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Grupo de direita da periferia de SP cresce com linha dura e polêmicas

Carine Wallauer/UOL
O corretor de seguros Edson Salomão, o deputado estadual Douglas Garcia e o advogado Jorge Luiz Saldanha (da esquerda para a direita): fundadores do Direita SP Imagem: Carine Wallauer/UOL

Aiuri Rebello

Do UOL, em São Paulo

2019-07-07T04:00:00

2019-07-08T12:03:06

07/07/2019 04h00Atualizada em 08/07/2019 12h03

Resumo da notícia

  • Grupo de direita composto por integrantes da periferia de SP cresce em meio a confusões
  • Histórico tem bloco de Carnaval em homenagem à ditadura, ameaça de tapas e briga de rua
  • Nascido em 2016, nas eleições do ano passado o Direita SP elegeu seu primeiro parlamentar
  • Negro e gay, Garcia já enfrenta 3 processos no Conselho de Ética por declarações polêmicas

"Bem-vindo à diversidade", afirma o deputado estadual Douglas Garcia, 25 anos, ao receber a reportagem do UOL em seu gabinete na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo). O tom é de deboche, mas é difícil discordar.

Naquele fim da tarde da quarta-feira (3), o escritório abrigava uma dezena de jovens (são 21 funcionários ao todo, alguns mais velhos) oriundos da periferia e da região metropolitana de São Paulo: tem gente de Itapevi, Ferraz de Vasconcelos, Heliópolis e outras comunidades carentes. No grupo deles tem evangélico, católico, umbandista e judeu. Alguns trazem tatuagens, outros piercings, e homossexuais são bem-vindos. A informalidade impera.

À primeira vista não parece o gabinete e a turma de um deputado do PSL, que construiu sua curta e meteórica carreira política como representante de um movimento que é antagonista de bandeiras e personalidades de esquerda, defende irrestritamente o governo Jair Bolsonaro e pautas como o porte de armas, e possui uma postura de truculência em relação a outros movimentos e políticos com visões diferentes.

Representante máximo do Direita SP, grupo conservador criado na internet em 2016 e formado na maioria por jovens da periferia que seguem as ideias do escritor Olavo de Carvalho, Garcia é negro, gay e de direita.

De salário mínimo para R$ 25 mil ao mês

Até o ano passado era também pobre e favelado - antes de entrar para a política, trabalhava como repositor de estoque em uma loja da zona Sul da capital em troca de um salário mínimo. Agora, com o salário de deputado estadual de R$ 25,3 mil, conseguiu tirar os pais e os quatro irmãos mais novos da favela Buraco do Sapo, na zona Sul de São Paulo, onde todos viviam juntos até o início do ano. "Cheguei a passar fome durante a campanha", contrapõe.

Carine Wallauer/UOL
A vida do deputado estadual Douglas Garcia (PSL-SP) mudou radicalmente desde que ele criou o Direita SP: de uma favela na zona Sul da capital e de um emprego de repositor de estoque para a Alesp Imagem: Carine Wallauer/UOL

"Não existe nenhuma contradição", adianta-se o deputado em explicar. Ele diz que para algumas pessoas é uma surpresa, mas o pobre brasileiro é de direita." Eu nunca tive nenhum problema de andar pela quebrada com a camiseta do Bolsonaro, por exemplo, geral sempre respeitou. Agora, quando tentei fazer isso em universidade de playboy e Higienópolis [bairro nobre da zona Oeste de São Paulo], quase apanhei na rua, fui muito hostilizado."

"A maioria dos integrantes do Direita SP vem de áreas carentes da região metropolitana e do estado", diz Garcia. "Há uma afinidade natural do jovem da periferia com as ideias e propostas da direita, mas muitos ainda não sabem disso."

"Era de direita e não sabia"

"Eu mesmo era de direita e não sabia", diz Garcia. Ele conta que seu despertar político aconteceu nas manifestações que varreram o país e derreteram a popularidade da então presidente Dilma Rousseff em 2013. Até então, achava que era de esquerda. "Era um negócio muito forte e eu fui para a rua protestar. Lá, vi movimentos de esquerda querendo apropriar-se da pauta, e também um pessoal com cartazes e bandeiras do Brasil com quem eu me identifiquei bem mais."

Em meio às jornadas de 2013, Garcia conta que começou a estudar política cada vez mais, na internet. "Começa daquele jeito, passa um post na sua linha do tempo, outro... uma hora você clica e as coisas começam a vir, uma vai puxando a outra", afirma. De clique em clique e conteúdo sugerido pelo algoritmo das redes sociais em conteúdo, Garcia chegou aos vídeos do astrólogo e escritor Olavo de Carvalho, considerado o guru ideológico do presidente, seus filhos e seus seguidores mais radicais. "Aí fiz e terminei minha formação política, está tudo ali."

Zanone Fraissat/Folhapress
"Nunca tive problema para usar a camiseta do Bolsonaro na periferia, mas na área nobre é diferente", afirma Garcia (19.09.2018) Imagem: Zanone Fraissat/Folhapress

O caminho percorrido para a formação política foi parecido para Edson Salomão, corretor de seguros de 42 anos, fundador do Direita SP junto com Garcia e seu chefe de gabinete.

"Eu nunca me interessei muito por política", afirma. Ele é uma espécie de mentor do jovem. "Mas em 2013 minha corretora de seguros começou a enfrentar os efeitos da crise econômica, tive de demitir funcionários e pouco tempo depois estava operando no esquema 'home office'. Nesse meio tempo fui me interessando, procurando entender o que estava acontecendo com a minha vida, e a coisa foi crescendo, veio a Lava Jato..."

No início de 2016, o então repositor de estoque e hoje deputado e o corretor de seguros lotado como chefe de gabinete encontraram-se, em um evento criado no Facebook. "Eu criei um evento, que era uma manifestação de apoio às ideias do deputado Jair Bolsonaro, e o Edson me chamou para conversar no inbox."

As conversas começaram e aos dois juntou-se o advogado Jorge Luiz Saldanha, de 28 anos, assessor jurídico no gabinete de Garcia. "O meu despertar foi diferente, eu acho que fui um dos 'originais'", afirma.

"Por volta de 2011, eu assisti a um episódio do programa de CQC [então exibido pela TV Band], onde havia uma entrevista com o Bolsonaro [então deputado federal], onde respondia a uma pergunta da Preta Gil sobre o que acharia se um filho dele casasse com alguém negro", diz o advogado. "Na resposta ele dizia que isso nunca ia acontecer por que os filhos dele tinham boa educação. Eu fiquei muito bravo porque aquilo era muito racista. Mas quando fui pesquisar o assunto melhor na internet, vi que a resposta tinha sido editada, ele nunca respondeu aquilo, e comecei a seguir as ideias do presidente."

Ettore Chiereguini/Futura Press/Folhapress
Membros do Direita SP discutem com integrantes do MBL durante confusão entre os dois grupos em protesto na Avenida Paulista, no domingo passado (30) Imagem: Ettore Chiereguini/Futura Press/Folhapress

Estava criado o Direita SP, movimento político da sociedade civil presente em mais de 40 cidades do estado, com 1.500 membros filiados e que em três anos depois conseguiu eleger seu primeiro parlamentar com 75 mil votos tendo gasto pouco mais de R$ 10 mil. "A maioria em doação de panfleto do partido, dinheiro mesmo era muito pouco", afirma o deputado. Eles afirmam que o movimento, apesar de contar com doações, venda de produtos e filiações, é deficitário.

"A gente podia estar maior e ter mais membros, mas somos muito criteriosos ao aceitar uma filiação. Quem entra, tem que fazer o nosso curso de formação política. Assim, acaba existindo uma afinidade muito grande entre as ideias dos membros. Quem é a favor do aborto ou contra o porte de armas, que são duas pautas inegociáveis nossas, nem entra", diz.

O curso, com cerca de dois anos de duração e 40 horas de vídeos, é ministrado em sessões presenciais nos núcleos regionais e com vídeo-aulas desenvolvidas e ministradas por um discípulo "certificado" de Olavo de Carvalho.

Confusões em série

Membros do Direita São Paulo fazem batucada e criticam o MBL

TV Folha

Na semana passada, o Direita SP voltou a chamar a atenção quando protagonizou uma escaramuça com integrantes do MBL, durante a manifestação a favor do juiz Sergio Moro, da Operação Lava Jato e de pautas do governo federal.

Encerrado o primeiro semestre na Alesp, Garcia é alvo de três processos no Conselho de Ética da Casa por conta de declarações polêmicas. Um deles por ter promovido a exibição de um filme de defesa da ditadura militar em um auditório da Assembleia. Outro, por ter chamado professores grevistas de vagabundos. No mais famoso, em meio a uma discussão em plenário com a deputada transexual Erica Malunguinho (PSOL-SP), disse que se encontrasse uma transexual no mesmo banheiro feminino que sua mãe ou irmã, tiraria a tapas e chamaria a polícia.

A declaração pegou mal dentro e fora da casa legislativa. Acuado por acusações de homofobia, transfobia e a ameaça de cassação, Garcia fez uma revelação que trouxe uma reviravolta para o caso: assumiu publicamente que é gay.

"Meus amigos mais próximos e o pessoal do Direita SP já sabiam, mas minha família não. Depois do episódio com a deputada Érika, distorceram tudo e a notícia correu. Dois rapazes com quem eu já tinha me relacionado me procuraram, disseram que era um absurdo aquilo e que iam contar para todo mundo que eu era gay. Se era para meus pais saberem, que fosse por mim", afirma.

"Meu pai é pastor, estava receoso da reação dele. Pra minha surpresa, foi superpositiva. Ele e minha mãe me abraçaram e disseram que me amavam e tinham muito orgulho de mim, e que isso não mudava", diz. "Pensei bem, se minha mãe e meu pai estão do meu lado, nada mais importa."

Além do deputado, o Direita SP também já ficou famoso na Alesp e em outras casas legislativas do estado por conta do que chamam de ocupação legislativa. "É uma estratégia nossa, de fazer pressão sobre os parlamentares. Vamos nas sessões públicas, aparecemos nas Casas, por vezes vamos ao gabinete e cobramos os projetos que consideramos importantes."

Reprodução
A deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL-SP) é a primeira parlamentar transexual na Alesp: discussão com Garcia levou o colega para o Conselho de Ética após declaração transfóbica Imagem: Reprodução

A tática, que por vezes é traduzida em um grupo organizado em plenário que grita palavras de ordem e assusta os incautos e parlamentares alvo da pressão, já rendeu dor de cabeça na Alesp.

No lançamento da candidatura da deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP), a mais votada na história do estado com dois milhões de votos, à presidência da Alesp, o grupo fez bastante barulho no auditório e percorreu corredores e gabinetes fazendo uma passeata em favor da candidatura.

Acostumados ao silêncio e discrição na casa legislativa, alguns parlamenteares e funcionários ficaram assustados. "A gente espera isso do sindicato dos professor, que é historicamente muito barulhento, mas vindo da direita pegou a gente de surpresa", afirma um assessor parlamentar.

Pior que isso, os deputados começaram a receber pressão em seus emails e números de telefone pessoais de desconhecidos, o que causou enorme embaraço e a desconfiança de que militantes do Direita SP estivessem por trás da ação. Eles negam com veemência.

O Direita SP já havia ganhado notoriedade antes das eleições, com dois episódios que chamaram a atenção e viraram notícia nos principais veículos do país.

No Carnaval de 2018, o Direita SP lançou o bloco "Porão do DOPs", em referência a um dos órgãos da ditadura brasileira responsável por torturar presos políticos. "A gente não é a favor da tortura, mas precisávamos nos posicionar", diz Garcia.

Antes disso, em 2017, outra confusão que virou notícia: um entrevero entre o grupo e uma turma de manifestantes contrários a eles, composta por brasileiros e migrantes, na Avenida Paulista, teve até explosão de bomba. "Eles que fizeram uma emboscada e vieram para cima da gente. Estávamos fazendo uma marcha contra a Lei de Imigração, aí eles apareceram jogando a bomba e correndo para cima", diz. O episódio terminou com alguns feridos leves de lado a lado e uma investigação criminal em curso. "Ainda bem que temos vídeos nítidos onde dá para ver que são eles que começam."

Cris Faga/Fox Press Photo/Folhapress
Integrantes do movimento Direita São Paulo protestam contra Lei da Migração, na avenida Paulista em São Paulo: manifestação terminou em confusão e teve até explosão de bomba caseira (16.mai.2017) Imagem: Cris Faga/Fox Press Photo/Folhapress

O Direita SP diferencia-se de outros grupos mais à extremidade da direita política por não defenderem a volta da ditadura nem o fechamento do STF (Supremo Tribunal Federal) ou do Congresso. "Somos democratas", afirma Douglas.

Para as eleições municipais do ano que vem, o Direita SP pretende lançar candidatos a vereador na capital e até um prefeito no interior. Sobre os processos que ameaçam seu mandato, Garcia está otimista. "Conto com o espírito republicano e democrático dos deputados. Eu tenho imunidade parlamentar par expressar meus pontos de vista, mesmo os mais polêmicos."

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