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Operação Lava Jato


Cabral diz que negociou R$ 3 milhões para campanha de Aécio Neves em 2014

Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

05/04/2019 18h31Atualizada em 05/04/2019 23h19

O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB) disse hoje em depoimento ao juiz Marcelo Bretas --responsável pelas ações em primeira instância da Operação Lava Jato no estado-- que negociou doações de R$ 3 milhões para a campanha do então candidato à presidência da República Aécio Neves (PSDB) em 2014.

As declarações de Cabral ocorreram no âmbito da Operação Ponto Final, um desdobramento da Lava Jato no Rio que apura propinas durante as duas gestões de Cabral a membros dos poderes Executivo e Legislativo.

"Tenho uma relação afetiva muito grande com Aécio Neves. Ele disputava a Presidência da República e estava numa fase de muita dificuldade com a Marina [Silva, hoje na Rede, à época no PSB] em segundo lugar, que tinha passado ele. Ele estava muito deprimido, muito para baixo", relatou o ex-governador, detalhando em seguida um contato com José Carlos Lavouras, um dos principais empresários do setor de transportes no Rio de Janeiro e um dos seus interlocutores no esquema de fraudes investigado pela Ponto Final.

"Eu chamei o Lavouras e o mandei procurar o Osvaldo que é o homem que cuidava do dinheiro dele. O Aécio não participou da reunião, essa reunião foi entre mim e o Lavouras. Depois, ele [Aécio] me ligou pra agradecer. Eu mandei dar R$ 1,5 milhão pra ele desse dinheiro. Eu mandei dar também R$ 1,5 milhão da OAS pra ele. E também R$ 1,5 milhão para o [ex-deputado estadual do MDB] Jorge Picciani."

Em nota, o advogado Alberto Toron afirmou que "o deputado Aécio Neves desconhece qualquer pedido de apoio feito pelo ex-governador do Rio para a campanha presidencial do PSDB em 2014". A nota ainda diz que "todas as doações realizadas àquela campanha estão devidamente declaradas e foram aprovadas pela Justiça Eleitoral.".

Cabral cita outros políticos no depoimento

Cabral (MDB) disse que outros ex-governadores do Rio de Janeiro, como Luiz Fernando Pezão (MDB) e Anthony Garotinho (PRP), receberam dinheiro da Fetranspor (Federação das Empresas de Transportes do estado) para manter o esquema criminoso em seus mandatos. A "caixinha da Fetranspor" seguiu acontecendo no governo de Anthony Garotinho.

O ex-prefeito da capital fluminense Eduardo Paes (DEM), assim como o atual prefeito da capital fluminense, Marcelo Crivella (PRB), também teriam sido beneficiados por negociatas feitas por ele.

"No ano de 1999, surge o Anthony Garotinho como novo governador. Deste modo, a 'caixinha da Fetranspor' no setor executivo seguiu acontecendo no governo no Garotinho", afirmou. A reportagem ainda não conseguiu contato com Garotinho.

"Em 2006, me elejo governador e nessa campanha a Fetranspor me deu cerca de R$ 5 milhões. Picciani se reelege presidente da Alerj e segue administrando o caixa na Alerj. Tinha a informação de que a caixinha do Legislativo era de 1 milhão. A do Executivo era de R$ 420 mil por mês e era eu quem recebia. O então secretário de Transportes, Júlio Lopes ganhava R$ 1 milhão a cada reajuste tarifário", afirmou

"Em 2008, ano eleitoral, tudo foi convertido para campanhas. A campanha de Eduardo Paes (hoje no DEM, na época no MDB) à prefeitura recebeu R$ 6 milhões. Pedi este valor ao Barata e Lavouras, era um pedido pessoal, dentro deste contexto do nosso acordo. Mas, assim que acabou o primeiro turno, o terceiro colocado na corrida me procurou. Era o Marcelo Crivella (PRB). Eu e ele sempre tivemos uma relação respeitosa e fraternal". O encontro, de acordo com Cabral, selou a compra do apoio de Crivella a Paes por 1,5 milhão de dólares.

"Ele me ligou e pediu uma conversa no Palácio Laranjeiras. Disse que estava sendo pressionado a apoiar o Fernando Gabeira (que disputava com Paes o segundo turno), mas não queria apoiá-lo por questões religiosas. O Armínio Fraga teria oferecido a ele 1 milhão de dólares. Pedi um tempo, liguei para o Eike Batista e fui à casa dele. Expliquei a ele que precisava de US$ 1,5 milhão, ele aceitou pagar. Paes soube desta situação toda e foi no dia seguinte à casa do Eike. Crivella chegou à casa dele e ficou combinado que o Crivella gravaria um vídeo apoiando o Paes, apenas no programa eleitoral que seria exibido na TV Record", disse.

Em um vídeo publicado nas redes socais, Crivella negou o recebimento do valor, disse que "nunca falou com Armínio Fraga" e concluiu dizendo que a escolha por apoiar Eduardo Paes aconteceu por um único motivo: "Ele era o candidato que tinha maior afinidade com os evangélicos".

Desvios teriam chegado a R$ 144 milhões

Na Operação Ponto Final, na qual foi ouvido hoje, Cabral é acusado pela força-tarefa da Lava Jato no Rio de receber R$ 144,7 milhões do esquema da Fetranspor entre julho de 2010 e outubro de 2016, um mês antes de ser preso.

Questionado por Bretas durante o depoimento, o ex-governador disse que o valor recebido "girava em torno disso, sim". O pedido para audiência foi feito pela defesa de Cabral. Na primeira vez em que foi convocado para depor no âmbito da Ponto Final, no ano passado, ele permaneceu calado.

No mês passado, Cabral admitiu, pela primeira vez, em depoimento ao juiz Bretas, ter recebido propina durante o período em que foi governador do Rio. Aos procuradores, Cabral disse estar "aliviado" ao revelar o esquema --o que indica uma mudança. Preso desde novembro de 2016, Cabral soma nove condenações, cujas penas totalizam 198 anos e seis meses.

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