não tem acordo, vamos entrar. Não tem como deixar a população venezuelana ser assassinada.

Deputado defende intervenção na Venezuela

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Além da economia, do empreendedorismo, o que Brasil poderia aprender com os Estados Unidos?

O americano é campeão em privatização. Acho que uma das coisas que devemos aprender é que governo não sabe administrar nada. A prova é que não administra nem a própria casa. Alguns setores, como a área bélica e militar, normalmente países como os Estados Unidos possuem desenvolvimento de tecnologia. Ainda assim, o setor de venda, de consumo, é privatizado. Então, uma das coisas que o Brasil deveria aprender com os Estados Unidos, que acho que é para ontem, é privatização geral. Não tem porquê o Brasil ser dono de companhia, porque o que enxergamos é: Correios? Corrupção aos montes. Bancos? Corrupção, desvio de recursos.

E o que eles poderiam aprender com a gente?

Temos algo que me fez voltar para o Brasil. O brasileiro é vivo, quente. Está sorrindo, está gostando, é participativo. Ele é incansável, não desiste nunca. Após passarmos por tantas dificuldades, o brasileiro se mantém firme acreditando nas mudanças, tendo esperança de que vamos conseguir. Acho que isso é o mais lindo do brasileiro e que não vejo no americano.

O senhor não vai na comitiva...

Convida, Bolsonaro. Convida. Estou com passaporte, visto, tudo em dia. Convida, vai? Chama, chama!

Se pudesse, o que falaria para o Trump?

Primeira coisa, iria parabenizá-lo pela reforma tributária e iria brincar com ele, tirar uma piada. "Convence o meu presidente a fazer a reforma tributária e tirar o Brasil desse problema em que se encontra e ter a chance de termos 3,8% de desemprego". Se fizer isso pelo Brasil, o Brasil se tornará a maior potência econômica do mundo ou estará entre as três maiores. Seria a única palavra que falaria para ele.
"Parabéns pelo o que fez, parabéns por ter se posicionado duramente contra os parlamentares que tentaram impedir a reforma tributária nos Estados Unidos e, mais uma vez, parabéns por ter segurado com pulso forte e ter concretizado sua visão de que iria ter recapitalização, que recursos que estavam fora seriam repatriados". Iria pedir, em tom de brincadeira, que ensine o Bolsonaro a fazer o mesmo, porque é só isso que estamos precisando no Brasil.

Embora seja do DEM, o senhor foi há pouco com parlamentares do PSL à China. A viagem foi muito criticada tanto por colegas quanto por parte da população. A gente sabe que, politicamente, a China ainda é um país fechado. Você não pode procurar por qualquer termo no Google, por exemplo. Economicamente, a gente sabe que está se abrindo cada vez mais e negocia com quem tiver que negociar. Por que o senhor julgou importante ir?

Vamos fazer isso abertamente? Eu vou falar. Você está cutucando, vou responder à altura. Não fui criticado por pessoas que sabem o que é melhor para o Brasil. Fui criticado por uma cambada de ignorantes analfabetos funcionais [referindo-se a jornalistas].
A China não só é a economia mais importante hoje no Brasil, como possui o maior índice de combate à desigualdade social no mundo tirando mais de 10 milhões da pobreza anualmente. Vem combatendo isso por meio da economia aberta, com tecnologia voltada ao mundo digital. Ela já está presente no Brasil há 20 anos. A empresa criticada por um professor que se julga capaz de criticar quem realmente entende do assunto... Sou especialista no assunto com 26 certificações internacionais e não fico apresentando isso nas redes sociais, porque nas redes sociais sou o Luis Miranda USA. Um cara que fica falando da América. O que foi acusado não é que a gente foi para a China. É que fomos para a China nos encontrar com a Huawei. Ninguém perguntou para a gente qual era a agenda. Nenhum repórter se interessou. Tinha 40 reuniões com várias empresas extremamente importantes no mundo. E áreas do setor político. Fomos ao parlamento chinês. Fomos conhecer cidades pobres que há 10 anos as pessoas viviam como no Sol Nascente, [favela] na Ceilândia, nas áreas pobres do Rio, de São Paulo, e, por causa do investimento em empreendedorismo e tecnologia, construíram cidades como Shenzhen da vida, verdadeiro sonho. Não existe nos Estados Unidos nada parecido.

Quando o senhor fala professor, acredito que seja o guru do Bolsonaro...
Olavo de Carvalho.

Justamente. O senhor até falou que processaria ele. Processou? Vai processar?
Tive um encontro com o Eduardo Bolsonaro dentro do plenário e ele falou assim para mim: "mexe com o Olavo não".
Já reconhecendo que ele errou, porque depois que veio à tona que a Huawei já estava presente há 20 anos, 70% das antenas no Brasil são da Huawei, que os quatro últimos satélites enviados pelo Brasil na verdade são chineses, o que ele [Olavo] falou se tornou a maior imbecilidade de todos os tempos. Eu olhei nos olhos dele [Eduardo], dei um sorriso e falei "ok, vou pensar".
Mas sou um cara de ter medo de ninguém não. Só vou pensar no que ele quis dizer com aquilo. Porque, se de fato foi um pedido do governo, vou esperar um pedido formal para a gente entender já. Mas, se foi em tom ameaçador, vou processá-lo até o fim, porque não é assim que se resolve. É com pedido de desculpa. Não é ameaçando não.

Após críticas, Miranda fala sobre Olavo de Carvalho

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