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Bolsonaro desqualifica 434 mortes identificadas pela Comissão da Verdade

Jair Bolsonaro durante reunião da Comissão de Ética Pública - Isac Nóbrega/PR
Jair Bolsonaro durante reunião da Comissão de Ética Pública Imagem: Isac Nóbrega/PR

Guilherme Mazieiro

Do UOL, em Brasília

30/07/2019 10h49

Após ataques à memória do pai do presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), o presidente Jair Bolsonaro (PSL) desqualificou hoje os estudos feitos pela Comissão Nacional da Verdade. O grupo, criado no governo Dilma Rousseff (PT), analisou casos de mortes e desaparecimentos de pessoas durante a ditadura militar, entre 1964 e 1988.

"Você acredita em Comissão da Verdade? Qual foi a composição? Os sete membros foram indicados por quem? Pela [ex-presidente] Dilma", afirmou Bolsonaro.

As análises da comissão consideraram casos de militantes de esquerda e oficiais do Estado, durante a ditadura. Em relatório concluído em 2014, a comissão identificou 434 mortos ou desaparecidos durante o período.

Desse total, 191 mortos foram identificados, 210 foram considerados desaparecidos e 33, desaparecidos cujos corpos tiveram seu paradeiro posteriormente localizado.

Bolsonaro disse ontem que, se o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, quiser saber onde está o pai dele, ele poderia contar. O pai de Felipe, Fernando Augusto de Santa Cruz, desapareceu em fevereiro de 1974 e o corpo nunca foi encontrado.

Segundo estudos da Comissão Nacional da Verdade, Fernando foi preso por militares e seu desaparecimento estaria vinculado a este fato.

Existem duas possibilidades, segundo a comissão. Na primeira, após a prisão, Fernando foi levado ao DOI-Codi, em São Paulo, onde desapareceu. Outra possibilidade é de que ele e os amigos foram para Casa da Morte, em Petrópolis (RJ) e seus corpos foram incinerados em uma usina de cana-de-açúcar.

Mais tarde, durante uma transmissão ao vivo em redes sociais enquanto cortava o cabelo, Bolsonaro disse que Fernando foi assassinado por militantes de esquerda, e não pelo regime militar.

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As declarações de Bolsonaro contradizem o atestado de óbito de Fernando Santa Cruz. O documento emitido pela Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos afirma que o opositor ao regime teve a morte causada pelo Estado.

Bolsonaro foi questionado hoje se ele possuía documentos que indicassem, no caso específico do pai do presidente da OAB, se ele foi morto pela esquerda.

"Você quer documento para isso, meu Deus do céu. Documento é quando você casa, você se divorcia. Eles têm documentos dizendo o contrário?", respondeu.

O presidente destacou que não vai alterar a Lei de Anistia, assinada em 1979.

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