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Discussão esquerda-direita mostra Brasil ultrapassado, afirma Ratinho Jr

Henry Milleo/UOL
Carlos Massa Ratinho Jr, governador do Paraná, em entrevista para o UOL Imagem: Henry Milleo/UOL

Vinicius Konchinski

Colaboração para o UOL, em Curitiba

2019-04-13T04:04:00

13/04/2019 04h04

O governador do Paraná, Ratinho Júnior, filho do apresentador e empresário Ratinho, entrou para a política com 21 anos. Ajudado pelo pai, ele reconhece, elegeu-se deputado estadual em 2002, quando era filiado ao PSB (Partido Socialista Brasileiro), alinhado à esquerda.

De lá para cá, foi deputado federal, candidato a prefeito e secretário de governo. No ano passado, foi eleito governador filiado ao PSD (Partido Social Democrático), alinhado à direita.

Hoje administrando o quinto maior PIB entre estados brasileiros (IBGE, 2016), Ratinho afirma que nunca mudou sua forma de agir na vida pública por conta de ideologias partidárias. Ele, aliás, afirma que as discussões existentes hoje no Brasil entre a direita e esquerda mostram que o país está ultrapassado. "Isso é coisa da década de 80.", diz ele, em entrevista ao UOL.

Para Ratinho, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve méritos em seu governo. Já o atual presidente Jair Bolsonaro (PSL) também tem ideias interessantes. Na opinião do jovem governador, de 37 anos, falta agora ao Brasil maturidade para pôr em prática o que dá resultado independentemente da "cor da camisa".

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Henry Milleo/UOL
Carlos Massa Ratinho Jr, governador do Paraná, em entrevista para o UOL Imagem: Henry Milleo/UOL
UOL: O senhor começou na vida pública filiado ao PSB, um partido alinhado à esquerda. Hoje é membro do PSD, alinhado à direita. Qual sua posição ideológica?
Ratinho Júnior: Nunca me pautei por uma questão ideológica, mas sim por uma sensibilidade política e por uma visão que tenho de país. Agora, se você ver meu histórico, vai perceber que os partidos pelos quais passei são de centro. Sempre tiveram equilíbrio. Existem pontos favoráveis na direita e na social democracia europeia. Eu tenho um perfil lógico, prático e resolutivo. Essa discussão entre direita e esquerda tem suas virtudes, mas também tem seus defeitos.

Essa discussão está muito presente hoje no país. O que o senhor acha dela?
É uma discussão extremamente retrógrada. Isso é coisa da década de 80. O mundo não discute mais isso. O mundo discute metodologias de gestão que possam levar qualidade de vida para a população. Estamos ultrapassados.

O senhor foi aliado de Bolsonaro nas últimas eleições e tem buscado parcerias com o governo federal. Ao mesmo tempo, emprestou um avião do governo do Paraná para que o ex-presidente Lula pudesse comparecer ao funeral do neto. Como o senhor se posiciona entre Lula e Bolsonaro?
Os dois têm visões importantes de país, com virtudes e defeitos. A visão social do ex-presidente Lula foi importante para diminuir os flagelos de uma camada da população que sofre muito com falta de oportunidades. Obviamente, seu modus operandi acabou sendo desviado no meio do caminho.

Agora, eu vejo o governo Bolsonaro como uma oportunidade para o país de facilitar a vida de quem gera riquezas: o trabalhador que acorda cedo e o comerciante que dá o emprego. Temos que entender que o maior programa social que uma nação pode dar ao cidadão é a oportunidade de emprego.

As outras alternativas são menores. O modelo que está sendo montado pelo presidente Bolsonaro vai dar oportunidade para que o país se abra para o desenvolvimento econômico e, automaticamente, vai gerar riqueza para a área social.

O senhor vê algum ponto negativo deste novo governo?
Ainda está muito cedo. Analisar um governo em cem dias é ser muito rigoroso. Ele tem uma boa equipe. Alguns ministros estão mais habituados com o cargo, outros menos, mas são bons gestores e têm bons projetos. Acho que é natural que as coisas levem um certo tempo para dar resultado pois o Brasil é um "grande navio". Para você virar esse navio ou adequar o norte, o processo é lento. Acho que se ele conseguir dosar seus posicionamentos --isso talvez seja um grande desafio--, a tendência é que o país cresça bastante e se desenvolva.

O senhor falou em boa equipe, mas dois ministros já foram demitidos: Gustavo Bebianno, ex-secretário-geral da Presidência, e Ricardo Vélez, ex-ministro da Educação.
É natural. Ao montar equipe de uma grande máquina, você não acerta em todos os cargos. O mais importante é que, havendo alguma dificuldade, o presidente tenha a visão e a atitude de trocar. O que não pode é "ficar sangrando", com coisas que não desandam, e não tomar atitude.

Henry Milleo/UOL
Carlos Massa Ratinho Jr, governador do Paraná, em entrevista para o UOL Imagem: Henry Milleo/UOL
O senhor acha que o Brasil precisa de mais diálogo entre oposição e situação, entre direita e esquerda?
Isso é maturidade. O Brasil não precisa inventar a roda. O mundo já fez testes na gestão pública em várias áreas, tanto com a iniciativa privada quanto com o Estado, há muito tempo. Há solução de décadas que podemos implantar aqui. Vamos ver o que o primeiro mundo está fazendo e vamos trazer para dentro, independentemente se isso é uma discussão de direita ou esquerda.

A disputa entre direita e esquerda tem interditado esse diálogo?
Colocar a disputa como foco do país é perda de tempo. Você não faz o que deveria ser prioridade. Temos que ser mais práticos. Existe hoje uma polêmica sobre concessões, mas o mundo já não discute mais isso. Ficar discutindo essa tese é um grande retrocesso, uma grande bobagem.

O que Estados Unidos, Alemanha, Coreia do Sul, Canadá estão fazendo? É pegar dez países com boa qualidade de vida, com boa gestão pública, ver o que estão fazendo e implantar aqui. Agora, não dá para ter como exemplo a Venezuela ou Cuba.

O senhor está disposto a se relacionar com políticos que ocupam hoje os extremos desses polos? Mediar esse debate?
Eu não tenho que mediar nada. Tenho que dar resultado no meu estado.

O senhor almeja algum plano nacional? Ser presidente?
Não. O meu sonho já foi realizado. Obviamente, se a vida me conduzir para um outro desafio, estou à disposição. Mas o meu foco é o Paraná.

Qual a importância do seu pai no seu lado político?
Sou apegado ao meu pai desde muito novo. Com cinco anos, ia ver ele trabalhar em rádio cedinho. Tenho um convívio muito forte. Agora, o meu pai sempre foi relativamente contra eu estar na política. Ele queria que eu ficasse mais focado em ajudar nas empresas. Mas eu sempre tive dentro de mim que tinha que retribuir de alguma forma tudo que o Paraná e o Brasil nos deu de oportunidades. A carreira do meu pai mudou da água para o vinho quando eu tinha 18 anos. Eu entendi isso como uma oportunidade da vida e o mínimo que eu podia fazer era entrar na vida pública e fazer minha parte como cidadão. Se ele teve participação? Imensa. Em especial no começo, quando eu era pouco ou quase nada conhecido. As pessoas votaram em mim acreditando no que ele dizia. Agora, a minha permanência e a construção de minha carreira, aí é uma dedicação pessoal.

O senhor conversa com seu pai sobre projetos? Pede conselhos e sugestões?
Meu pai é um homem que tem uma visão social muito forte. Ele também tem uma responsabilidade ambiental grande. Ele gosta muito de natureza, rio, mato. Ele tem uma propriedade em que 50% da área é mata virgem, quando a lei exige ao menos 20%. Mas conversamos pouco. Naturalmente, falamos sobre o estado, se está indo bem, coisas do dia-a-dia. Mas ele sabe bem dosar essa relação pai e filho, governador e apresentador. Ele é mais um torcedor: "olha, não vai fazer bobagem".

O seu pai aparece na televisão como alguém escrachado. O senhor passa a imagem de um político comedido. No que o senhor é parecido com seu pai? No que é diferente?
Meu pai é um homem lógico e prático. Essas virtudes eu peguei dele. Ele é uma cabeça fácil de lidar. Mas ele é um "italianão". Ao mesmo tempo que te xinga, ele te beija. E tem um defeito grave: ele não sabe falar "não". Às vezes, ele não consegue resolver o problema de uma pessoa, não fala "não", e a pessoa fica chateada com ele. Isso são coisas que eu fui apreendendo a não ter.

Meu pai também tem uma cabeça de empreendedor privilegiada, mas é um pouco desorganizado. Ele abre a picada e alguém tem vir limpando, fazendo o canteiro. Eu acabei sendo essa pessoa nas nossas empresas. Ele via as coisas comerciais e eu organizava. Quando você faz este papel, você tem que ter mais tranquilidade e calma. A política funciona da mesma forma.

A política é, todo dia, um exercício de paciência. As coisas não saem como você planejou, você convive e depende das decisões de outros. Então, eu aprendi tanto com os defeitos quanto com as virtudes de meu pai.

O senhor sabe dizer "não"?
Eu falo. Quando você fala a verdade, você fica vermelho na hora, mas não fica amarelo depois. E não perde a amizade. Quem diz a verdade não morre pagão.

Lourival Ribeiro/SBT
Carlos Massa, o Ratinho, no cenário de seu programa no SBT Imagem: Lourival Ribeiro/SBT
Seu pai é dono de um grande grupo de comunicação no Paraná. Fica mais fácil promover suas propostas com veículos de imprensa da sua família no estado?
É difícil dizer. Ao mesmo tempo que você tem um grupo que poderia ajudar, você acaba tendo concorrentes que não gostam. Eu sempre procurei distanciar a política das empresas. Eu convivo bem com o pessoal de outras empresas. Eu sou radialista desde os 15 anos e nunca falei de política. Eu fui apresentador. Falava de esporte, fofoca e sempre parti para este lado mais comunicador. E tem mais: as pessoas não gostam do político na televisão e no rádio, gostam do comunicador. Eu não levei informações sobre projetos meus para o rádio. Levava informação, brincadeira, entretenimento, música.

O senhor acha que seu grupo de comunicação pode ser visto como um "telhado de vidro" do senhor pelos seus adversários?
Alguém pode dizer que estou na política para beneficiar meu grupo. Tem gente que pode achar que vou prejudicar alguém. Hoje, ninguém tem essa visão. Mantemos um tratamento extremamente respeitoso.

Sua adversária na última eleição para governador, Cida Borghetti (PP), disse que o senhor usou um helicóptero da empresa de seu pai para fazer campanha.
Mentira. Nunca tive helicóptero, nem nossa família. Estava apoiando outros candidatos. Peguei carona em um helicóptero fretado por um deputado. Viajaram na maionese.

O senhor teve o início de seu governo aprovado por 78,4% dos paranaenses numa pesquisa divulgada na última terça. A que credita este resultado?
Não me deixo levar por aprovação. Isso é sazonal. Você está bem. Daqui a pouco manda um projeto menos popular para a Assembleia Legislativa e isso te derruba. Eu tenho buscado de forma incisiva e consistente cumprir com os compromissos que fiz na campanha. Quando falei com iria cortar 50% dos cargos comissionados nas secretarias, eu fiz. Cortamos de 28 para 15. É duro demais, mas fizemos. Também estamos acabando com a mordomia. Queremos acabar com a aposentadoria dos ex-governadores, jatinho alugado. A população tem visto sinceridade no governo. O que não dá para fazer, falamos.

Essa aprovação também está ligada a nossa boa equipe, que conseguiu rapidamente pegar a máquina. Eu tenho um ritmo de trabalho e as pessoas que escolhi têm o mesmo. Nosso time está andando na velocidade que eu desejava.

Quais são suas metas para o Paraná?
Nosso governo tem um tripé: gestão eficiente; planejamento em infraestrutura, porque isso atrai investimento privado, negócios e gerar emprego; e visão social. Queremos melhorar de fato a vida das pessoas, em especial das mais humildes. Temos um planejamento estratégico.

Primeiro, queremos mostrar que o Paraná é o maior produtor de alimentos por metro quadrado do planeta. Quando alguém tiver no Japão ou na China e pensar que precisa comprar comida, ele terá que olhar para nós. Ele pode até olhar para o Brasil, mas, se pensar no melhor, pensará no Paraná.

Segundo, quero ser o hub logístico da América do Sul. Temos um grande porto em Paranaguá. Vou lançar um pacote de R$ 300 milhões em obras em rodovias, ferrovias, aeroportos e mobilidade urbana para preparar o Estado para ser esse hub logístico. E tenho buscado convencer o governo federal de que podemos criar um novo Canal do Panamá pelo Paraná ligando o porto de Paranaguá ao porto de Antofagasta, no Chile, com uma ferrovia. O Paraná é o ponto mais próximo dos locais de produção de 70% do PIB da América do Sul. Somos o centro do mercado produtor e consumidor. Temos demanda para um projeto deste.

Como estão as negociações para a construção desta ferrovia?
O Chile tem muito interesse. O presidente Bolsonaro falou com o presidente do Chile [Sebastián Piñera]. Eles concordam que esse é o grande projeto para os dois países. O Paraguai tem todo interesse. Falei com o presidente [Mario Abdo Benítez] num evento em Brasília. E a Argentina, não vejo por que não tenha interesse. Então, estou promovendo reuniões com embaixadores para ver se a gente consegue arredondar isso politicamente. Primeiro, tenho que ver se todos querem. Depois, veremos quem paga o projeto. Aí vamos ver quem vai fazer. Acho que se a gente vencer a parte política, aí a Itaipu pode vir como uma parceira para financiar o projeto. Depois, fazemos uma concessão de 40 anos ou 50 anos. Gente para investir tem.

Uma ferrovia desta estaria operacional em quanto tempo?
Se tudo der certo, em dez anos. Não é um negócio para meu governo. Mas o agronegócio do Paraná dobra de tamanho a cada dez anos. Se eu tenho uma saída para o Pacífico, você diminui em 30% a 40% o frete para a Ásia, que é o maior mercado consumidor.

Existem críticas de que o Brasil precisa desapegar deste modelo agroexportador. O Paraná não considera isso?
O Brasil tem que entender qual é sua vocação. Da mesma forma que a Alemanha fez da sua matriz econômica a engenharia; a Coreia do Sul e Japão, tecnologia; Estados Unidos, indústria bélica. Nós temos que aprender como a nossa matriz.

Em que nós somos bons? O que ninguém faz como nós fazemos? É produzir alimento. Isso é imbatível no Brasil. Um dos grandes medos do mundo, dos Estados Unidos e da China, é nosso domínio sobre uma necessidade básica para a sobrevivência. O problema é que o Brasil não assume isso e se profissionaliza.

Isso aconteceu de forma espontânea pelo esforço dos produtos rurais. Mas o que o Estado fez? Muito pouco. Não temos portos e estradas decentes. Imagina se tivéssemos a infraestrutura dos Estados Unidos ou Europa, ninguém segurava o Brasil. Então, penso que temos que assumir essa bandeira e ter um incentivo para que tenhamos a indústria de transformação de alimentos. Pegar o porco e fazer virar bacon. Com isso, geramos emprego e valor agregado.

O senhor acha que decisões do governo federal, como a abertura de um escritório em Jerusalém e um alinhamento com os EUA, podem prejudicar as exportações de carne a países muçulmanos ou soja para China?
Qualquer movimento desse tipo tem que ter cautela. Não estou aqui para julgar se é bom ou ruim ter um escritório em Jerusalém. Confesso que tenho limitações para ver todas as dimensões. Mas o impacto comercial deve ser analisado. Sempre tivemos um bom relacionamento com todos os países. O Brasil é um país querido no mundo todo. Todo mundo tem uma imagem boa do Brasil, de um povo bom, batalhador. Acho que temos é que fazer relações públicas e vender o país, atrair o máximo de comprador. Ser bom comerciante.

O governo federal diz que não fará negócio por ideologia, mas está fechando portas?
Essa ideologia que se falava tanto era no relacionamento com Cuba, Venezuela, esses empréstimos que não eram transparentes. E tem que acabar mesmo. Tem que ter um relacionamento mais pensando em business (negócios).

O senhor defende alguns projetos tidos como impopulares, como a reforma da Previdência.
Isso não é impopular. Nós temos que ter um encontro com a verdade: se não fizer a reforma da Previdência, todo mundo quebra. Não é governo, não é o setor privado. Todo mundo vai se afogar junto. É uma necessidade de sobrevivência da nação. Agora, eu acho que a reforma tem que combater em especial os privilégios.

Por que 1 milhão de aposentados consomem 35% da Previdência? Está errado. Temos que começar cortando aposentadoria de juiz, de promotor, de político e assim por diante.

O projeto que está no Congresso faz isso?
Ele dá uma boa equilibrada. Pode ser que haja ajustes na Câmara. Mas eu acho que temos uma reforma que vai equilibrar as disparidades entre os que se aposentam com muito dinheiro e aqueles que trabalham 35 anos para se aposentar com muito pouco.

O Paraná fechou uma parceria com o Ministério da Justiça para um projeto-piloto para segurança na fronteira. Governos tentaram inúmeras vezes combater o tráfico e o contrabando. Em sua opinião, o Paraná está sofrendo com o narcotráfico?
Vou apresentar os dados da segurança pública em breve. Em Curitiba, houve uma redução de 37% nos homicídios no primeiro trimestre comparado com o mesmo período do ano passado. Agora, temos uma situação geográfica que nos traz coisas boas e ruins. Fazer fronteira com dois países [Paraguai e Argentina] atrai o contrabando de cigarro, de armas e o tráfico de drogas. O Brasil nunca se preparou com uma política de segurança de fronteira. Acho que o Ministério da Justiça tem buscado uma estratégia de inteligência para monitorar essa zona. É importante para a defesa do Brasil, como soberania, e é também uma maneira de dificultar o acesso a coisas ruins.

O senhor não considera apoiar medidas alternativas para o combate ao tráfico de drogas, como a legalização das drogas?
Não sei se a gente tem maturidade para isso. É uma maturidade cultural. Nós temos muito problema com alcoolismo, boteco. Hoje, grande parte da violência é porque a pessoa fica até meia-noite bebendo, vai para casa e bate na mulher e no filho. Essa maturidade não sei se temos. Tem países em que deu certo. Na Holanda deu. A Califórnia está avançando. É um processo difícil de avaliar.

O ministro Sergio Moro criou um grupo de trabalho para avaliar uma mudança na tributação do cigarro para combater o contrabando. O que senhor acha?
Não acho ruim. As pessoas já consomem, a lei permite. É uma droga lícita. Hoje, há uma venda grande do cigarro contrabandeado porque os impostos fazem com que o cigarro brasileiro tenha um preço muito além daquilo que vem pelo contrabando. Pode ser que, diminuindo o preço, a pessoa compre o cigarro industrializado no Brasil e não compre o cigarro contrabandeado, que não ajuda em termos de impostos e que ninguém sabe o que está sendo usado na fabricação. Mas isso é uma hipótese.

O seu secretário da Casa Civil, Guto Silva, foi citado numa delação premiada obtida na investigação sobre o esquema nos pedágios. Ele teria recebido R$ 100 mil em dinheiro vivo para sua campanha eleitoral em 2014. Seu secretário cometeu algum crime?
Eu confio no trabalho do Guto. Nada até hoje fez com que eu deixasse de acreditar no trabalho dele e na sua idoneidade. A gente tem que esperar a Justiça julgar. Hoje, qualquer pessoa pode chegar de forma anônima no Ministério Público, falar de mim e uma investigação começar. Todas as pessoas no meu governo estão dentro da Lei da Ficha Limpa. E, se houve algum problema, essa pessoa automaticamente vai sair. Por vontade dela ou por minha. Agora, não posso ser o juiz deste processo.

Um ex-assessor do senhor, Lourival Pavão, foi preso no final do ano passado acusado de cobrar propina por consultas médicas em hospitais públicos. O senhor soube de algo?
Não. Nunca soube. Confesso que sempre foi um bom funcionário. Fez um trabalho sério. É uma pessoa humilde. Tem uma vida simples. Não acredito que tenha feito isso.

O senhor foi secretário de Desenvolvimento Urbano do governo de Beto Richa, que está preso acusado de corrupção. O senhor desconfiou de irregularidades no governo?
Para mim, ele nunca pediu nada errado e nunca deixou transparecer que estava fazendo. Quem tem que julgar é a Justiça.

Como vê o impacto da prisão de um ex-governador do estado? Há mal-estar, ou mesmo medo no meio político? Há algum exagero já que ele não foi condenado?
Não posso avaliar pois não sou jurista. Mas a pior desonra é a desonra pública. Toda pessoa que tiver culpa comprovada tem que ser punida. Agora, até fora da política, temos visto alguns casos de desonra pública que depois não se concretizam na Justiça. Dou um caso emblemático que é do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina [Luiz Carlos Cancellier]. Era um homem sério, foi desonrado perante seus alunos e funcionários e se matou. Quando mexe-se na honra da pessoa, temos que ter cautela. Quando você desonra uma pessoa sem a comprovação, você desonra também o filho que vai para escola, o neto, o pai. Hoje, tudo está tão automático. Chamam de ladrão depois não provam, soltam.

O senhor nomeou o delegado da Polícia Federal Felipe Hayashi, ex-integrante da Lava Jato, como diretor do Departamento de Justiça da Secretaria de Justiça, Família e Trabalho. Como o senhor vê o trabalho da Lava Jato? Acha que a operação ultrapassa alguns limites ou exagera?
A Lava Jato só fez bem ao país. Expôs as vísceras da corrupção. Até anos atrás, não havia gente graúda presa. Deputado, ministro, essas coisas. Agora, não é só com a Lava Jato, é com tudo: é preciso ter muita cautela. Não é não investigar, é ter cautela com a espetacularização que se dá a alguns fatos.

Investigações contra Beto Richa apontam que o povo do estado do Paraná foi vítima de um esquema de corrupção envolvendo concessionárias de pedágio vigente desde a década de 1990. Os contratos terminam em 2021, no seu governo. O sr. pretende mudar algo? Qual o seu plano para as rodovias?
Existe uma investigação acontecendo, que cabe a eles arredondar e pedir à Justiça a punição. Eu olho, daqui para frente, como melhorar essas concessões. Montamos um grupo de trabalho com o Ministério da Infraestrutura. Vamos delegar esses 2.400 km de rodovias já concedidas ao governo federal, incluir outros 1.000 km de rodovias num novo pacote de concessão e fazer algumas exigências: que a licitação seja na Bolsa de Valores para que o mundo possa ver e fiscalizar, que haja uma redução de 50% nos valores dos pedágios e que as obras sejam feitas no início do contrato. Este foi o grande erro do contrato vigente. Ele jogou as obras para serem realizadas em 20 anos. Elas foram feitas de forma extremamente lenta.

Apesar desse esquema envolvendo concessionárias, o senhor parece apostar em concessões e privatizações para desenvolver o estado. Por quê?
O problema não está na concessão, e sim não maneira como ela foi feita. O modelo de concessão deu certo no mundo inteiro. O que está errado é a forma como a licitação foi feita e a demagogia feita em cima dessas concessões.

PERFIL

Nome: Carlos Roberto Massa Júnior

Idade: 37 anos

Profissão: Empresário

Estado Civil: Casado

Filhos: Duas meninas e um menino

Religião:Pai católico e mãe evangélica; segue o cristianismo

Time do coração: torce pelas equipes do Paraná

Patrimônio total declarado: R$ 13.431.360,60

Partido: PSD

Cargo: Governador do estado do Paraná