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Caixa 2: empresário pagou R$ 6 mi a Paes e R$ 5 mi a Lindbergh, diz Cabral

Paes (e) e Cabral em carreata durante a campanha de 2012 para a prefeitura do Rio - Divulgação
Paes (e) e Cabral em carreata durante a campanha de 2012 para a prefeitura do Rio Imagem: Divulgação

Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

01/07/2019 16h26Atualizada em 01/07/2019 17h02

O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB) afirmou na tarde de hoje em depoimento ao juiz Marcelo Bretas --responsável pelas ações em primeira instância da Lava Jato no Rio -- que o empresário Arthur Soares pagou R$ 6 milhões, via caixa 2, para a campanha de Eduardo Paes (atualmente do DEM, na época no MDB) à prefeitura do Rio, em 2008.

No depoimento, Cabral disse que ajudou a intermediar o pagamento à campanha do seu então correligionário. Em nota, Paes afirmou que todas as doações de campanha foram aprovadas pela justiça (leia mais abaixo).

O Eduardo Paes era inexpressivo do ponto de vista eleitoral àquela altura, mas eu o apoiei e precisava de investimentos para esta candidatura. O crédito desta doação de campanha é meu
ex-governador Sergio Cabral

O empresário está foragido desde 2017. Além de pagar propina e Caixa 2 a governantes, ele é suspeito de ter comprado votos de membros africanos do Comitê Olímpico Internacional para que o Rio de Janeiro fosse escolhido sede dos Jogos Olímpicos de 2016, por isso o depoimento foi prestado no âmbito da Operação Unfair Play [um desdobramento da Lava Jato no Rio que se dedica aos crimes cometidos no contexto da realização da Olimpíada].

Questionado por Bretas se teria havido alguma contrapartida da prefeitura para esta doação de campanha, Cabral afirmou que Paes foi decisivo, posteriormente, para que a Facility (empresa de propriedade de Soares) assumisse os serviços do Centro de Operações da Prefeitura.

Em outra audiência, realizada na próxima quinta-feira (4), também no âmbito da Unfair Play, Cabral deve falar sobre a suposta compra de votos. Na audiência de hoje, Cabral se resumiu a explicar como o empresário se tornou o principal fornecedor de mão de obra terceirizada do Rio.

Propina ao governo Garotinho

No depoimento, Cabral afirmou que soube dos primeiros pagamentos de propina feitos por Arthur Soares nos anos 1990, quando era presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).

"Conheci o Arthur Soares na época em que eu era presidente da Alerj, entre os anos de 1995 e 1998. Ele já se articulava com alguns parlamentares àquela altura. Estive com ele duas ou três vezes, no período em que Marcelo Alencar [PSDB] era o governador. No governo de Anthony Garotinho (PRP), a partir de 1998, ele passou a ter uma participação mais decisiva", afirmou o ex-governador.

["Soares] Tinha uma proximidade grande com o coordenador de campanha do Garotinho, Jonas Lopes [atualmente conselheiro aposentado do TCE (Tribunal de Contas do estado)]. Jonas Lopes intermediava a entrada de propina no governo Garotinho e o Arthur Soares deteve os serviços de limpeza e segurança do estado até o final do governo de Rosinha Garotinho (PRP), em 2006", disse Cabral.

Doação para Cabral e Lindbergh

No depoimento, o ex-governador admitiu que também recebeu propina e Caixa 2 do empresário. "Em 2002, ele se aproxima de mim na minha candidatura ao Senado. Ele doou R$ 1 milhão para a minha campanha e passamos a nos encontrar nos Estados Unidos com frequência. Quando me elegi governador, em 2006, ele doou R$ 5 milhões como caixa 2", garantiu Cabral.

O valor teria se repetido quatro anos depois, quando Cabral se reelegeu governador. Segundo o emedebista, os repasses também foram feitos a Lindbergh Farias (PT).

"Em 2010, como a campanha foi muito grande, Arthur deu R$ 5 milhões à minha campanha, mas deu mais 5 milhões à campanha do Lindbergh Farias ao Senado, a meu pedido, já que o apoiava".

R$ 30 milhões em doações

Contudo, Cabral disse que seu relacionamento com o empresário se diluiu nos anos seguintes. "Em 2011, fortes chuvas atingiram o Rio, o Corpo de Bombeiros estava em greve, e um grave acidente aéreo envolvendo esposa de Cavendish e a minha nora me abalaram muito. As minhas relações comerciais foram muito diluídas", declarou.

"Em 2012, o Arthur Soares me disse 'vou honrar os valores que estou sem te pagar. Preciso fazer este pagamento fora do Brasil'. Era algo em torno de R$ 14 milhões que foi repassado em um valor estabelecido em dólares. Na eleição seguinte, em 2014, ele me disse que ajudaria o Pezão a se eleger governador, mas disse que estava chateado comigo. Disse que era meu amigo, mas havia ganhado menos dinheiro comigo do que com Garotinho e Rosinha", afirmou.

Questionado quanto ao valor total que teria recebido de Arthur Soares ao longo dos anos, Cabral estimou algo em torno de R$ 30 milhões. "No total, entre doações para mim, repasses através do Caixa 2 para minha campanha e do Eduardo Paes, ele me deu algo em torno de R$ 30 milhões", concluiu.

Outro lado

Em nota, a assessoria de Eduardo Paes afirmou que todas as doações para campanhas do ex-prefeito "sempre foram realizadas de forma voluntária e espontânea. As doações foram declaradas e devidamente aprovadas pela Justiça Eleitoral. Aliás, o próprio Sr. Sérgio Cabral já admitiu perante o Juiz Marcelo Bretas que Eduardo Paes não fazia parte da sua organização".

A reportagem não conseguiu contato com os ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho e com o ex-senador Lindbergh Farias.

A defesa de Jonas Lopes ainda não se manifestou sobre as falas de Cabral.

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