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Cabral pede desculpas e cita Aécio e mais 5 durante depoimento a Bretas

Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

2019-04-05T19:58:37

05/04/2019 19h58

Preso desde novembro de 2016 e condenado a 198 anos e seis meses de prisão em processos derivados da Operação Lava Jato, o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (MDB) pediu hoje desculpas por ter participado de esquemas de corrupção e citou ao menos seis políticos durante depoimento ao juiz Marcelo Bretas,

"A fronteira entre o legítimo e o ilegítimo vai se perdendo, você vai fragilizando os seus conceitos éticos, de regras e princípios", afirmou ele.

Na audiência de hoje, Cabral foi questionado por Bretas quanto ao porquê de seguir recebendo propina, mesmo depois de já ter recebido mais de R$ 100 milhões em valores indevidos, e disse que era uma questão de "amor ao poder". "Tem pessoas que falam comigo: 'você poderia ter sido presidente do Brasil, poderia ter dado mais colaboração ao Brasil'. Poderia se eu não tivesse errado."

O ex-governador disse ainda que queria dar "um recado à nova geração de políticos" e que se desculpa sempre com os filhos e a mulher, Adriana Ancelmo.

A minha recomendação é: a corrupção é uma praga (...) Eu devia ter dito 'não' a tudo isso. É irresistível
Sérgio Cabral

Cabral afirmou que o seu maior arrependimento foi ter reunido empresários envolvidos nos seus atos de corrupção em torno da candidatura de Luiz Fernando Pezão (MDB) ao governo do Rio, em 2014. "Digo a todos os políticos: não tentem fazer os seus sucessores a todo custo. Eu quis fazer o Pezão a todo custo e, para isto, reuni os meus treze principais colaboradores no Palácio Guanabara", afirmou.

Cabral foi denunciado 29 vezes no âmbito da Lava Jato no Rio e trocou a sua defesa em dezembro. Antes, ele assumia o caixa 2 em campanhas, mas jamais falava em corrupção. Após a troca de advogados, mudou a estratégia. Em fevereiro, Cabral admitiu pela primeira vez o recebimento de propina durante seus dois mandatos e apontou o ex-governador Luiz Fernando Pezão (MDB) como recebedor de valores indevidos.

No depoimento de hoje, o ex-governador mencionou políticos filiados a cinco partidos. A maioria, supostamente beneficiados com repasses ilegais da Fetranspor, que gerencia os ônibus no Rio.

  1. Aécio Neves (PSDB)
  2. Anthony Garotinho (PRP)
  3. Eduardo Paes (DEM)
  4. Luiz Fernando Pezão (MDB)
  5. Marcelo Crivella (PRB)
  6. Moreira Franco (MDB)

Leia alguns trechos:

R$ 3 milhões para Aécio Neves (PSDB)

Cabral afirma que negociou doação para campanha de Aécio à presidência

UOL Notícias

"Tenho uma relação afetiva muito grande com Aécio Neves (...) Eu chamei o Lavouras e mandei procurar o Osvaldo que é o homem que cuidava do dinheiro dele. O Aécio não participou da reunião, essa reunião foi entre mim e o Lavouras. Depois, ele [Aécio] me ligou pra agradecer. Eu mandei dar R$ 1,5 milhão pra ele desse dinheiro. Eu mandei dar também R$ 1,5 milhão da OAS pra ele.

Em nota, o advogado Alberto Toron afirmou que "o deputado Aécio Neves desconhece qualquer pedido de apoio feito pelo ex-governador do Rio para a campanha presidencial do PSDB em 2014". A nota ainda diz que "todas as doações realizadas àquela campanha estão devidamente declaradas e foram aprovadas pela Justiça Eleitoral.".

'Caixinha' do transporte no governo de Anthony Garotinho (PRP)

José Lucena/Futura Press/Folhapress
Anthony Garotinho Imagem: José Lucena/Futura Press/Folhapress

"No ano de 1999, surge o Anthony Garotinho como novo governador. Sem o nível do [Leonel] Brizolla de encampação das empresas, ele queria a redução das tarifas. A esta altura, já haviam três grandes empresário do setor no estado: Jacob Barata Filho, na capital, Luiz Carlos Lavouras, na região metropolitana, e Amaury Andrade, no interior. O Garotinho queria colocar o Andrade como seu interlocutor, já que ele dava propina ao Garotinho em Campos dos Goytacazes. Deste modo, a 'caixinha da Fetranspor' no setor executivo seguiu acontecendo no governo no Garotinho"

Em nota, a defesa de Garotinho afirmou que as declarações de Cabral são "fantasiosas e não há nenhuma verdade no que ele disse".

R$ 6 milhões para a campanha de Eduardo Paes (DEM)

"Em 2008, ano eleitoral, tudo foi convertido para campanhas. A campanha de Eduardo Paes (hoje no DEM, na época no MDB) à prefeitura recebeu R$ 6 milhões. Pedi este valor ao Barata e Lavouras, era um pedido pessoal, dentro deste contexto do nosso acordo"

A reportagem do UOL entrou em contato com as defesas de Paes e espera retorno.

Daniel Pinheiro/AgNews
O ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes Imagem: Daniel Pinheiro/AgNews

Pico de doações a Pezão (MDB)

O ex-governador disse que em 2010, na sua campanha à reeleição, recebeu doações de R$ 20 milhões da Fetranspor. Mas foi em 2014 que as doações atingiram os seus valores máximos.

"Àquela altura, havia uma discussão sobre a renovação da licitação das linhas de ônibus. Por conta disto, a campanha do Pezão recebeu R$ 30 milhões".

Zo Guimaraes/Folhapress
Luiz Fernando Pezão (MDB) Imagem: Zo Guimaraes/Folhapress

A defesa de Pezão não respondeu às acusações.

Crivella (PRB) e R$ 1,5 milhão para apoiar Paes

"Assim que acabou o primeiro turno [em 2008], o terceiro colocado na corrida me procurou. Era o Marcelo Crivella (PRB). Eu e ele sempre tivemos uma relação respeitosa e fraternal. (...) Disse que estava sendo pressionado a apoiar o Fernando Gabeira (que disputava com Paes o segundo turno), mas não queria apoiá-lo por questões religiosas. O Armínio Fraga teria oferecido a ele 1 milhão de dólares. Pedi um tempo, liguei para o Eike Batista e fui à casa dele. Expliquei a ele que precisava de US$ 1,5 milhão, ele aceitou pagar. Paes soube desta situação toda e foi no dia seguinte à casa do Eike. Crivella chegou à casa dele e ficou combinado que o Crivella gravaria um vídeo apoiando o Paes, apenas no programa eleitoral que seria exibido na TV Record".

Em um vídeo publicado nas redes socais, Crivella negou o recebimento do valor, disse que "nunca falou com Armínio Fraga" e concluiu dizendo que a escolha por apoiar Eduardo Paes aconteceu por um único motivo: "Ele era o candidato que tinha maior afinidade com os evangélicos".

Moreira Franco (MDB) e a origem da caixinha dos transportes

"Entre 1987 e 1990, por intermédio do então governador Wellington Moreira Franco (MDB), criam-se as soluções jurídicas necessárias para que as empresas deixassem de ser encampadas e a surge a primeira propina na Alerj. O então deputado estadual Gilberto Rodrigues era quem administrava a propina na Alerj. No executivo, Moreira Franco e Carlos Navega [procurador de Justiça morto em 2017] trabalhavam o trâmite de distribuição de propina na Alerj."

Desvios teriam chegado a R$ 144 milhões

Na Operação Ponto Final, na qual foi ouvido hoje, Cabral é acusado pela força-tarefa da Lava Jato no Rio de receber R$ 144,7 milhões do esquema da Fetranspor entre julho de 2010 e outubro de 2016, um mês antes de ser preso.

Questionado por Bretas durante o depoimento, o ex-governador disse que o valor recebido "girava em torno disso, sim". O pedido para audiência foi feito pela defesa de Cabral. Na primeira vez em que foi convocado para depor no âmbito da Ponto Final, no ano passado, ele permaneceu calado.

No mês passado, Cabral admitiu, pela primeira vez, em depoimento ao juiz Bretas, ter recebido propina durante o período em que foi governador do Rio. Aos procuradores, Cabral disse estar "aliviado" ao revelar o esquema --o que indica uma mudança. Preso desde novembro de 2016, Cabral soma nove condenações, cujas penas totalizam 198 anos e seis meses.

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